30 de janeiro de 2017

Alternativas.


    O panorama político português faz-se representar por várias cores partidárias. Não será dos mais abrangentes, mas, ainda assim, da esquerda à direita, reúnem-se tamanhas sensibilidades. O PSD, como maior partido da oposição, ocupa um lugar cimeiro no que respeita às alternativas de governo. Esperam-se, o que também se aplica ao PS, quando dá o lugar aos sociais-democratas, políticas responsáveis, verdadeiramente direccionadas aos problemas concretos do país. Desde o momento em que não conseguiu fazer aprovar o seu plano de governo, o PSD adoptou uma postura claramente revanchista. Começando pelo seu líder, Pedro Passos Coelho, que não cede, julgando que ao manter-se no leme dos destinos do partido demonstra que não abandona o país. A atitude de ostentar a bandeirinha de Portugal à lapela é uma garotice típica de quem não entende como funciona a alternância democrática.

     A propósito da votação da TSU, ver o PSD aliado a extrema-esquerda é cenário dantesco. O que tem incomodado Pedro Passos Coelho e os seus correligionários é o aumento progressivo do salário mínimo nacional. Tudo o que belisque os interesses do grande patronato é motivo para que o PSD se movimente, impaciente, nem que para isso siga a tradicional rebeldia do PCP e do BE. A propósito, tudo farão para que a aliança governativa falhe ou saia melindrada. A retórica, um ano volvido, é a mesma: usurpação. A solução encontrada, como já foi sobejamente comentada, inclusive por mim, encontra total cobertura na Constituição e, diria mais, é naturalíssima em qualquer país cuja democracia esteja viva e saudável.

     Ainda que se pense o contrário, reconheço a importância do PSD como um grande partido da social-democracia europeia. Admiro o PSD de Sá Carneiro, nomeadamente, quando o partido, enquanto PPD, foi fundado, assentando num centro-político razoável e equilibrado. A sucessiva deriva à direita, à extrema-direita, a última protagonizada pelo actual líder, vem descaracterizando o partido da sua ideologia primitiva. O PSD, presentemente, perdeu espaço no seu campo político. Com esta liderança, ademais, revela ter ficado preso ao passado, daí que não consiga impor-se e recuperar a confiança do eleitorado. Urge renovar o partido, mudar de presidente, arejar - que me permitam os sociais-democratas por estes singelos e despretensiosos conselhos.

22 de janeiro de 2017

Silêncio.


   O convite surgiu atempadamente, enquanto lia o Animal Farm do Orwell. Fomos à sessão da meia noite nas Amoreiras; em rigor, a sessão da uma, a hora a que o filme começou pela quantidade extenuante de comerciais que o precederam.

   Scorsese teve uma boa ideia. Quando tomei conhecimento da história, fiquei feliz por Hollywood querer abordar um capítulo que não tem merecido a atenção suficiente da indústria cinematográfica. A penosa vida dos missionários portugueses no Japão, em tentativas de levar a palavra de Deus contida nos evangelhos. No zénite da presença portuguesa, centenas de milhares de japoneses aderiram à nova fé, que, entretanto, lesava os interesses das autoridades locais. Os neerlandeses, por seu turno, contrariamente a portugueses e castelhanos, respeitavam, regra geral, os costumes e as práticas religiosas dos povos, não se arrogando dessa atitude messiânica, que foi interpretada, no Japão, como uma fé hostil e forasteira, merecendo a reprovação, a perseguição e, no limite, a expulsão dos jesuítas.

   O filme tem o típico pendor religioso dos seus congéneres, o que se verifica na envolvência espiritual. As densas paisagens verdejantes transportam-nos a uma realidade de tal modo distante, geográfica e culturalmente, que sentimos verdadeira compaixão pela missão hercúlea daqueles dois padres portugueses, que partiram um busca de um terceiro, também ele português, de quem se dizia perdido na crença, um apóstata.

    A vida dos japoneses convertidos ao cristianismo era terrivelmente sofrível. Professavam a sua fé no mais absoluto segredo. Qualquer símbolo cristão, como uma cruz ou um simples rosário, representava a redenção absoluta, a presença de Deus no seio dos homens. À chegada dos padres, aqueles modestos aldeões reagiam como se estivessem diante do próprio Filho de Deus, arriscando as suas vidas se preciso fosse, morrendo pela fé, recusando-se a blasfemar e a renegar a Cristo. Essa faceta não é conhecida no ocidente. Parafraseando um dos padres, ali, entre aqueles homens, Deus teria as mais devotas das suas criaturas. As interpretações foram magistralmente conseguidas. Tanto amor a Cristo, tamanha fé inabalável, mesmo em pessoas que tudo quanto conheciam não ia além daqueles casebres improvisados no meio do nada.

