6 de janeiro de 2018

Debate Santana Lopes vs. Rui Rio / Directas no PSD.


   Não pude assistir ao debate entre os candidatos à liderança do PSD no próprio dia, quinta-feira, mas recorri à box - evolução tecnológica ímpar. Já em Outubro havia traçado o perfil político de Santana Lopes e de Rui Rio (poderão consultá-lo aqui). Estes debates, pertinentes, têm como objectivo esclarecer o eleitorado, no caso os militantes do partido, acerca da pertinência de se optar por um por outro candidato. Conhecemos as linhas-mestras da orientação de cada um, o que os divide e distingue. Contornarei, portanto, o que havia a dizer sobre ambos. Fi-lo na crónica de 9 de Outubro passado.

    Naturalmente, partilhando a mesma cor partidária, no que respeita a traços gerais da política interna e externa, Santana e Rio não se distanciam muito. A principal diferença reside na personalidade de cada um. Aí, sim, encontramos pessoas com posturas divergentes na vida pública e política. Santana é um animal político, e isso viu-se no debate, procurando confrontar Rio com opções do passado que o podem comprometer diante dos sociais-democratas. Rio foi um crítico da governação de Passos Coelho. Por outro lado, da parte de Rio não senti tanta hostilidade. Aludiu, e muito bem, ao passado governativo de Santana Lopes, quando, sendo número dois de Barroso, o substituiu como líder do governo, no ido ano de 2004, o que viria a provocar a dissolução da Assembleia da República. Rio tem o que Santana não tem: o factor novidade. Os portugueses conhecem bem Santana. A Rio, conhecem os portuenses, e quiçá os nortenhos, alargando o espectro. Rio é contido nas exteriorizações, é mais diplomata e racional. Santana é emotivo. Não teme o confronto e empenha-se em cada luta.

    Os meses em que esteve à frente da governação do país não correram bem a Santana Lopes. Nós somos também o que fomos. Creio que, aí, Santana sabe defender-se. Está confortável com esse passado, e faz pender, sobre Jorge Sampaio, presidente à época, a decisão, a seu ver errada, de ter dissolvido a Assembleia e convocado, consequentemente, novas eleições. Não houve trapalhadas, como Rio garante. Para Santana, havia uma maioria sólida que, por oportunismo de Sampaio, não pôde ir até ao término da legislatura.

    Senti, de igual modo, Santana mais determinado em construir um Portugal sólido para o futuro. Santana é herdeiro, enquanto discípulo de Sá Carneiro, de uma social-democracia próxima às escandinavas, afastada completamente do socialismo tradicional - linha de Godesberg. A competitividade e o crescimento são a grande aposta para o dia de amanhã, que temos de construir desde hoje. O controlo obstinado do défice e os estímulos ao consumo interno não chegam. Rio falou das exportações e expôs as medidas que adoptaria, mas Santana foi mais seguro, contundente, objectivo.

    São homens idóneos, íntegros. Sociais-democratas, moderados. Não haverá, estou em crer, clivagens inesperadas. O controlo das contas públicas estará sempre presente, e é necessário que assim seja. Portugal tem certa tendência para procurar viver acima das suas possibilidades. A esquerda é pródiga com os dinheiros públicos. Os sucessos do actual governo minoritário do PS, minorados pela estabilidade internacional, têm de ser refreados. Vivemos tempos de alguma pacatez, de um ciclo económico favorável. Os impostos indirectos subiram. Desde dia 1 de Janeiro, é mais caro viver-se em Portugal. O custo de vida aumentou. As mudanças nos escalões do IRS não podem justificar que atolemos as pessoas em impostos que não têm parado de subir. A solução não está no aumento. Portugal tem de se qualificar. Santana, aqui, parece saber mais o que quer para o país. Gostei de lhe ouvir uma menção à nossa comunidade científica, qualificada e que dá trunfos lá fora.

   O Estado, que em ambos não deve ser excessivamente pesado para os cidadãos, mereceu duras críticas. O Estado demitiu-se da segurança dos cidadãos: Pedrógão, Tancos, violência na noite lisboeta, e por aí fora. Há um descompromisso inaceitável. Os portugueses contribuem, e bem, para um Estado que se tem revelado ser tudo menos presente: o Estado português é omisso, negligente. O pecado do actual governo que ainda embaraça Costa. O Estado falhou, e falhou rotundamente. Esperamos consequências políticas práticas.

   A decisão final caberá aos militantes do partido. Eu não sou um deles. Não obstante, e pela primeira vez, gostei do desempenho de Santana Lopes. Procuro evitar estabelecer penas de carácter perpétuo. Santana governou, sim, mas pouco ou nada pudemos inferir dos meses em que foi Primeiro-Ministro de Portugal. Sampaio, a conjuntura que se vivia, não importa, não lhe permitiram dar-se a conhecer devidamente com as vestes de governante. Rio é mais previsível, próximo ao centro. Nesse sentido, dir-me-ia mais. Mas Santana tem aquela característica, tão sedutora, de não temer, de arriscar, de reformar para aproximar Portugal dos modelos que lhe servem de referência. E eu gosto disso. Seria interessante, no mínimo, ver um Santana Lopes combativo, líder da oposição. Costa terá a sua preferência por Rio. Conhecem-se desde os tempos de autarcas, e acreditará que Rio lhe será uma dor de cabeça menor, porque de Santana não esperará tréguas. A oposição será para doer. Disso, de certo modo, também se tem valido este governo minoritário suportado pela extrema-esquerda: da falta de uma oposição forte e lúcida. A saída de cena de Passos Coelho e a eleição do futuro líder do PSD, já no dia 13, agitarão o panorama político nacional. Marcelo quer que o governo cumpra o tempo-limite da legislatura. Ninguém parece duvidar. Este ano e o que virá, se não ocorrer uma hecatombe, serão animados.

2 comentários:

  1. Não vi o debate, pude ler aqui este magnifico texto :)

    Prefiro o Rio, porque recordo-me que Santana Lopes afundou a Figueira da Foz enquanto presidente

    Grande abraço

    Francisco

    Não sei porque não assumiu o meu endereço de blogue

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    Respostas
    1. Gerir uma autarquia é distinto. Vai depender, também, do resultado das legislativas: se o PSD consegue governar sozinho ou apenas em coligação.

      Um abraço, amigo.

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