29 de abril de 2017

April 29.


    Outro ano se passou. O calendário é testemunha. Neste aniversário, entretanto, não senti a aproximação do dia com angústia, não. Não fosse a mãe avisar-me e ter-me-ia esquecido de encomendar o bolo, discreto, sem floreados.

     São 15h. O pai ainda não me ligou. Não posso crer que se tenha esquecido, não, falamos todos os dias, ou quase todos os dias. Eu tenho a sensação de que são todos, porque quando conversamos sinto que lhe conheço os dias, assim como ele conhece os meus. Da avó, sua mãe, o telefone também não deu conta.

     Queria que os meus aniversários fossem diferentes. Não só os aniversários, a bem dizer. Sei que está nas minhas mãos mudar o destino, somos nós que o delineamos. Mas a vida assusta. Assusta vivê-la. Invejo, invejo aqueles que lhe vêem um encanto qualquer. Que dizem que é bela. O mal deve estar em mim, sim, mas não a vejo assim. Encaro-a mais como um fardo, amenizado por mansos instantes.

       Em contrapartida,  a imprevisibilidade deixa-nos na expectativa de um amanhã risonho. Quem sabe ele venha.

Actualização.: Poucos minutos após a publicação do post, recebi um telefonema do pai e da avó.

26 de abril de 2017

Dalida.


   « La vie m'est insupportable. Pardonnez moi »

   Foi com esta mensagem, deixada à cabeceira da cama, que Dalida, aos 54 anos de idade, se despedia da vida, do público e dos poucos íntimos que a acompanharam nos derradeiros meses. A sua carreira somava três décadas. Iolanda, de seu nome verdadeiro, nasceu no Egipto, sendo filha de imigrantes italianos. O pai, segundo o filme biográfico, foi preso e enviado para um campo sob a acusação de uma ligação perniciosa aos nazis. Quando regressou, era outro homem. Tornou-se violento consigo, com o irmão e a mãe. Foi o primeiro dos traumas de Dalida, talvez o que influiria decisivamente até à sua morte.

    Dalida passou por uma leva de sucessivas desilusões amorosas. Quis casar e ser mãe, « ser normal como as outras mulheres », quando o seu empresário, e futuro esposo, a via como um produto comercial. Constituir família, numa carreira em ascensão, poderia acarretar uma interrupção prolongada e, consequentemente, afastá-la do público. Com um mês de matrimónio, descobriu o amor nos braços de outro homem. Embarcou numa aventura que pouco durou, pois haveria de descobrir que Iolanda, a mulher, estava com a sua recente paixão assolapada, enquanto que Dalida, a artista, continuava a amar o marido.

     Os casos e descasos sucederam-se. Três dos homens com os quais se envolveu, incluindo o desditoso marido, haveriam de se suicidar. Dalida não trouxe a morte para si apenas. A beleza, a timidez e aquele jeito muito informal de ser, espontâneo, cativavam os homens, deixando-os desesperados na sua ausência. 
     Engravidou de um fã, um estudante de vinte e dois anos. Naquela que teria sido a oportunidade de ser feliz e de, finalmente, se afastar da ribalta com um rapaz que não a queria pela fama, faz um aborto, que mais tarde descobre que a impossibilitou de poder vir a ser mãe. Outra mágoa.
     Falece-lhe a mãe. Orlando, o irmão e quem geria a sua carreira nos últimos anos, vê a cantora e a actriz, mas não se apercebe dos sinais de exaustão física e psicológica de Dalida, que na década de 60 já havia tentado o suicídio. Finalmente, desiludida com as tragédias que se lhe abateram e sem esperança no futuro, tira a vida na sua casa de Paris.


     O filme é a história de Dalida, a artista extraordinária que marcou uma era na Europa com as suas canções populares românticas dos anos 50 e 60, e também na transição, mostrando a sua irreverência e versatilidade na disco, o que a levaria até aos EUA e a uma bem sucedida temporada no Carnegie Hall. Como a artista não se distingue da cantora, eu creio que houve um bom equilíbrio com a sua vida privada.
     A actriz que lhe dá corpo, Sveva Alviti, é uma mulher lindíssima - faz totalmente o meu género. Conseguiu recriar a Dalida sensual, mas frágil, extremamente carente de afectos, que todavia se transfigurava em palco e sacava do público ovações entusiastas. Profissionalíssima, Dalida nunca desapontava.

      O realizador procurou evitar tornar o filme num melodrama aborrecido e cliché. E bem. O filme é a Dalida. É a infelicidade. E a Dalida e a infelicidade caminharam juntas.

25 de abril de 2017

O 25 de Abril.


    Salvo erro, em 2013 e em 2016 não assinalei a data da Revolução. Está tudo dito, por mim e por todos. Já falámos do passado, do futuro, sobretudo em 2014, ano em que, por ocasião do quadragésimo aniversário, lhe dediquei uma extensa análise. Fará sentido, posto isto, evocar o 25 de Abril?  Acredito que sim, particularmente num ano em que assistimos a uma perigosa involução. A História repete-se, é cíclica. Regra geral, os intervalos temporais que medeiam as ideologias são maiores; por ora, quase que regressamos às primeiras décadas do século passado. Os discursos acesos e nacionalistas estão aí e convencem o eleitorado. Enquanto vos escrevo, os franceses decidem quem será o futuro Chefe de Estado. Pelo meio, Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional, que embora não sendo a favorita, está bem posicionada, defrontando Emmanuel Macron na segunda volta.

    A Revolução de Abril de '74 foi ideológica. Fortemente marcada pelo marxismo. O país não conheceu a democracia, não sem antes passar por uma experiência insólita de tutela militar, até 1982, sob o manto de uma Constituição que enunciava direitos e deveres, também ela, como todas. Vincadamente socialista, da qual o preâmbulo é um remanescente histórico. O bom senso imperaria. O período 74 - 87 foi convulso. A adesão às Comunidades refrearia, definitivamente, a instabilidade política. Sucessivas revisões constitucionais, nomeadamente as duas primeiras (1982 e 1989), depurariam a Lei Fundamental.

     O povo português é tolerante. Salazar chamar-lhe-ia "o povo de brandos costumes". O Presidente do Conselho, em si, foi um pequeno ditador à portuguesa. Franco diria que a modéstia era o seu único defeito. Termos contornado a II Guerra Mundial, muito pelos esforços de Oliveira Salazar, fez-nos passar o século XX na pasmaceira. Posteriormente, não vivemos um Maio de '68. Sofremos reflexos. Acompanhávamos o que se passava na Europa à distância. A Europa assemelhava-se a uma realidade remota, a nós, isolados. A Revolução trouxe a libertação, não só a política; a social. Os costumes mudaram. A sexualidade aflorou. O povo saiu à rua. O ensino escolar foi efectivamente universalizado. Ler, escrever e contar não mais bastava.

     Conseguimos traçar um quadro fidedigno de quem éramos e de quem somos. Não só no espectro económico. Portugal conheceu um desenvolvimento significativo, já o sabemos. Falo-vos do povo, da nação portuguesa. Mudámos. Temos jovens qualificados, que consideramos intransigentes e mal-educados, sim, mas que são infinitamente mais cultos do que os seus avós. Aceitamos melhor a diferença. A televisão e a imprensa livre ajudaram-nos nessa transição entre país profundamente atrasado, em variadíssimos domínios, para membro da vanguardista Europa. Devemo-lo a Abril. Temos razão quando reivindicamos mais e quando cremos que quarenta anos dariam para um salto maior. Sim. Aí, entretanto, há a somar os intoleráveis índices de corrupção que temos e a podridão que perpassa a classe política.

      Só alguém desprovido de sentimento patriótico poria em causa a pertinência do golpe de Estado. Ou um saudosista, da velha guarda. Com todos os erros, e foram certamente muitos, Abril foi necessário. E foi benévolo. Contornámos uma guerra fratricida, evitámos um round two a outro autoritarismo, sabe-se lá se pior do que o primeiro, e desenvolvemos. Desenvolvemos. Muito. E eu não conheci o Portugal do Estado Novo, que mo fazem chegar através de testemunhos vivos.
      Viva Abril, Viva Portugal.