    Andrew Garfield, o actor principal, encarnou, a meu ver, na perfeição o papel de jovem sacerdote, obstinado, corajoso, com crises de fé, naturalmente, mas que soube adaptar a profunda religiosidade, com chamamento divino, à vida que o aguardava naquelas paragens, sob o olhar atento e voraz do  inquisidor-mor.

    O filme é demasiado extenso, e não deixa de pecar por alguns clichés. A traição de Judas no Getsémani, o caminho do calvário; nem as vis moedas, jogadas pelo algoz aos pés do camponês dissoluto, foram esquecidas. Não obstante, o suplício de todos quanto se recusavam a abjurar a Cristo, relembrando os martírios dos primeiros cristãos no tempo dos romanos, impressionável aos mais sensíveis, leva-nos a questionar os limites da fé, assumindo que tem limites, e até onde estamos dispostos a ir em sua defesa.

    Aconselho o filme. O circunstancialismo histórico tem muito interesse, os actores saíram-se bem, e a obra em si é nem mais e nem menos do que um testemunho de fé, no silêncio, como perceberão.

15 de janeiro de 2017

Em Goa.


    Quis escrever algo sobre a viagem que António Costa encetou a Goa, terra que lhe é muito especial por vínculo familiar. Pelo meio, faleceu Mário Soares, e julguei que o espaço temporal faria com que a visita de Estado do Primeiro-Ministro se perdesse na espuma das publicações. Mas não é assim. A visita a Goa foi especialíssima. Visitas de Estado, desde que Portugal e a Índia reataram as relações bilaterais, no seguimento do 25 de Abril, houve duas. A de Mário Soares, de quem tanto se tem falado, é célebre. Marcelo segue-lhe os passos, embora convenha relembrar aos mais esquecidos que este estilo presidencial muito personalizado e focado na figura do titular, com trejeitos um tanto ou quanto monárquicos, mesmo num republicano convicto, foi inaugurado por Soares. E assim foi recebido Costa, com todas as honrarias, por ser um filho da terra.

    O capítulo Goa, Damão e Diu, o Estado Português da Índia, foi mal encerrado, como Timor, como toda a África lusófona; como o império, no fundo. Há velhas mágoas e ressentimentos. Atribui-se a culpa a quem não a tem. Spínola propôs uma união federal, Caetano foi homem de certa visão, e a ala conservadora do Estado Novo, no entendimento de Oliveira Salazar e seguindo-lhe os passos, arvorou-se na convicção de que as Nações Unidas, de ânimo leve, consentiriam com a manutenção da ocupação, que nem aos EUA e à URSS interessava. Aqueles territórios passaram do colonialismo para o neocolonialismo. A independência aproveitou às elites, e o que a guerra colonial não fez, as subsequentes guerras civis fizeram. Ainda há dias, a propósito, vi uma reportagem relacionada à situação dramática e aflitiva das crianças angolanas.

     Em Goa foi distinto. O Estado Português da Índia tinha um estatuto especial no seio do império, bem assim como Cabo Verde. Talvez pelas brumas do passado, talvez por a Índia ser o paradigma da expansão portuguesa. Quando Nehru anexou aqueles territórios à recém-constituída União Indiana, Portugal não reagiu militarmente, pela distância, por insuficiência de forças e por displicência. O império ruía silenciosamente. Foi a pedra-de-toque. Salazar conseguiu que a ONU condenasse a anexação, sem efeitos práticos, intercedeu junto do Reino Unido, que não moveu um milímetro para ajudar o regime (até por não querer afrontar um estado que lhe pertencera e que era soberano há pouco mais de uma década), sobrando-lhe manter a representatividade do fantasma do Estado Português da Índia na Assembleia Nacional.

