22 de março de 2017

Aquarius.


    As terças-feiras estão consagradas ao cinema. À partida, teria esgotado todos os filmes que me interessavam, mas Sónia Braga e este Aquarius prometiam um bom momento. O que sabia do filme não ia além de um trailer que vi noutra sessão. Ontem, entretanto, quando anunciei que assistiria ao Aquarius, um amigo brasileiro teceu-lhe duras críticas. A verdade é que ele é de direita, e à frente perceberão por que o digo. Acusou o filme de estar politizado, de ser «das esquerdas». Não sei se é de esquerda, de direita, da frente ou de trás, mas que é um grande filme, é, e só lamento ter-lhe dado ouvidos, ou o benefício da dúvida, porque refreou as minhas expectativas.

    Não irei falar muito da narrativa. Isso encontram em qualquer resenha, como dizem os amigos brasileiros. Irei focar-me no papel de Sónia Braga, que complementa a história, que também tem interesse dada que sua invulgaridade. Sónia Braga, aquela actriz paradigmática para os portugueses ("eu nasci assim, eu cresci assim..."), pode considerar a Clara como uma das suas maiores personagens. A menos que Sónia se supere em perfeição, é este papel que irei guardar na memória. E que papel! Desde os instantes em que se comove, aos que se irrita, aos que se sente no meio de um caos qualquer, lutando pelos seus direitos, Sónia é bela mulher de cabelos negros, sensual, que geme de prazer com um garotão de vinte e poucos anos e que passeia o neto nas ruas de Recife. Que conforta e ajuda os filhos, que aceita a diferença de um, que não cede ao conformismo de uma doença que não a matou e ainda menos lhe roubou a libido.

     Como a maioria dos filmes que escapa à lógica de Hollywood, Aquarius focaliza-se nos pequenos pormenores. Um copo de vinho, um álbum, um assomo ao piano. É um filme que se demora. Destaco a ambivalência tão presente no cinema brasileiro pelos contrastes sociais: o lado pobre, o menos pobre (a nova geração e a dos nossos pais), que convivem a paredes-meias. O toque retro está presente no início, de forma velada, e subtilmente ao longo das mais de duas horas. Passaram os Queen e o Roberto Carlos. Ou os 80s estão na moda ou nunca saíram de moda, pois raros são os filmes actuais que não dão uma passadinha por lá.

      E regresso ao início e a Sónia Braga, que arrebata a cena. Uma interpretação inenarrável, uma segurança e uma leveza que só a idade permitem. É uma senhora, e lá fora já jogou as suas cartas. Para mal dos nossos pecados, o filme, no Brasil, tem sido recebido com desconfiança. Respira-se política no país irmão, e não será só por lá. É uma caça às bruxas adaptada. Quem não está connosco, está contra nós. O filme aborda temáticas caras à esquerda: a igualdade, a afirmação feminista, um toque subtil nas minorias, ingredientes que, per se, não definem necessariamente um filme, tão-pouco anulam o mérito dos actores. Há que saber analisar racionalmente uma obra.

      Aconselho. Na senda da apreciação de um jornalista brasileiro, Reinaldo Azevedo, da revista Veja, « o dever das pessoas de bem é boicotar Aquarius », porque o filme é socialmente incorrecto, provocatório. Morde os calcanhares às senhoras que acompanham os seus maridos e que mal dissimulam a mão a tapar os olhos enquanto Sónia Braga escandaliza a moral, seja com o seu corpo, seja com as suas atitudes. A rever.

14 comentários:

  1. Tenho que ir o ver enquanto posso :)

    Grande abraço amigo

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    1. Sim, vai. Mas como tens tendência a ver a mão da esquerda em tudo, aconselho-te a veres o filme sem preconceitos.

      grande abraço.

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  2. "um amigo brasileiro teceu-lhe duras críticas. A verdade é que ele é de direita" Sim a polarização esquerda x direita está forte aqui no Brasil, me defino de centro pendendo pra esquerda, mas a verdade é que os de "direita" no Brasil, na verdade, nem assistiram o filme pra falar! Somente dizem que é de esquerda porque o diretor e o elenco do filme protestaram contra o governo de Temer o chamando de Golpista no festival de Cannes e a direita brasileira diz que não ocorreu golpe e quem fala isso é esquerdista!
    Nick

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    1. Eu também sou de centro-esquerda, tendencialmente. Prazer, Nick.

      Sim, é realmente verdade. Este meu amigo diz que "boicotou" o filme. E critica-o. O maior dos disparates. Desdenhar de algo que nem se conhece. É estupidez pura.

      Também por isso, sim. Devido ao episódio de Cannes. Não só. Há temas caros à esquerda no filme.

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  3. Eu gostei muito do filme. Leve e profundo com uma Sónia Braga em Grande !
    A leveza a par com a profundidade são um duo que sempre apreciei no cinema brasileiro :)

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    1. A Sónia soube alternar entre a leveza e a profundida, mas não considerei o filme nada leve. Pelo contrário. É profundo do princípio ao fim. E tenso. Ficamos sempre à espera de onde surgirá o mal. :)

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    2. Não me soube expressar. Quando falo em leveza falo nos diálogos corriqueiros entre as personagens, no jeito de conversar brasileiro, na forma como as relações se desenvolvem... não na temática claro :).

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  4. Aproveito e corrijo a gralha: *profundidade. :)

    Sim, sim, Magg. :)

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  5. Desconhecia o filme, só soube dele através de ti. A ver se consigo vê-lo. Pelo que li aqui, vale a pena!

    Um abraço :)

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    1. Sim, vale. Bom, para mim valeu, não é... Depende de cada um.

      um abraço. :)

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  6. Mark estás cinéfilo :) o que se passa contigo :-p até diria que estás mais que eu lol.

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    1. É capaz. (risos)

      E tenho visto mais filmes. Não escrevo é artigos aqui sobre eles ("A United Kingdom", "Life", etc.). Vou escrevendo qualquer coisa sobre isso no fb. Lês lá. :)

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  7. A sua crônica é uma maravilha, Mark. Tão completa, sensível, bem escrita. Muito bom!

    Eu assisti e adorei o filme. Senti o Brasil, todo o Brasil, nele. Sabe como é? Pois então. O filme é a cara do Brasil, nas desigualdades, no preconceito, na crise de valores.

    Um abraço forte!

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    1. Obrigado, Ty. :)

      Sim. O filme será inovatório no argumento. O contexto é sobejamente conhecido.

      um grande abraço de saudade!

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