20 de abril de 2017

A tirania turca.


     É uma síndrome que percorre a Europa, não de uma ponta à outra, que Portugal tem-se sabido comportar condignamente, e damos uma lição à Europa dita civilizada. O extremismo recolhe poucos frutos no mais ocidental dos países do Velho Continente. Não conhecemos os discursos xenófobos, extremistas, que diabolizam minorias. Da Europa dita civilizada não faz parte a Turquia, que ainda é Europa, geograficamente, e que dirige a sua política externa para o ocidente. Aliado de primeira linha dos EUA, a Turquia é membro fundador da NATO, em 1949; do Conselho da Europa, no mesmo ano, e há perto de trinta anos acalenta o sonho de aderir à União Europeia. Em matéria de direitos humanos, o país retrocede, muito embora a abolição da pena de morte, num primeiro momento, tenha surgido como um sinal positivo que a Turquia parecia querer dar aos seus futuros parceiros.

      A Europa olha-a com desconfiança, e motivos não lhe faltam. Erdogan, o actual Chefe de Estado, sujeitou uma lei de revisão constitucional a plebiscito, por imperativo constitucional. O povo votou-a e fê-la aprovar. A partir de 2019, a Turquia, até então regida por um sistema parlamentar - em que o Governo depende do Parlamento -, tornar-se-á numa república presidencialista, ultrapresidencialista, eu diria, com um Presidente que acumulará os poderes legislativo, executivo e ainda terá a prerrogativa de nomear grande parte dos juízes dos tribunais superiores. O que teremos, em suma, será o fim da divisão tripartida de poderes e do sistema de checks and balances, em que os poderes se autocontrolam e autolimitam. A democracia sucumbiu aos devaneios autoritários de Erdogan. A Turquia, que contrastava com os demais países de maioria muçulmana pela sua relativa abertura, pelo Estado laico, pelo multipartidarismo, adensará a longa lista de Estados fanáticos.

     O país está dividido. Erdogan, que pede respeito pelo resultado, terá de lidar com a oposição, que não reconhece a vitória, já contestada e marcada por suspeitas de ilegalidade. Não me admiraria que o resultado do escrutínio tivesse sido obtido às custas de fraudes nas urnas. O Sim obteve pouco mais de 50 %. A sociedade turca está manifestamente dividida, e os poucos pontos percentuais que afastavam Erdogan do resultado que lhe seria favorável estão longe de convencer os analistas internacionais acerca da transparência no processo de contagem.

     Este retrocesso agudizará o preconceito ocidental contra o Islão. A Turquia é um ponto de passagem dos refugiados, lida há anos com revoltas na sua parcela do Curdistão. É frequentemente acusada de etnocídio do povo curdo.

      A adesão da Turquia à UE é improcedente. Não estão reunidas quaisquer condições. O regime turco demonstra rumar em sentido oposto aos princípios e aos valores que sustentam o bloco europeu. Bem assim, a deriva extremista na Turquia não auspicia nada de bom. Está em estado de emergência por um período indefinido, com sucessivas prorrogações. Há perseguições políticas. Pela sua importância estratégica e pela proximidade à Síria e ao Iraque, temo que o caos naquela região, tradicionalmente instável, aumente. A ventura de Erdogan será um estímulo aos populistas europeus que em breve enfrentarão a decisão popular. No ano de Trump e compinchas, nada me surpreende.

17 de abril de 2017

Quem Tem Medo de Virginia Woolf?


   Uma tarde de Páscoa pouco convencional, diria eu à partida. Pelo contrário, a evidência contornou-me as suspeitas: sala cheia, um preço agradável por ser Dia Mundial da Voz (e domingo de Páscoa) e uma peça fantástica, adaptação do filme de 1966 com a magnífica Elizabeth Taylor.

    A peça - deixo o filme para que o vejam; eu vi-o há muitos anos num dos serões da RTP2 - trata de uma noite entre dois casais, o anfitrião e o convidado. Alexandra Lencastre e Diogo Infante são, respectivamente, Martha e George, um casal na meia-idade, de classe média-alta, que vive em permanente conflito. Martha é filha do reitor da universidade local; George, professor no departamento de História. Convencem-se de que melhor será destruir os vinte e três (ou dois) anos de casamento pejados de mentiras, de humilhações - de infidelidades - muito embora tenha havido amor entre eles (se é que deixou de haver por algum momento).

    A meio da madrugada, entre copos a mais, passa-se de tudo, sendo que Martha é o vértice do perigoso desafio que aceitam implicitamente. Martha domina George. O seu pai, omnipresente, surge sempre que é necessário diminuir o marido, mostrá-lo como um tipo omisso, inerte, que vive na sombra do sogro, influente e rico na região. A desavença entre ambos, naquela noite, depressa envolve o jovem casal convidado, Nick, professor do departamento de Biologia, e a fútil e imatura Honey. Fica evidente um conluio de interesses que os une, a George e a Martha, e a Nick e a Martha e a Honey. Eles aproximaram-se delas em busca de uma concretização pessoal qualquer, e no caso de Nick, julgando Honey grávida de um filho seu (verificar-se-ia que era verdade). George propõe um jogo, pondo a nu os pecados da mulher, do colega e da mulher do colega. Revela-se o passado, descobrem-se as fragilidades de cada um dos quatro. Às tantas, a verdade e a mentira ombreiam-se mutuamente.

    Um casamento de farsa necessita de um estímulo, e Martha e George encontram-no na fantasia. Ao alvorecer, a "morte" do filho enfraquece-os, era essa a ligação que tinham. Nick e Honey, interpretados por Lia Carvalho e por José Pimentão, saem com os primeiros raios de sol, apercebendo-se da fragilidade daquele vínculo sem afecto, cercado de inseguranças e de  segundas intenções.  Martha e George, entretanto, terminam num abraço de desalento, exaustos do confronto, órfãos da ilusão que haviam criado e meio que descrentes no dia seguinte.

    A peça e o filme são um retrato dos defeitos e dos vícios que nos acompanham. Da desilusão. Da raiva, da necessidade de afirmação no ataque reiterado. Da desordem sentimental, do desequilíbrio emocional, do histrionismo. Do oportunismo. Da carência afectiva. Da frustração, na incapacidade em superar o fracasso pessoal e profissional.

    Gostei particularmente do desempenho de Alexandra Lencastre. Esteve fenomenal. Afinal, parece-me que consegue fazer melhor do que aquelas novelas de cacaracá. Diogo Infante sente-se seguro em palco. A idade amadureceu-lhe o talento. Os jovens actores como que ainda se procuram no meio artístico, mas vi-os com interesse.

     A peça estará no Teatro da Trindade, no Chiado, até ao dia 11 de Junho, e bem vale a pena.

12 de abril de 2017

Caveman.


   Pegando no convite de dois amigos, esta terça conheceu uma pequena alteração. Gosto imenso de teatro. Sem embargo, o teatro envolve uma interacção dos actores com o público, seja na comédia ou no drama, inexistente no cinema. Já experimentei ir ao teatro sozinho e, bem como ao cinema, sinto um vazio, pelo que procuro evitar. Na medida em que a companhia nem sempre está disponível, acabo por passar largos meses sem assistir a uma peça.

   Fomos ao Villaret. A peça foi importada da Broadway, como tantas. Chama-se Caveman, ou, em português, o Homem das Cavernas. Em registo de monólogo, com a tónica inteiramente no humor, Jorge Mourato, de quem nem sou fã, aborda os estereótipos e todo o fosso que se estabeleceu entre o homem e a mulher, numa análise histórica, sociológica, mitológica e psicológica, através dos tempos, desde o início da humanidade até à actualidade. Sozinho em palco, tendo o dever de nos fazer rir, e com uns poucos utensílios ao dispor, Mourato provocou gargalhadas entusiastas do público.