     A Índia é uma potência. Costa sabe-o. Goa, Damão e Diu foram incorporados no conjunto da nova nacionalidade sem se atender às suas especificidades culturais, religiosas e linguísticas. A visita do Primeiro-Ministro perdeu-se um poucochinho entre o eco dos afectos. O país seguiu, enternecido, as pisadas de António Costa até às suas origens. A língua portuguesa morre a cada dia em Goa. É a "língua dos velhos", sem prestígio e sem futuro. O que lá vai, lá vai, mas Timor constituiu-se como estado independente da Indonésia, quando por esta foi invadido e anexado. O Estado Português da Índia, numa condescendência só justificada pelo que a Índia representa para Portugal, não teve direito a hinos de cantores, a militância de herdeiros de coroas reais, a pressões internacionais. Esfumou-se no seio da União Indiana. Pouco resta, quando até amigos de longa data de Costa, goeses, lhe falam em inglês.

     Não direi que a comitiva que acompanhou Costa tenha descurado a vertente negocial e económica da visita. Foram vários dias. Certamente que resultarão, de futuro, acordos, protocolos, projectos. Sabe-me, todavia, sempre a pouco quando a matéria é a antiga Índia portuguesa. Não se fez justiça aos séculos de contacto entre ambos os povos, à herança lusa naquelas terras tão longínquas, que pairam no nosso imaginário colectivo com saudade e comoção. Gostaria de ver medidas concretas que preservassem esse legado, um acrescento à riqueza multicultural da Índia, com tantos cheiros, cores e sabores. Porque a ocupação portuguesa, anterior à inglesa, foi muito particular. E há campos dos quais os empresários e os investidores não fruem tanto, como o linguístico/cultural, mas quem conhece a história reconhece-lhes valor, e vantagens.

12 de janeiro de 2017

Obama.


   A dias de findar o mandato à frente dos destinos da nação mais poderosa da Terra, julgo ser oportuno fazer um balanço destes oito anos de presidência do Partido Democrata.
   Quando Obama chegou à Casa Branca, em Novembro de 2008, escrevi sobre isso. Era um adolescente encantado com a vitória do primeiro afro-americano, ludibriado pelo capital de esperanças que configurava eleger um homem com um historial de confluência religiosa na família, o que seguramente facilitaria o diálogo ecuménico, de extrema importância no Médio Oriente (os Estados Unidos viam-se em mãos com o conflito no Iraque). Bush foi um dos piores chefes de Estado. Interessava-lhe estimular conflitos, invocar pretensos eixos do mal. Obama herdou o pior dos legados. Urgia reformar a administração, retirar no Iraque, apaziguar os ânimos e melhorar a imagem do país junto dos seus aliados e até dos seus inimigos.

    Obama foi um sonho que não se concretizou. Fez justiça na revogação de políticas discriminatórias; conseguiu reduzir os impostos, primeiramente, e impulsionar a economia (meio na crise despoletada em 2008); tentou universalizar o acesso dos cidadãos mais carenciados aos cuidados básicos de saúde; protegeu os imigrantes, mas no essencial não lhe conhecemos uma medida que o perpetue na história. Se compararmos as expectativas depositadas com a obra feita, veremos que Obama passou pela presidência tal qual muitos dos seus antecessores, sem nenhum feito de registo. Na política externa, não refreou o ímpeto belicoso dos EUA. Deu o seu aval a uma intervenção armada na Líbia, enquanto retirava do Iraque e do Afeganistão, que cedo mergulharam no caos. Nem a morte de Bin Laden trouxe maior tranquilidade e paz. Pelo contrário. Regressaram ao Iraque e envolveram-se na Síria, controlados em parte pelo Daesh. De igual modo, não encerrou Guantánamo, ainda que o quisesse.

     Entretanto, aproximou os EUA de Cuba, reatando as relações bilaterais com a ilha. No Irão, conseguiu negociar o fim do programa nuclear de Teerão. Em simultâneo, a Rússia procura expandir-se na Europa de leste. Nem o fato de "polícia do mundo" lhes assenta adequadamente, uma vez que fica demonstrado que a ingerência suscita o descontentamento em potências rivais e o desejo de afrontar esse papel de que se investiram, à margem das Nações Unidas.

     Teremos uns EUA mais justos e solidários? Diria que sim. Convivem melhor negros e brancos, heterossexuais e homossexuais, nacionais e estrangeiros. Obama foi o rosto da tolerância. A igualdade é-lhe cara. Está-lhe na massa do sangue. Quis e idealizou um país em que todos pudessem viver pese embora as suas diferenças raciais, sexuais e socioeconómicas.

