26 de dezembro de 2017

Catalunha 2.0.


   No dia 21, realizaram-se as eleições regionais catalãs, após a aplicação do artigo 155, tendo o governo central assumido o poder na Catalunha até à convocação de novas eleições. A Europa e Espanha, principalmente Espanha, após a campanha de terror que empreendeu, esperavam que os partidos unionistas obtivessem a maioria dos assentos no parlamento catalão, o que não se verificou: o Ciudadanos foi o partido mais votado, mas, em contrapartida, os partidos pró-independência têm a maioria para formar governo. As detenções ilegais, as perseguições políticas e a cargas policiais não intimidaram o povo catalão, que foi chamado a pronunciar-se e que democraticamente confirmou que quer a independência. O partido de Puigdemont, o líder catalão refugiado na Bélgica, garante que só assume o poder se o seu cabeça de lista puder regressar a Espanha. Puigdemont sabe, entretanto, que será detido se o fizer. Vivem-se, na Catalunha, dias de incerteza.

   A líder do Ciudadanos na Catalunha, Inés Arrimadas, nem coligada conseguirá governar, uma vez que os partidos independentistas, juntos, incluindo o Junts per Catalunya de Puigdemont, têm a maioria. Trata-se de uma tripla derrota: de Rajoy, do PP (que teve um péssimo resultado autonómico) e do Rei de Espanha, que não poderão manter a recusa em assumir a escolha que os catalães há muito fizeram. A Catalunha, à sua maneira, vive o que Portugal viveu em 2015, quando o partido mais votado, o PSD, não conseguiu formar governo, abrindo portas a uma maioria de esquerda. Uma maioria. Importa frisar. Há, na Catalunha, uma maioria favorável à independência, o que significa que a maioria do povo catalão é favorável à independência. Parece claro.

   O Rei de Espanha, a quem é atribuído, pela Constituição, um papel unificador, foi profundamente infeliz na primeira declaração, há meses, em meio da sublevação catalã. Desta vez, no tradicional discurso de Natal, aparece bem mais sereno e conciliador, porque saberá, de antemão, que é o que se espera de um Chefe de Estado de uma monarquia. Tomar posição, seja ela qual for, afasta-o do seu propósito. Como não desempenha qualquer função executiva, deve agir de acordo com aquilo que é, ou seja, rei de todos os espanhóis, ainda que daqueles que não o querem ser.

   O impasse não tem fim, tudo indica. Há um ciclo pernicioso, a menos que os partidos independentistas refreiem os ímpetos. Não sabemos até que ponto Puigdemont está disposto em pôr em causa a sua liberdade para assumir a liderança da autonomia catalã. Admitindo que o faça, e que as autoridades espanholas não lhe dêem ordem de prisão, não sabemos se manterá o discurso de cisão face ao poder central, que é como quem diz, Madrid.

   A sociedade catalã está dividida. Eu, que só pró-independência da Catalunha, não poderei ignorá-lo. O que lamento, sim, é que haja uma tendência para se simpatizar pelos unionistas, como se os independentistas não merecessem que as suas súplicas fossem atendidas. A Europa vira-lhes a cara, os Estados também, e a opinião pública, a portuguesa, que é a que me interessa, suporta Madrid. Temos milhões de catalães que querem poder decidir o seu futuro de forma soberana.  Não temos qualquer legitimidade, sendo livres, para impor a submissão a outros povos. Essa arroganciazinha de quem não teve de lutar por nada nos últimos séculos - o nosso caso - era desnecessária, e até não nos dignifica.

2 comentários:

  1. Este ano Espanha já terá 24 pontos garantidos na Eurovisão... lololol

    12 de Andorra e 14 da Catalunha :)

    E Viva la España

    Grande Abraço amigo

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    Respostas
    1. 'Aquilo' na Catalunha não 'tá fácil, não.

      um abraço, amigo.

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