    Não falamos de um humor requintado. Rimos dos nossos papéis, das mesquinhices do quotidiano, de em como o homem e a mulher são distintos. O mais interessante, a par da peça em si, foi perceber a reacção dos casais, sobretudo a do casal que se sentou imediatamente à minha frente. A cada constatação, anuíam, como que se revendo naquela atitude, naquela situação, naquele contexto em particular. É uma generalização, claro está. Assistimos cada vez mais à reversão de papéis, que se acentuou com a emancipação da mulher e com o consequente abandono da função de guardiã do lar. A sociedade actual já não é , porque ainda é em parte, aquela que Jorge Mourato expõe durante duas horas. É-o em larga medida, e acaba por sê-lo após certa idade, ou precisaremos de envelhecer para ter a noção de como mudámos. Milénios de modelos estabelecidos não se alteram como que num breve compasso de tempo.

    Não é só para casais, embora os tenha visto em abundância. Todos acabamos, de uma forma ou de outra, a ter de lidar com estes estereótipos, pelos nossos pais, pelos nossos amigos ou conhecidos. E, a dado momento, nós agimos assim amiudadas vezes, como se fôssemos um objecto de estudo, vendo-nos desde a perspectiva do actor.

     A peça esta em (re)exibição todas as terças-feiras, pelas 21h:30m.

10 de abril de 2017

A justiça portuguesa.


   Desde que terminei a licenciatura e deixei o mestrado num impasse, afastei-me um pouco dos meandros do Direito. Continuo a subscrever a minha revista jurídica, continuo a ler os artigos que lia, embora tenha deixado de lado, definitivamente ou não, a jurisprudência e os sites que visitava. De igual modo, os manuais e os códigos aguardam na prateleira, meio que desconhecendo o seu destino. Eu diria que os dias de esperança já lhes passaram diante.

    O universo da justiça, em Portugal, provoca o desânimo e a consternação. Agudizou-se sobremodo a promiscuidade entre procuradores e alguns órgãos de Comunicação Social. Os julgamentos sumários, a tabloidização dos processos, as reiteradas violações dos direitos das vítimas e dos arguidos levam-me ao descrédito. Os processos estão anos sob investigação, quando há muito os suspeitos já têm a sentença lida perante a opinião pública. Os procuradores extravasam as suas competências, investindo-se do papel de julgadores quando não o têm. O segredo de justiça é uma piada. Ninguém o respeita.

    O jurista, aquele que terminou a licenciatura, acarreta o preconceito de uma área de formação depreciada, regra geral. Será o advogado inescrupuloso que de tudo fará para ganhar as suas causas, aproveitar-se-á da política para vingar na vida, embarcará numa relação íntima com os OPC e os magistrados, e os governantes, para daí extrair vantagens pessoais. Poucos se lembram de que aquele ou aquela jovem poderá querer marcar a diferença, honrando a lei, o compromisso assumido perante a sua consciência, primeiramente, e a sociedade.

    Não estamos perante uma escolha fácil. Só a vocação e o amor ao Direito justificarão a aventura que é ser jurista num país que não respeita o Direito, que não dignifica a justiça e que não confia nas profissões que estejam directa ou indirectamente relacionadas ao Direito. Como o amor desde sempre me faltou, prefiro dedicar-me a outras áreas de interesse, que me dêem menos problemas e que me tragam uma maior concretização pessoal. E é aí que me encontro.

6 de abril de 2017

A Bela e o Monstro.


     Um clássico do renascimento da Disney. De entre eles, talvez aquele cuja mensagem, a dita lição de moral, ganha um significado acrescido: a beleza reside no interior, e nem sempre quem é mau, é-o irremediavelmente.

     Temo sempre estas adaptações. A maioria delas rouba a magia dos filmes de animação. Em primeiro lugar, porque o desenho animado permite uma liberdade de movimentos e uma fantasia que nós, humanos, representando com o corpo, não temos. Em segundo lugar, o desejo de inovar, de trazer algo de inédito, frequentemente descaracteriza a história. Foi o que aconteceu com o Maleficent, de 2014, que seria o prelúdio de A Bela Adormecida. Era um novíssimo argumento, muito válido, sim, mas quem compra o bilhete, na maior parte dos casos, quer mergulhar no universo Disney das suas memórias, sem perder o fio à meada e sem sentir que não há uma correspondência lógica com o filme que dá o mote à sequência.

      O objectivo foi alcançado, no meu entender. O filme manteve todo o encanto do original, superando-o em realismo, e mal seria se assim não fosse. As características de cada uma daquelas personagens reportaram-me de imediato à Bela, ao Monstro, ao Gastón e aos artefactos vivos. Os efeitos especiais, dignos de nota, num filme que é todo ele circundado de encantos, primaram pela qualidade. As poucas discrepâncias face ao original conjugaram-se bem no todo, foram-lhe um bom complemento.

      O Le Fou, o amigo e companheiro do Gastón, conheceu uma curiosa transformação. Se bem me recordo, tratava-se de um idiota, fraco de espírito, que acompanhava o vilão nas suas façanhas e crueldades. Nesta versão, tornou-se na primeira personagem homossexual de um filme da Disney. Embora caricaturado, é divertido. Nutre pelo violento Gastón um amor mal dissimulado, mas eu diria que são os trejeitos que o actor lhe imprimiu que melhor denunciam, por assim dizer, a sua orientação. A derradeira cena de Le Fou, no baile final, é deliciosamente provocadora.

      Gostei do desempenho pessoal da Emma Watson. A Bela era uma miúda doce, frágil, transfigurando-se numa heroína corajosa quando assim tinha de ser, e a actriz soube encarná-la sem descurar qualquer das facetas da Bela do filme de animação. Fisicamente, entretanto, presumia que a Bela fosse mais bela, com mais presença. A Emma ficou aquém desse protótipo físico que construí da Bela, ainda que nada mais lhe tenha a apontar, e cada um tem o corpo que Deus lhe deu.

      Se me colocassem na inevitabilidade de escolher entre o original e a adaptação, ficaria com o primeiro. Os motivos, entretanto, enunciei-os logo no parágrafo segundo. Perdeu-se, neste caminho tecnológico, uma simplicidade qualquer, insuprível por 3Ds. Ou a idade é outra e o problema está em mim.

      A quem gostou do original de 1991, esta versão é-lhe fiel na banda sonora, na caracterização, na narrativa e na densidade das personagens (na última, tanto quanto possível). Vale a pena ver.

30 de março de 2017

Os sessenta anos do(s) Tratado(s) de Roma.


    No dia 25 de Março de 1957, na capital italiana, seis países europeus assinavam os dois tratados institutivos da Comunidade Económica Europeia (CEE) e da Comunidade Europeia de Energia Atómica (CEEA ou EURÁTOMO). Os Tratados de Roma, como ficariam conhecidos, resultaram dos esforços conjuntos da França, da RFA, da Itália e dos países do BENELUX no sentido de se estabelecer um mercado comum geral, cujas regras seriam aplicáveis nos mais diversificados domínios da actividade económica. No que respeita à segunda, o objectivo vinha desde a criação da CECA, de 1951, tendo-se prosseguido na solidariedade sectorial no domínio específico da energia atómica. Centrar-me-ei na primeira, na CEE.

     Os dois tratados vieram no encalço do labor dos seis países europeus para a construção de um bloco sólido e solidário, procurando-se afastar definitivamente a espessa bruma em que a Europa mergulhou no pós-II Guerra Mundial. Do lado de lá do Atlântico, nos EUA, a administração estadunidense via com bom olhos a instituição de um verdadeiro novo estado, os Estados Unidos da Europa, que teria representatividade nas Nações Unidas. Harry Truman, Presidente dos EUA, fez saber que uma Europa unida e coesa era do agrado do aliado transatlântico. Não nos esqueçamos do contexto social e político que se vivia, no qual a Europa beneficiava de fundos estadunidenses para a sua reconstrução, que ficariam conhecidos pelo nome de Plano Marshall.

     O empenho dos EUA não era desinteressado. A recuperação económica da Europa assemelhava-se como bastante proveitosa ao mercado estadunidense, na perspectiva de se lucrar com as exportações. O fim do tradicional proteccionismo europeu representava uma oportunidade muito vantajosa para as empresas daquele país. Bem assim, os EUA também esperavam que a Europa pudesse, unida e próspera, assegurar a sua própria defesa, permitindo que se diminuísse o contingente militar estadunidense no Velho Continente e que se diminuíssem os gastos operacionais e financeiros com o pesado encargo que assumiram. Por último, e não menos importante, uma Europa forte resolveria o premente problema do enquadramento da Alemanha na nova ordem estabelecida e ajudaria a conter o expansionismo soviético.