      É o fardo do intervencionismo e do espírito beligerante que carregará nas costas, bem como os seus sucessores. As décadas de interferência produziram estes frutos, situação que Trump soube interpretar, prometendo que fará de tudo para diminuir a presença dos EUA nos conflitos internacionais. Caricato, porque os EUA começam a sentir-se reféns, quando têm sido carrascos.

7 de janeiro de 2017

Mário Soares (1924 - 2017).


     Este será um dos obituários mais dolorosos. Faleceu Mário Soares. Todos contávamos com a sua partida, cedo ou tarde, pela idade e pelo quadro clínico melindroso. Da minha parte, pelas notícias que nos chegavam da família, dando conta de uma estabilização dos sinais vitais, não tendo sido necessário recorrer a qualquer suporte artificial, julguei que a recuperação poderia dar-se - fui um crítico às prematuras crónicas de homenagem e de despedida. Conquanto tivesse exacta percepção do risco que corria, acreditei até ao fim. Fui tomado por um pesar, que de resto não dissimulo, ao saber que nos havia deixado esta tarde.

     Todas as nações têm as suas figuras de proa. Mário Soares, pela sua militância política desde cedo, pelo veemente oposicionismo ao Estado Novo de Oliveira Salazar, que lhe valeu a prisão, penas físicas, a deportação e, por último, o compulsivo exílio, posiciona-se em lugar cimeiro quando é hora de evocar uma individualidade que desperte do colectivo nacional. Após o 25 de Abril, desempenhou os mais altos cargos do poder, enquanto ministro, primeiro-ministro e presidente da República. Esteve presente em momentos decisivos para o país, seja no conturbado processo de descolonização - onde, mais tarde, reconheceria terem sido cometidos erros - seja nos trâmites que envolveram a negociação com as instâncias comunitárias, que culminariam na adesão à então Comunidade Económica Europeia, ou nas sucessivas crises financeiras dos primeiros governos que liderou, nas quais duas delas levariam à intervenção do Fundo Monetário Internacional.

      Um combatente pela Liberdade, que sabia ser esse o caminho. O seu papel no PREC foi determinante, evitando-se a demanda à extrema-esquerda e a um regime ditatorial de inspiração soviética. Um homem que não temia o diálogo e o combate político (com 80 anos, sujeitou-se a um acto eleitoral). Em 1991, aquando da sua eleição para o segundo mandato à frente da Presidência da República, venceu por uma margem expressa e inequívoca, confirmando-se os índices da sua popularidade, certamente granjeados pela familiaridade no seu trato com as pessoas, reflectido nas bem conhecidas "presidências abertas". A longeva carreira política, desde os anos 40  até 2006, quando concorreu pela terceira vez à chefia de Estado, tornam-no na personalidade mais marcante da última metade do século XX, obreiro da democracia portuguesa, um dos pais fundadores do regime constitucional emanado da Revolução de '74.

      O Governou decretou três dias de luto nacional. Mário Soares terá um funeral com honras de Estado. Soube, desde o início, que esta seria a atitude que António Costa iria tomar. Todos os tributos que lhe possamos prestar não expressarão o justo agradecimento pelo muito que lhe devemos. Os grandes homens distinguem-se por feitos concretos, e só os que não têm a coragem e a firmeza em tomar decisões controversas conseguem lograr a trivial consensualidade. Recordá-lo-ei pelo sorriso bonacheirão, pelo estilo informal e cordial, pelo humor, pelas convicções ideológicas e pela sua assaz perspicácia e resistência.
      Diria ainda que morreu o mais internacional dos políticos portugueses, amigo de históricos como Olof Palme ou Mitterrand. Com ou sem o socialismo na gaveta, Soares soube munir-se do seu apurado faro político, negociando com vista a salvaguardar a paz nos conturbados tempos pós-revolucionários, encaminhando Portugal para a Europa comunitária e redimindo-nos assim de décadas de atraso social.

       O sentimento de orfandade é inevitável. Perdemos uma referência histórica de inestimável valor, o primeiro Presidente civil eleito democraticamente, e o que me provoca o maior desalento é saber que não mais será possível reunir todos os chefes de Estado que recolheram a aprovação do povo português nas urnas.
        Associar-me-ei, por imperativo de consciência, às cerimónias públicas fúnebres de segunda-feira, nos Jerónimos.

