22 de janeiro de 2017

Silêncio.


   O convite surgiu atempadamente, enquanto lia o Animal Farm do Orwell. Fomos à sessão da meia noite nas Amoreiras; em rigor, a sessão da uma, a hora a que o filme começou pela quantidade extenuante de comerciais que o precederam.

   Scorsese teve uma boa ideia. Quando tomei conhecimento da história, fiquei feliz por Hollywood querer abordar um capítulo que não tem merecido a atenção suficiente da indústria cinematográfica. A penosa vida dos missionários portugueses no Japão, em tentativas de levar a palavra de Deus contida nos evangelhos. No zénite da presença portuguesa, centenas de milhares de japoneses aderiram à nova fé, que, entretanto, lesava os interesses das autoridades locais. Os neerlandeses, por seu turno, contrariamente a portugueses e castelhanos, respeitavam, regra geral, os costumes e as práticas religiosas dos povos, não se arrogando dessa atitude messiânica, que foi interpretada, no Japão, como uma fé hostil e forasteira, merecendo a reprovação, a perseguição e, no limite, a expulsão dos jesuítas.

   O filme tem o típico pendor religioso dos seus congéneres, o que se verifica na envolvência espiritual. As densas paisagens verdejantes transportam-nos a uma realidade de tal modo distante, geográfica e culturalmente, que sentimos verdadeira compaixão pela missão hercúlea daqueles dois padres portugueses, que partiram um busca de um terceiro, também ele português, de quem se dizia perdido na crença, um apóstata.

    A vida dos japoneses convertidos ao cristianismo era terrivelmente sofrível. Professavam a sua fé no mais absoluto segredo. Qualquer símbolo cristão, como uma cruz ou um simples rosário, representava a redenção absoluta, a presença de Deus no seio dos homens. À chegada dos padres, aqueles modestos aldeões reagiam como se estivessem diante do próprio Filho de Deus, arriscando as suas vidas se preciso fosse, morrendo pela fé, recusando-se a blasfemar e a renegar a Cristo. Essa faceta não é conhecida no ocidente. Parafraseando um dos padres, ali, entre aqueles homens, Deus teria as mais devotas das suas criaturas. As interpretações foram magistralmente conseguidas. Tanto amor a Cristo, tamanha fé inabalável, mesmo em pessoas que tudo quanto conheciam não ia além daqueles casebres improvisados no meio do nada.

    Andrew Garfield, o actor principal, encarnou, a meu ver, na perfeição o papel de jovem sacerdote, obstinado, corajoso, com crises de fé, naturalmente, mas que soube adaptar a profunda religiosidade, com chamamento divino, à vida que o aguardava naquelas paragens, sob o olhar atento e voraz do  inquisidor-mor.

    O filme é demasiado extenso, e não deixa de pecar por alguns clichés. A traição de Judas no Getsémani, o caminho do calvário; nem as vis moedas, jogadas pelo algoz aos pés do camponês dissoluto, foram esquecidas. Não obstante, o suplício de todos quanto se recusavam a abjurar a Cristo, relembrando os martírios dos primeiros cristãos no tempo dos romanos, impressionável aos mais sensíveis, leva-nos a questionar os limites da fé, assumindo que tem limites, e até onde estamos dispostos a ir em sua defesa.

    Aconselho o filme. O circunstancialismo histórico tem muito interesse, os actores saíram-se bem, e a obra em si é nem mais e nem menos do que um testemunho de fé, no silêncio, como perceberão.

17 comentários:

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    1. Creio que chega às salas brasileiras apenas em Fevereiro. :)

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  2. Estou cheio de expectativas para ver esse filme! E depois desta tua análise, fiquei ainda com mais vontade!

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    1. Oh, ainda bem! :)

      Eu adorei o filme, mas sou suspeito, porque é histórico, para mais na Idade Moderna, muhahahah.

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  3. Fui ontem ao Colombo com amigos e adorei :)

    Grande abraço amigo

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  4. Olá Mark
    gostei muito do texto sobre o filme do Scorsese, que li, como sempre, com muita atenção. Também vi o filme e gostei bastante.

    Relativamente ao teu texto, gostaria, se mo permites, de colocar duas questões.

    1ª Quando referes que o "filme tem o típico pendor religioso dos seus congéneres", estás a pensar concretamente em que filmes, quais são os congéneres que tinhas em mente?

    2ª Referes que o filme peca por "alguns clichés". Podes dar exemplos? É que à situação que mencionas, a da traição, eu não chamaria propriamente um cliché, parece-me mais que é uma referência directa à vida de Cristo, e que tem como função acentuar a guerra silenciosa que se trava no espírito do Padre Rodrigues, a sua crise de fé.

    Agradeço-te o facto de escreveres textos que apetece ler e discutir e questionar. É tão raro isso, hoje em dia.

    grande abraço
    miguel

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    1. Olá, Miguel.

      Claro. Quantas questões quiseres. :)

      Respondendo à tua primeira questão, lembrei-me d' "A Paixão de Cristo", do Mel Gibson. A atmosfera envolvente, a neblina, o fervor. Não o disse em tom depreciativo. Gostei imenso, atenção.

      Quanto à segunda questão, é recorrente recriarem a cena da traição, fazendo grandes planos, não raras vezes em câmara lenta, ao lançamento das moedas. Torna-se rotineiro, daí um cliché. Até o camponês se arrependeu, tal qual Judas. Não sei se reparaste, mas até o Padre Rodrigues representou um Cristo no século XVII. Foi demasiado óbvio para mim, e fico sempre reticente quando assim é.

      Nada do que referi retira mérito ao realizador ou ao enredo. Gostei bastante.

      Obrigado pelas tuas palavras.

      um grande abraço de saudade.

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  5. Gostei muito da tua análise/crítica ao filme. Ainda não o vi, mas fiquei muito interessado após ler o teu post! ^^

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  6. Como sabes Mark a minha opinião sobre o filme em si não é das melhores, o que mais gostei sinceramente foi a história em si, "desligada" da lentidão e do silêncio exagerado dum filme que tinha tudo para ser genial. Não foi.

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    1. Creio que até isso terá sido propositado. O filme é, em si, um estimulo à reflexão. :)

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  7. Parece interessante se bem que, conhecendo-me, se fosse ver a obra receio que os restantes espectadores não o conseguissem ver em silencio. Julgo ser filme para apreciar quando o cansaço acumulado for menor.

    Beijnhos

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    1. Adormeceria, Magg? :)

      um beijinho.

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    2. Infelizmente, sim .

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  8. Também quero ver e acho que o meu Rapaz tb quer ir, pelo que já tenho companhia xD

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Um pouco da vossa magia... :)