      Não se pense que todo o processo que culminou na assinatura dos tratados - ao longo de dois anos, entre a Conferência de Messina, em Junho de 1955, e a assinatura propriamente dita - foi imune a temores. Os seis países receavam que se fracassasse uma vez mais, que todo o projecto saísse gorado. Houve momentos de tensão, designadamente quanto ao estatuto a atribuir aos territórios ultramarinos franceses, que como sabemos são muitos e estão espalhados um pouco por todo o mundo.

      Em 1969, na Cimeira de Haia, fica assente que o alargamento seria o próximo passo, e ele deu-se sucessivamente ao longo das décadas subsequentes. Temos 28 Estados-membros em 2017, e uma UE, emanada do Tratado de Maastricht, herdeira das comunidades.

      No ano em que o projecto europeu celebra o seu sexagésimo aniversário, e poucos dias depois, o Reino Unido, admitido em 1973, no primeiro alargamento, invoca o artigo que lhe permite desvincular-se da UE. Os 28 em breve passarão a 27, e o que todos temem é que não nos fiquemos por aqui. Os Estados-membros já se apressam em garantir as suas posições. França e Alemanha adequam legislações, Portugal, pela voz do governo, assedia as empresas que se deslocalizarão do Reino Unido. O bom domínio do inglês, verdadeiro idioma empresarial em Portugal, os baixos custos em mão-de-obra, a distância, curta, entre ambos os países e o facto muito notório de Portugal ser um destino de eleição para os súbditos de Elizabeth II são factores que decerto pesarão quando chegar o momento de as empresas tomarem uma decisão.

       A UE conhece os seus dias mais sombrios. Um aniversário simbólico com sabor amargo. E o pior poderá estar por vir se o Reino Unido for bem sucedido. A coabitação com a UE dar-se-á de um ou de outro jeito. Não acredito que a mão das instâncias europeias seja leve, porque seguramente terão de demonstrar firmeza na penalização aos britânicos. Nada poderá ficar igual. Se estão fora, estão fora. E haverá ressentimentos. Na Escócia, ressurge a inquietação. Às vezes, desconfio de que nem os britânicos sabem exactamente o que pensar. O país dividiu-se entre os eurocépticos e os euroconvictos. Eu estaria receoso. Ainda que o Reino Unido tenha laços privilegiados com várias nações, o futuro está num grau de incerteza maior do que aquele que por si só comporta. E pensar que há sessenta anos se comemorava.

26 de março de 2017

Mário Cesariny.


   Um génio, um louco. Pouco conhecimento tenho da obra de Mário Cesariny, a literária e a plástica. Foi, como todos os surrealistas, excêntrico, atrevido, incompreendido. O documentário a que assisti no CCB, esta tarde, contribuiu muito para me aproximar do seu legado. Julgo-o como um homem lúcido na sua transcendência. Não passou inerte pela vida. Observou, experienciou, pintou, escreveu, foi perseguido pela PIDE por ser assumidamente homossexual.

    Naqueles noventa minutos, a alma do homem criativo evadia-se do corpo raquítico. A idade é cruel. Soube, extra-documentário, que a inspiração de Cesariny aumentou nos últimos anos. Quando somos mais maduros, experientes pelos erros, perecemos. Cesariny orgulhava-se das suas múltiplas conquistas amorosas e do fracasso com as mulheres. O pai, austero, disciplinou severamente o filho (e as filhas), e as memórias que deixou não foram as melhores. Surpreendeu-me ver que Henriette, irmã de Cesariny, com quem partilhava a casa, diabolizava o pai, vaticinando-lhe o mais cruel dos castigos no outro mundo.

    Custava-lhe ver os amigos partir. Como dizia, « Lisboa morreu e não foi a enterrar ». A poesia não lhe chegava em casa, mas nos cafés, nas ruas. Teve um amor que o quis matar. Não matou. Escreveu para incautos marinheiros que aportavam na capital. Os brasileiros, dizia, eram os melhores. « Vem cá, minha flor. » A voz doce e o sotaque açucarado levavam-no na certa...

     No ocaso da vida, era um homem permanentemente de cigarro na mão, desgastado pelo tempo, sem muitas ilusões. Era cru nas suas convicções, dolorosamente assertivo e genuíno. Não precisava de um psiquiatra, « mas dum homem ». Não escrevia para enriquecer o editor, não pintava para que as galerias julgassem que conheciam a arte, que tinham qualquer coisinha de surrealismo exposta. Foi livre na sua criação, poeta de si mesmo. Culto.

      Gostava de voar, de sonhar que voava. De ser livre. De olhar no espelho e ver-se ao ver o outro. A sua singularidade sobreviveu-lhe na recordação de todos, e é na diferença que encontramos o nosso traço distintivo. Mortais são os iguais.


22 de março de 2017

Aquarius.


    As terças-feiras estão consagradas ao cinema. À partida, teria esgotado todos os filmes que me interessavam, mas Sónia Braga e este Aquarius prometiam um bom momento. O que sabia do filme não ia além de um trailer que vi noutra sessão. Ontem, entretanto, quando anunciei que assistiria ao Aquarius, um amigo brasileiro teceu-lhe duras críticas. A verdade é que ele é de direita, e à frente perceberão por que o digo. Acusou o filme de estar politizado, de ser «das esquerdas». Não sei se é de esquerda, de direita, da frente ou de trás, mas que é um grande filme, é, e só lamento ter-lhe dado ouvidos, ou o benefício da dúvida, porque refreou as minhas expectativas.

    Não irei falar muito da narrativa. Isso encontram em qualquer resenha, como dizem os amigos brasileiros. Irei focar-me no papel de Sónia Braga, que complementa a história, que também tem interesse dada que sua invulgaridade. Sónia Braga, aquela actriz paradigmática para os portugueses ("eu nasci assim, eu cresci assim..."), pode considerar a Clara como uma das suas maiores personagens. A menos que Sónia se supere em perfeição, é este papel que irei guardar na memória. E que papel! Desde os instantes em que se comove, aos que se irrita, aos que se sente no meio de um caos qualquer, lutando pelos seus direitos, Sónia é bela mulher de cabelos negros, sensual, que geme de prazer com um garotão de vinte e poucos anos e que passeia o neto nas ruas de Recife. Que conforta e ajuda os filhos, que aceita a diferença de um, que não cede ao conformismo de uma doença que não a matou e ainda menos lhe roubou a libido.

     Como a maioria dos filmes que escapa à lógica de Hollywood, Aquarius focaliza-se nos pequenos pormenores. Um copo de vinho, um álbum, um assomo ao piano. É um filme que se demora. Destaco a ambivalência tão presente no cinema brasileiro pelos contrastes sociais: o lado pobre, o menos pobre (a nova geração e a dos nossos pais), que convivem a paredes-meias. O toque retro está presente no início, de forma velada, e subtilmente ao longo das mais de duas horas. Passaram os Queen e o Roberto Carlos. Ou os 80s estão na moda ou nunca saíram de moda, pois raros são os filmes actuais que não dão uma passadinha por lá.

      E regresso ao início e a Sónia Braga, que arrebata a cena. Uma interpretação inenarrável, uma segurança e uma leveza que só a idade permitem. É uma senhora, e lá fora já jogou as suas cartas. Para mal dos nossos pecados, o filme, no Brasil, tem sido recebido com desconfiança. Respira-se política no país irmão, e não será só por lá. É uma caça às bruxas adaptada. Quem não está connosco, está contra nós. O filme aborda temáticas caras à esquerda: a igualdade, a afirmação feminista, um toque subtil nas minorias, ingredientes que, per se, não definem necessariamente um filme, tão-pouco anulam o mérito dos actores. Há que saber analisar racionalmente uma obra.