4 de janeiro de 2017

O concerto de Ano Novo de Mariah Carey.


   Há anos que não toco no tema, ou na pessoa, sendo preciso, Mariah Carey por aqui, o que já levou, inclusive, a que me perguntassem: «mas ainda és fã?». Sou, sou fã. O que se passa é que as pessoas crescem, os interesses mudam, e em boa verdade nutro por ela quase o mesmo que pela Ana Malhoa: um carinho pueril. Por mais que a Ana se afirme a bomba latina, com as tatuagens, as lap dances e tudo o mais, eu não esqueço a menina que me despertava pelas manhãs, nos anos 90, levando-me a soletrar em alto e bom som: "sabes que começou no A... A, A, A (...)". Com a Mariah, passa-se isso. Já a apreciavam aqui por casa. Cresci com aqueles álbuns épicos, como o Music Box e o Daydream - dois dos álbuns mais vendidos de todos os tempos, inclusive - levando-me a que a seguisse e a associasse a momentos, estados d' alma, and so on. Desde que anda acompanhada de rappers, fazendo playback por tudo quanto é canto e adoptando aquela postura insuportável de diva, decepcionei-me gradualmente e afastei-me, sem deixar, contudo, de ouvir as músicas da sua década de ouro, de 1990 a 2000, quando se tornou na vocalista que mais vendia pelos EUA.

   Na noite de fim de ano, no concerto em Times Square, aquilo não podia ter corrido pior. Que ela não canta, não é novidade. Desde 1997 que a sua voz mudou drasticamente, tornando-se mais áspera. O timbre ficou lindíssimo; continuou a conseguir atingir aquelas notas brilhantes, mas já não possuía a potência dos primeiros cinco anos da sua carreira. Aguentou-se durante uns anos. Em 2005, com o TEOM (The Emancipation of Mimi), o seu afamado comeback, quando davam a sua carreira por terminada no seguimento do desastre Glitter, estava com a voz impecável. Sem a força do período debut album - Daydream (1990 - 1995), todavia, ainda aceitável. A partir daí, nem vale a pena. Não canta ao vivo. Se o fizer, apenas em pequenas partes. Ela, que tanto gesticulava a cantar - um dos seus maneirismos mais conhecidos, mal se mexe.

    Falhou o playback, falhou a cantora. Bem tentou brincar com a situação, dar uns passinhos com os bailarinos - dançarina nunca foi - mas o descontentamento sobressaía no seu rosto e nas palavras que, entre soluços, lá dizia. Centenas em seu redor, milhões em casa, a assistir, e até o Observador e os principais periódicos portugueses (!) lhe dedicaram artigos. Quando vi o vídeo, admito que não senti a menor pena. Fez por merecer. Defendi-a, evidentemente. Sentir-me-ia um traidor se não o fizesse (quem for fã de algum intérprete ou banda, entenderá). Há quem refira, meio em piada jocosa, que a última morte de 2016 foi a carreira da Mariah. Não sei. Davam-na por morta, artisticamente, entre 2001 e 2004, e ela provou que conseguia reinventar-se. A idade é outra, não é? Acredito, entretanto, que ainda consiga sacar de um trunfo qualquer. Ela foi a primeira artista a introduzir o hip hop e o R&B na pop, ou seja, não falamos de uma mulher qualquer. É compositora. Escreve quase tudo o que canta.

     Se persistir nesta postura displicente - claramente é preguiçosa e não gosta de se esforçar - passará por apuros. Os últimos álbuns têm sido flops, mas aí é acompanhada pelas Madonnas e pelas Britneys, Aguileras e afins desta vida, e os singles são uma miragem dos seus #1s no topo das tabelas estadunidenses. A bem dizer, os seus compatriotas não são muito gentis com o envelhecimento dos artistas. Os tempos mudaram, a qualidade das canções também. Tudo é imediato, tudo procura o sucesso instantâneo. Mostrar o corpo e fazer twerk conta mais do que ter um bom instrumento vocal - aí também a critico, quem sou eu, mas a Mariah passava bem sem aquelas roupas e sem as mamocas todas de fora. É uma senhora. Comporte-se como tal.

     Que se recomponha, que trate da voz, que se esforce, que seja mais profissional e que crie música de qualidade. Pode ser que me reconquiste. Estarei aqui, de braços e de ouvidos abertos.