15 de janeiro de 2017

Em Goa.


    Quis escrever algo sobre a viagem que António Costa encetou a Goa, terra que lhe é muito especial por vínculo familiar. Pelo meio, faleceu Mário Soares, e julguei que o espaço temporal faria com que a visita de Estado do Primeiro-Ministro se perdesse na espuma das publicações. Mas não é assim. A visita a Goa foi especialíssima. Visitas de Estado, desde que Portugal e a Índia reataram as relações bilaterais, no seguimento do 25 de Abril, houve duas. A de Mário Soares, de quem tanto se tem falado, é célebre. Marcelo segue-lhe os passos, embora convenha relembrar aos mais esquecidos que este estilo presidencial muito personalizado e focado na figura do titular, com trejeitos um tanto ou quanto monárquicos, mesmo num republicano convicto, foi inaugurado por Soares. E assim foi recebido Costa, com todas as honrarias, por ser um filho da terra.

    O capítulo Goa, Damão e Diu, o Estado Português da Índia, foi mal encerrado, como Timor, como toda a África lusófona; como o império, no fundo. Há velhas mágoas e ressentimentos. Atribui-se a culpa a quem não a tem. Spínola propôs uma união federal, Caetano foi homem de certa visão, e a ala conservadora do Estado Novo, no entendimento de Oliveira Salazar e seguindo-lhe os passos, arvorou-se na convicção de que as Nações Unidas, de ânimo leve, consentiriam com a manutenção da ocupação, que nem aos EUA e à URSS interessava. Aqueles territórios passaram do colonialismo para o neocolonialismo. A independência aproveitou às elites, e o que a guerra colonial não fez, as subsequentes guerras civis fizeram. Ainda há dias, a propósito, vi uma reportagem relacionada à situação dramática e aflitiva das crianças angolanas.

     Em Goa foi distinto. O Estado Português da Índia tinha um estatuto especial no seio do império, bem assim como Cabo Verde. Talvez pelas brumas do passado, talvez por a Índia ser o paradigma da expansão portuguesa. Quando Nehru anexou aqueles territórios à recém-constituída União Indiana, Portugal não reagiu militarmente, pela distância, por insuficiência de forças e por displicência. O império ruía silenciosamente. Foi a pedra-de-toque. Salazar conseguiu que a ONU condenasse a anexação, sem efeitos práticos, intercedeu junto do Reino Unido, que não moveu um milímetro para ajudar o regime (até por não querer afrontar um estado que lhe pertencera e que era soberano há pouco mais de uma década), sobrando-lhe manter a representatividade do fantasma do Estado Português da Índia na Assembleia Nacional.

     A Índia é uma potência. Costa sabe-o. Goa, Damão e Diu foram incorporados no conjunto da nova nacionalidade sem se atender às suas especificidades culturais, religiosas e linguísticas. A visita do Primeiro-Ministro perdeu-se um poucochinho entre o eco dos afectos. O país seguiu, enternecido, as pisadas de António Costa até às suas origens. A língua portuguesa morre a cada dia em Goa. É a "língua dos velhos", sem prestígio e sem futuro. O que lá vai, lá vai, mas Timor constituiu-se como estado independente da Indonésia, quando por esta foi invadido e anexado. O Estado Português da Índia, numa condescendência só justificada pelo que a Índia representa para Portugal, não teve direito a hinos de cantores, a militância de herdeiros de coroas reais, a pressões internacionais. Esfumou-se no seio da União Indiana. Pouco resta, quando até amigos de longa data de Costa, goeses, lhe falam em inglês.

     Não direi que a comitiva que acompanhou Costa tenha descurado a vertente negocial e económica da visita. Foram vários dias. Certamente que resultarão, de futuro, acordos, protocolos, projectos. Sabe-me, todavia, sempre a pouco quando a matéria é a antiga Índia portuguesa. Não se fez justiça aos séculos de contacto entre ambos os povos, à herança lusa naquelas terras tão longínquas, que pairam no nosso imaginário colectivo com saudade e comoção. Gostaria de ver medidas concretas que preservassem esse legado, um acrescento à riqueza multicultural da Índia, com tantos cheiros, cores e sabores. Porque a ocupação portuguesa, anterior à inglesa, foi muito particular. E há campos dos quais os empresários e os investidores não fruem tanto, como o linguístico/cultural, mas quem conhece a história reconhece-lhes valor, e vantagens.

5 comentários:

  1. Um belo texto, mas sabes a minha opinião :)

    Gosto desta tua nova escrita

    Grande abraço amigo

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    1. Nova escrita? Não escrevo nada de diferente do que escrevia.

      um abraço, amigo.

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  2. Olá Mark. Feliz Ano Novo! Vejo que continua com suas publicações ultra interessantes. :D Sempre um prazer te ler.

    Abraços!!

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    1. Olá, Ty. Saudades! :) Feliz 2017 para ti também, e obrigado.

      um abraço.

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  3. O monhé devia ter ficado lá e a preta devia voltar para Angola. Vergonha

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Um pouco da vossa magia... :)