      Aconselho. Na senda da apreciação de um jornalista brasileiro, Reinaldo Azevedo, da revista Veja, « o dever das pessoas de bem é boicotar Aquarius », porque o filme é socialmente incorrecto, provocatório. Morde os calcanhares às senhoras que acompanham os seus maridos e que mal dissimulam a mão a tapar os olhos enquanto Sónia Braga escandaliza a moral, seja com o seu corpo, seja com as suas atitudes. A rever.

17 de março de 2017

A intolerância.


    O Tribunal de Justiça da UE, órgão jurisdicional da União Europeia, com competência sobre os Estados-membros, instituições e órgãos da União Europeia (não dirime conflitos entre particulares), proferiu uma sentença polémica que nos dá conta da não contrariedade ao direito se as empresas procurarem adoptar um padrão neutro, banindo os símbolos religiosos. Não tendo acesso à sentença, eu presumo que estivesse em causa o hijab, vulgo véu islâmico. Uma ou duas funcionárias, algures por essa Europa, teriam sido impedidas de usar esse símbolo religioso no local de trabalho. E o TJUE veio, agora, confirmar que não há discriminação directa se as empresas, e cito, proibirem o uso de  « um símbolo político, filosófico ou religioso ».

    Acompanhando a crescente susceptibilidade política e social, o poder judicial europeu não é imune ao circunstancialismo histórico e sociológico que vivemos na Europa e no resto do mundo. As posições agudizam-se, os partidos de extrema-direita procuram convencer o eleitorado de que a solução está numa campanha ofensiva contra o Islão, e as instâncias judiciais europeias nem sempre conseguem interpretar os valores que subjazem à Europa ideal, solidária, tolerante, inclusiva. São estes os valores que presidiram às comunidades, que mais tarde originariam a UE. Estávamos a viver um doloroso pós-guerra. A Europa estava destruída nas suas infraestruturas e ferida no seu orgulho. A França e a RFA procuraram unir esforços no sentido de se encontrar um ponto de convergência, de modo a que o continente recuperasse o seu esplendor. Foi um labor de todos. A vontade de que esta nova Europa vingasse era tal que Charles de Gaulle não quis que o Reino Unido participasse no processo de construção europeia (e hoje todos lhe dão razão...).

    A Europa é predominantemente cristã - houve quem quisesse incluir essa matriz no gorado projecto de Constituição Europeia. Mas temos uma Europa minoritária que é islâmica. A albanesa, a turca. E, no limite, temos cidadãos da UE, originários de estados-membros, que são islâmicos. Eu conheço alguns. Pessoas que têm a sua religião, que guardam os seus estatutos e preservam as suas regras, mas que contribuem para a riqueza do país, que nasceram por cá, que são tão portugueses como eu, mas que não são cristãos, e creio que é isso que se lhes não perdoa. Os Estados europeus são laicos ou confessionais, de maioria cristã. A desconfiança é milenar. Remonta às cruzadas, passando pelas campanhas dos reis católicos contra os turcos-otomanos, conhecendo certo refreamento quando entendemos, no ocidente, que o diálogo inter-religioso derramava menos sangue e aproveitava melhor a todos. Com os atentados que uma minoria tem provocado por todo o ocidente na última vintena de anos, o ódio recrudesceu, visando o cidadão médio que tem a sua vida organizada e que em nada está relacionado com esses grupos terroristas. Eu conheço muçulmanos que se insurgem contra o fanatismo jihadista.

     O hijab é um mero pretexto. Ao que assistimos, sim, é à crescente intolerância na Europa, quase recuperando a velha máxima bíblica, bem a propósito, da Lei de Talião. Estamos no caminho errado. É natural que as autoridades europeias procurem defender-se de atentados, mas temos de saber fazer a distinção entre extremistas, que os há em todas as religiões, e cidadãos comuns, porventura que professem o Islão, que estão plenamente integrados, e muitos dos quais até contactando de perto com o Cristianismo. Chamem-me irrealista, porque eu acredito que ambas as religiões, que partilham uma origem comum e os seus profetas, podem conviver pacificamente. Como ouvi por uma islâmica, "todos (os islâmicos) somos também cristãos". Uma afirmação simples, aparentemente superficial, mas que reúne em si a fórmula para a paz entre as nações cristãs e islâmicas.

     A decisão do TJUE deve ser bem interpretada. Compreendo que, em função da estratégia empresarial e da adequação à função, possam ser impostas restrições no que diz respeito aos símbolos religiosos. Numa loja de biquínis, por exemplo, não faria sentido que a funcionária envergasse um hijab. Devemos atender ao caso concreto, e não considerar que em qualquer situação, em qualquer contexto, seja legítimo impor aos funcionários que prescindam de determinados símbolos. Usar ou não o hijab pode comportar sofrimento para a mulher. Falamos da religião, e a religião diz respeito a um recôndito profundo de cada um, insondável, digno de respeito (o mesmo se aplicará às convicções políticas ou filosóficas, com a devida ressalva).

     Temo que a actual conjuntura permita que as entidades empregadoras reajam discricionariamente face a este precedente aberto pelo TJUE. O tribunal, contudo, é claro: exige-se que haja um regulamento interno que determine uma indumentária neutra aos funcionários. A questão está em saber até que ponto o hijab pode ser entendido como um símbolo, em primeiro lugar, e um símbolo que se desvie do âmbito da dita neutralidade, em segundo, e ainda podemos questionar-nos acerca do que é a neutralidade, por último. Prescindir do hijab será o mesmo que prescindir de um acessório estético qualquer? Parece-me que não. Entendendo, porém, que a neutralidade consistirá em manter todos os trabalhadores com a mesma aparência no que respeita ao traje, então, sim, não vejo discriminação. A deliberação do TJUE abarca os símbolos em geral, independentemente da religião.

     Da minha parte, um hijab, bem com um crucifixo, ou outro símbolo qualquer, a menos que estejamos diante de circunstâncias muito específicas (como a do biquíni), não afecta a produtividade da empresa, nem a eficiência ou a capacidade do/a trabalhador/a. O seu uso deve ser livre. Uma empresa que preze o bem-estar dos seus funcionários e a inclusão, porque é também isso que está em causa, deixa em cada um a decisão, em consciência, de se apresentar ou não com símbolos religiosos, intervindo na medida em que isso possa lesar os seus interesses.

11 de março de 2017

Marcelo, um ano depois.


    Há um ano, por estes dias, Marcelo Rebelo de Sousa tomou posse enquanto Presidente da República. Muito aclamado, após dez anos de uma presidência impopular e anti-nação, eu diria, Marcelo iniciou o seu mandato com um enormíssimo capital de esperanças. Ser um insigne jurista, ademais constitucionalista, fazia prever aos portugueses que ninguém melhor do que ele interpretaria a Constituição em benefício do povo; a postura leve, descontraída, informal, foi também ao encontro das expectativas das pessoas, que já se indagavam acerca da necessidade de se ter um presidente.

    O ano foi pacífico para o Chefe de Estado. A coabitação Belém - São Bento não poderia ser melhor. Presidente e Primeiro-Ministro entendem-se bem, não raras vezes estão em plena sintonia. Dizem as más-línguas que Marcelo é um " porta voz do governo ". Não se deixem enganar. Não é. Marcelo é um homem inteligente, sabe que tem mais quatro anos pela frente e, se tudo lhe correr de feição, um segundo mandato, na tradição portuguesa que vem de 1980. Afrontar o governo nada lhe traria de bom, pois a geringonça dura há mais do que Pedro Passos Coelho julgou ser possível. O estado de graça não terminou, o país dá tímidos sinais de recuperação económica, posicionando-se bem nos indicadores económicos, e a Marcelo queda assistir, contente. Um árbitro que ainda não teve de intervir.

     Este ano foi um ano de conciliação. Os portugueses e o Presidente da República reataram, malgrado o PSD se queixe de falta de apoio implícito. Marcelo está em todo o lugar e tudo lhe merece um comentário. É o presidente-comentador. Só não o pode fazer em directo e em sinal aberto. Nada é deixado ao acaso. Marcelo sabe que precisa de granjear mais e mais popularidade, caindo nas boas graças do povo. Se tiver eventualmente de ser arrojado, no futuro, estará seguro por esse suporte popular. Os presidentes são alvos fáceis quando algo corre menos bem. Não acredito que nenhum dissolva a Assembleia da República levianamente. Dou este exemplo porque se trata de uma das prerrogativas presidenciais de maior vigor. Ser o presidente em que todos confiam dá-lhe essa margem de manobra. Cavaco não a tinha, sobretudo no decurso do seu segundo mandato.

     Marcelo é assim, mas não é só isto. Tivemos, há meses, uma demonstração, ligeira, dessa sua faceta mais interventiva aquando da crise na Cornucópia. Marcelo serviu de mediador e encetou negociações sem a presença do ministro que detém aquela pasta. Os comentadores não perdoaram. Até que ponto podemos traçar a fronteira entre o Marcelo que nunca governou, embora o tivesse querido, e que por isso pode sentir um apelo nesse sentido, e o Marcelo espontâneo, que quebra as regras protocolares, e que não terá agido de má-fé, é uma questão que fica em aberto.

      Nem tudo são rosas. O risco que Marcelo corre é o do descrédito. As pessoas dividem-se entre os afectos e a autoridade. A páginas tantas, não sabemos com que ânimo as decisões são tomadas. Marcelo não sabe ser convincente, mesmo quando quer. Porque ele é o homem que se banhou no Tejo quando concorreu à câmara de Lisboa, porque engraxa os sapatos na avenida, porque se senta à esplanada com o manuel das couves a beber sumo de laranja e a trocar dois dedos de conversa. O sentido de Estado não é muito, e quando se impõe, há ali um desconforto qualquer. Marcelo prefere o ameno convívio, os sorrisos soltos e a informalidade, que lhe é natural. Veremos quando chegar a hora de tomar decisões complicadas, melindrosas, como se comporta e qual a sua sensibilidade, intuição e faro político. Dou-lhe o benefício da dúvida.

8 de março de 2017

Três, ou quatro, em um.


   Estas últimas semanas têm sido atribuladas. Eu, um rapaz tão caseiro, virei um vadio (na acepção decorosa da palavra, sublinhe-se). Quase não estou em casa, sobretudo à noite. A mãe fica feliz, por um lado, mas extremamente preocupada. Creio que também lhe faz bem, indirectamente, porque começa a desvincular-se um pouco. Não que tenha notado isso nas suas reacções; pelo contrário, está paranóica com as minhas saídas. Liga-me imensas vezes. Como a compreendo (se fosse pai, melhor, se for pai, serei igual, ou pior), procuro tranquilizá-la. Hostilizar não ajudaria, e seria profundamente injusto. Quando a perder, ninguém mais se importará se como, se durmo, se tomo a medicação da asma, se ando à chuva.

     Na quinta-feira, fui à Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, ali pelo Saldanha. O Dr. Anastácio, médico, legou a mansão e o seu recheio, pela sua morte, ao Estado português. Grande coleccionador de arte, deixou um espólio profuso, entre telas, porcelanas, cerâmicas, mobiliário... Daí ser uma casa-museu; casa, porque lá habitou, efectivamente. Gostei bastante da visita. Fi-la sozinho, o museu não tinha ninguém, tendo direito a uma visita guiada de uma das funcionárias, uma senhora de alguma idade, muito simpática e educada. É tão bom encontrar pessoas assim. Senti uma candura qualquer naquela senhora.

     Mais à noite, subi ao Campo Pequeno e encontrei-me com uma colega dos tempos do colégio, a A., que conheço há vinte anos (estou a envelhecer...). Está emigrada na Inglaterra, e aproveitamos quando cá vem para pôr a conversa em dia. Jantámos por lá.


      No domingo, decidi-me, com um amigo, a visitar alguns dos museus da capital. Começámos no Museu Militar, em Santa Apolónia, que presumo ter conhecido em criança. Tive lampejos de memória ao percorrer as galerias, as muitas galerias - tantas que um funcionário, também muito atencioso, sentiu o apelo em alertar-nos para que não deixássemos de ter em atenção a hora de encerramento para o almoço.
      Foi um dos que mais gostei, como se compreende, pela densidade histórica. Não tem só canhões e espingardas, não, embora tenha muitos. Tem quadros, maquetes, bustos, manequins fardados, adereços.

      À tarde, fomos até ao Lumiar, quase nos arrabaldes da cidade, ao Museu do Traje, primeiramente, e ao Museu do Teatro, que se situam no Parque do Monteiro-Mor, este, por sua vez, envolvendo o Palácio do Monteiro-Mor. Estive nos jardins há uns anos. Desta vez, pela chuva miudinha e por estarmos com alguma fraqueza, não os pude percorrer, com pena minha.
       O Museu do Traje tem interesse, mas achei-o um pouco desprovido. Julguei-o mais faustoso. Nem me recordo da última vez que lá fui. É evidente que será fácil reunir os vestidos dos séculos XVII e XVIII, aqueles modelitos deslumbrantes das infantas. Curiosamente, considerei o museu mais apelativo na galeria do século XX. Gostei de ver aquelas roupas de senhora das décadas de 10, 20, 30, e por aí fora.
       O Museu do Teatro é, de longe, mais apelativo. Tem um arquivo fotográfico muito rico, a par, claro, daqueles fatos que os actores usavam nas peças. Um mimo. Saliento um livrinho da Presidência do Conselho, exposto numa vitrina, com os traços do censor do Estado Novo ( « foram mandados tapar os umbigos de todas as coristas »). Estávamos em Setembro de 1958, e Oliveira Salazar não condescendia com esses atrevimentos. Às senhoras, estava reservado o recato.

       Ainda passámos pelo Museu Nacional de Arte Antiga, que havia visitado há poucos meses. Fomos levados pela vontade de visitar as obras de arte de Domingos Sequeira, pintor dos séculos XVIII e XIX.

       Passando já ao dia de ontem, terça, estive no cinema, e vão-me perdoar, mas não poderei deixar passar em vão alguma menção ao filme. Falo-vos do Hidden Figures. Desconhecia que o filme se baseava em factos reais. Tinha alguma ideia da narrativa, por um trailer que vi numa destas minhas últimas sessões.

        Não será o filme da vida de ninguém, no entanto é um bom filme. É realista, interessante pelo contexto histórico e social - a segregação racial que ainda persistia em determinados estados dos EUA. Aquelas três mulheres, afro-americanas, conquistaram árdua e sofridamente o prestígio. Se o dito " não se vai a lugar algum sem esforço " se adequa, eu diria que se lhes aplica sem hesitar. Eu não sei se toleraria tanta humilhação, tamanha brutalidade e ranço xenófobo. Era de uma irracionalidade tal que, ainda que conhecendo as atrocidades sociais do apartheid sul-africano, pensamos sempre: " isto aconteceu mesmo? ".
        Se os estadunidenses conseguiram levar a dianteira aos soviéticos em tecnologia, pondo Armstrong na Lua, muito devem ao contributo destas mulheres e aos seus múltiplos meses de esforço. Foram sumidades na matemática, cujos cálculos permitiram o triunfo dos EUA na corrida espacial.
        As actrizes principais foram bem convincentes. Lá está, um filme que não teve o destaque de Moonlight, não obstante ambos versarem, com vantagem para Hidden Figures, sobre a discriminação.

        E fico-me por aqui, que falei mais de mim nesta publicação do que em meses, e ainda corro o risco de passar a ideia de que tenho uma vida preenchida.

6 de março de 2017

A prostituição.


   O PS aprovou uma moção que aconselha a regulamentação da prostituição, contra o voto, ao que li, de António Costa e de outros dirigentes de topo do partido. Eu acompanho a posição do secretário-geral do Partido Socialista.

    A eutanásia foi outro dos temas presentes da moção, fracturante, claro está, mas quanto a esse tenho um artigo escrito a respeito, que poderão consultar no blogue (deixo-vos o link aqui).

     A prostituição não é uma profissão, pois não é. É uma actividade tão antiga quanto o homem, sim. O Estado propõe-se a encará-la como um instrumento de sobrevivência que enobrece os homens e as mulheres que a praticam, compactuando com a miséria humana que é ter de prescindir de parcelas da dignidade para poder prover ao sustento pessoal, e familiar, na maioria dos casos. Os prostitutos e as prostitutas não se autodeterminam. Essa é a maior das falácias dos defensores da regulamentação. Não há autodeterminação quando somos movidos, por circunstâncias trágicas da vida, a sujeitar o nosso corpo a sevícias, a favores e a práticas que põem em causa a nossa condição de membros inalienáveis da família humana, merecedores de respeito, independentemente das nossas diferenças e dificuldades. O Estado, em suma, assume-me enquanto proxeneta, mais um na vida de muitas daquelas pessoas, das que os têm, arrecadando impostos e conferindo, em contrapartida, umas regaliazinhas, o preço de se contribuir para o bem-estar social de uma comunidade que convive com muito à-vontade, e leveza até, com o drama do vizinho do lado que se deita com qualquer um para poder alimentar-se. É esta a sociedade indiferente em que vivemos.

     A prostituição, em Portugal, foi descriminalizada em 1983. Tal como a homossexualidade, manteve-se enquanto actividade perseguida após o 25 de Abril de 1974. Como esquecer as célebres declarações do general Galvão de Melo: « O 25 de Abril não se fez para prostitutas e homossexuais »? Actualmente, o ordenamento vigente não a censura, mas também não a reconhece. Mantém-se esse status quo desde há décadas. Continua a criminalizar-se, e bem, o lenocínio e todas as formas de exploração. Para o enquadramento histórico e social da prostituição, recomendo um livro muito interessante, de 2003, escrito em colaboração por Fernanda Fráguas e Isabel do Carmo, que conviveram com dezenas de prostitutas nos anos em que ambas estiveram detidas na Prisão das Mónicas, no seguimento do processo das FP-25 (de Abril). Chama-se, singularmente, Puta de Prisão, a mais infame, a mais desgraçada. Um livro que li na parte final da minha adolescência e que foi determinante na definição da minha orientação nesta matéria tão sensível.

      Se o Estado se investe, em tom paternalista, do papel de guardião dos direitos de cada um, poderia começar por investir em políticas verdadeiramente humanas de criação e manutenção de postos de trabalho, bem como em apoios sociais céleres e eficazes que venham ao encontro das necessidades dos mais desfavorecidos. Se a ideia é a de amparar quem precisa, este será, a meu ver, o caminho. Num país com menos desigualdades sociais, com mais emprego, com melhores salários, com estruturas integradas de suporte, em que a comunidade não segrega, mas agrega, poucos recorreriam - não o farão de ânimo leve - à prostituição. Continuaria a haver, haverá sempre, mas a opção individual é respeitada, já o é e continuará a sê-lo. Fá-lo-iam por opção, e na vida optamos, correndo os riscos inerentes às nossas escolhas.

      Eu conheço o flagelo, não tão de perto. Tenho uma amiga pessoal, transexual, que conheci ainda quando era o P. Pois bem, o P. percebeu que não se sentia bem, mudou-se para a Suíça, país em que reside de momento. Iniciou o tratamento hormonal e a vida levou-a, já E., à prostituição, regulada, « com todos os direitos ». A E. é infeliz. Profundamente. Lamenta a sua condição e partilha, inclusive, do meu raciocínio. E quer ser ajudada, psicologicamente até.
      A prostituição destrói as pessoas, afasta-as do seu amor-próprio, do seu entendimento acerca do respeito que lhes é devido. É-me intrinsecamente impossível virar o rosto, caindo no erro de julgar que a dita regulamentação vai resolver ou amenizar os inúmeros problemas que afligem os prostitutos e as prostitutas.

2 de março de 2017

T2 Trainspotting, Lion e Oscars.


    Eu sei, eu sei que incumpro com o que prometi, mas o mês tem sido realmente atípico, e já só queria recuperar o que venho gastando em bilhetes de cinema.
    Entre ontem e hoje, fui duas vezes ao cinema. Ontem, o T2 Trainspotting; hoje, o Lion. Adorei o segundo, não gostei nada do primeiro. Fui para o T2 de espírito aberto, temeroso porque abri o precedente de ler crónicas, mas esperando, ainda assim, ser surpreendido pelo argumento, considerando que o primeiro, de 1996, é um filme de culto. O universo das drogas, da delinquência e da exclusão social, pelos anos noventa, suscitou, acredito, revolta nuns e entusiasmo noutros. A sequela, sendo o primeiro o que apregoam, é um desastre. Interpretações muito fracas, uma narrativa pouco convincente. O género drama-comédia exige, em si, um esforço adicional, para que nos consigam fazer rir diante de tantas tragédias pessoais. Rir, em verdade, ri, mas não me seria difícil rir com os clichés do filme. Tudo o que envolva sexo provoca a risada contagiante do público. Só veja quem não tiver gostado do primeiro ou quem goste de ver maus filmes, mal produzidos, que mais se assemelham a capítulos de novelas.

     Tive sorte, e assisti-os na sequência correcta, porque o Lion é um filme excelente. Não li nada a respeito, e só soube que se tratava de uma história verídica no final do filme. Ambientado na Índia, recriando-se o que seria a ruralidade nos confins daquele país, Lion traz-nos a história de uma criança pequena, aparentando os seus cinco anos, que se deixa perder do irmão, que acompanhava na fatídica realidade de tantas crianças e jovens, os pequenos delitos para sobrevivência pessoal e o trabalho infantil, quando ambos se dirigiam para um local onde, supostamente, ganhariam algum dinheiro para ajudar a mãe. O desencontro dá-se por uma circunstância infeliz, e o miúdo fica à deriva na gigantesca Calcutá, sem dominar o idioma local, o bengali, passando pelas mais assustadoras peripécias, tão comuns, aparentemente, num país em que milhares de crianças desaparecem todos os anos. Tendo sido adoptado por um casal australiano, no seguimento da institucionalização, recupera, em adulto, memórias de episódios vividos com o irmão mais velho, cúmplice de brincadeiras e de aventuras. A angústia por desconhecer o paradeiro da família biológica e por supor o sofrimento em que estariam a mãe e os irmãos leva-o de volta à Índia.

     Saroo era um menino com uma história pessoal, tal qual nos faz chegar em diálogo com Sue, a mãe de criação. Ela adoptou-o e ao seu passado. Gostei particularmente deste diálogo. Em determinadas alturas, só conseguimos seguir em frente após termos conhecimento do passado, seja descobrindo-o, seja entendendo-o, seja aceitando-o.
     Nicole Kidman esteve muito bem, assim como o protagonista que dá corpo ao jovem adulto Saroo, Dev Patel. As gravações na Índia foram muito bem conseguidas. Creio que o realizador se esforçou o suficiente para nos mostrar o quotidiano dramático das crianças sem eira nem beira que deambulam pelas ruas das desumanas metrópoles indianas, enquanto nos leva a percorrer os caminhos de terra com Saroo e Guddu, a apreciar a beleza das paisagens naturais da Índia e das crenças religiosas que encerra, com o Ganges e as divindades como pano de fundo na parte introdutória da trama. O final é particularmente emotivo, referindo-me em concreto às derradeiras cenas entre Saroo e Guddu, que se perderam e perderam a infância.
       Extraordinário filme, que passará a constar entre os meus favoritos de sempre.


       Os Oscars... La La Land teve os que mereceu nas categorias musicais, de fotografia e de concepção artística, expectavelmente, mas Emma Stone arrecadou o de Melhor Actriz, o que não me parece ter sido a escolha acertada. Limitando-me aos filmes a que assisti, Natalie Portman, muito embora Jackie seja o filme mais aborrecido do ano, teve um desempenho superior, que justificaria mais a atribuição do galardão. Casey Affleck levou para casa a estatueta de Melhor Actor. Julgo que muito bem. Poucos encarnariam com tal maestria aquele homem profundamente tomado pelo desalento, em Manchester by the Sea. Concordei com a escolha de Damien Chazelle para o Oscar de Melhor Realizador, porque me parece que La La Land, do ponto de vista da direcção, é um filme bem idealizado, mas ainda não conhecia Lion, que não foi tão acarinhado como o seu concorrente e que, nesse sentido, nem sonhou em somar este prémio. Também teria escolhido Lion na categoria de Melhor Argumento Adaptado, que escapou para Moonlight, que levaria ainda o tão almejado Oscar de Melhor Filme, que eu entregaria também a Lion. Em Melhor Argumento Original, Manchester by the Sea, que sempre considerei estar uns graus acima de Moonlight (não competiram nesta categoria).

       A bem dizer, compreendo as vozes que erguem contra os Oscars. A atribuição dos prémios está nitidamente politizada. Não ganham os melhores filmes ou os melhores actores, mas aqueles que a Academia considera que poderão, socialmente, causar maior impacto. Moonlight é um bom filme, é, mas Manchester by the Sea é melhor. Lion é melhor. E há outros cinco filmes nomeados que ainda nem vi e que, espanto não me causaria, serão melhores. Há uma carga subjectiva na apreciação. Para mim, claro está. Mahershala Ali conquistou o Oscar de Melhor Actor Secundário. Esteve bem? Claro que sim, mas Dev Patel, no meu entendimento, esteve melhor. Moonlight tinha porque tinha de ganhar, porque se funda numa história que ainda gera controvérsia, porque se não ganhasse seria discriminação, seria a Academia a desprezar um amor alternativo no cinema, e porque o foco incide tão-só na comunidade afro-americana. E Mahershala Ali, que nem teve um desempenho constante no filme, uma vez que a sua personagem desaparece precocemente, ganhou, sem prejuízo da prestação do actor, porque o ambiente que se vive nos EUA obrigou a que fosse aquela a escolha da Academia. Deixemo-nos de rodeios. Sabemos o que aquele actor representa numa América cada vez mais intolerante. Tratou-se de uma jogada da Academia, que seria de mestre se nós fôssemos todos uns tolos sem sentido crítico.
       Já há muito pouco cinema nos Oscars, lamentavelmente.

27 de fevereiro de 2017

Cultural Saturday.


     À partida, seria um lanche, apenas, e só iria aos museus quem assim entendesse. Eu adoro arte. Quando sei de alguma exposição, geralmente com um amigo que partilha da mesma preferência, vou. Evidentemente que nem sempre é possível, até em virtude de a preguiça ter em mim um efeito potencialmente dissuasor.

     Gostei bastante da exposição do MUDE, no Convento da Trindade. Letreiros antigos, alguns em néon. Lindíssimos, que nos reportam a uma Lisboa que já não existe. O Rossio era encantador. Até meados dos anos 80, manteve a mesma configuração: os candeeiros antigos, os contornos das fontes em calçada, os letreiros, cá estão eles, a enfeitar os topos dos edifícios. Uma linha estética tradicional e até singela, eu diria.

       Em seguida, passámos pelo Museu da GNR, que não conhecia, e que achei encantador. Presumia que não tivesse tantas referências históricas, que as tem. É uma visita bem merecida. Destaco uma carta do império colonial português, que existiu, efectivamente, desde os anos 30 até à revogação do Acto Colonial, no início da década de 50, e que daria lugar, então, ao Portugal multirracial, multicultural e pluricontinental, fundado no lusotropicalismo. Esta informação não encontrarão no museu. Importa contextualizá-lo, ao mapa, no tempo.

       Terminei o dia na exposição de Amadeo de Souza-Cardoso, patente no Museu de Arte Contemporânea do Chiado. Havia estado por lá ao início da tarde, tendo desistido pela fila imensurável com que me deparei. Voltei ao início da noite, firmemente determinado a entrar, porque o propósito do dia, a par do convívio, evidentemente, seria o de visitar a exposição de Amadeo. Um amigo, o tal que me acompanha, sugeriu-ma logo nos primeiros dias, mas acabei por declinar o convite. Adorei. Um talento que se perdeu precocemente. Quadros tão vivos, tão garridos, com laivos cubistas e impressionistas (correntes que me enchem as medidas). Não julgava que o espólio fosse tão considerável, atendendo aos anos que viveu, muito poucos. Faleceu com trinta. Destacaria Tristezas, Cabeça, tão oposto às cores vívidas, constantes, que encontramos na maioria das obras que compõem o seu legado artístico. Também, em vitrine, uma carta endereçada a Fernando Pessoa, ou por este a Amadeo. Muito, muito interessante. Lamentavelmente, ontem, 26, foi o último dia. Houve quem não tivesse conseguido entrar, pessoas que estavam a parcos passos de distância de mim. Tive imensa sorte.

         Partilho convosco algumas das fotos que captei.

            

    





24 de fevereiro de 2017

Manchester by the Sea.


   Fui aconselhado, e resolvi seguir a sugestão que me foi feita. Antes de começar, quero dizer que me mantenho no meu juízo perfeito, ou, se tanto, no que tinha. Não passo os dias no cinema, se bem que tenho ido mais nestas semanas do que em toda a minha vida. Acredito que é uma fase, temporária, e que prontamente estarei restabelecido, até porque começo a ficar fatigado de tantas reviews. Esta será a última. Os Oscars estão aí.
    Daqui por diante, poderei pontualmente dedicar algumas palavras às minhas estreias, mas não com esta frequência. Nos próximos tempos não falarei em filmes. É uma promessa que faço a mim mesmo.

    De todos os filmes a que tenho assistido, Manchester by the Sea é, de longe, o mais cru. Supera Moonlight em adversidades, em amargura, na demonstração do quão injusta a vida pode ser. Casey Affleck incorpora um homem sofrido, revoltado, para quem a morte seria a absolvição que o libertaria do remorso. A história passa-se na pequena cidade homónima de Massachussets, no Inverno. A câmara passeia-se pelo mar frequentemente. Assistimos, em cenas intercaladas, à vida de Lee em família, aos momentos descontraídos com o irmão e o sobrinho, e à realidade com que se depara, lancinante.

     É um filme denso. A atmosfera é muito pesada, nebulosa. O realizador recorre a planos com pouca acção, quase estáticos, fazendo sobressair assim a sisudez das personagens. Os sorrisos, parcos, são tímidos. Pressente-se a dor. Está omnipresente ao longo das mais de duras horas, e só no final vislumbramos o prenúncio do que poderá ser um renascer de esperança nas existências sofridas de tio e sobrinho. Constatei a sensibilidade de Kenneth Lonergan na abordagem daquelas experiências traumatizantes. Elas cruzam-se. Lee é um homem destruído. Parece um autómato quando tem de lidar com qualquer reacção emocional sua ou de terceiros. Reage friamente aos estímulos, porque pouco de si sobreviveu à tragédia. Não há espaço para amar ou para se integrar. Impera a suspeição, a autodestruição, o desgosto.

     Gostei muito. Se levar o Oscar de Melhor Filme, não será mal entregue. Faz-se mister, sim, que Casey Affleck leve o de Melhor Actor. Foi assombrosamente convincente.
      Tive sorte, porque o filme (ainda) está em exibição no ECI e no Amoreiras, por Lisboa. Aconselho, portanto.

22 de fevereiro de 2017

Jackie.


   Quando soube que o filme iria estrear, decidi-me no imediato a vê-lo. Os Kennedy sempre exerceram em mim um enorme fascínio, pelo glamour, o mediatismo, o fatalismo, e pela atenção que despertaram. Já sabia, entretanto, sobre que capítulos, por assim dizer, incidiria. A morte de John seria um deles. Aliás, atrever-me-ia a dizer que Jacqueline Kennedy não existe sem John Fitzgerald Kennedy. Aquele casamento, o assassinato e o pouco tempo que estiveram na Casa Branca tornaram-nos num mito. Os estadunidenses precisam de referências históricas, e os Kennedy funcionavam bem como uma família real. Jackie foi das mais novas inquilinas da Casa Branca, aparentava ser feliz com o marido e os filhos. Uma vida de casal abruptamente interrompida.

     O filme. Não tenho muito de positivo a elogiar. É bastante aborrecido. Está centrado na conversa que Jackie tem com um jornalista, na qual relata as suas memórias do trágico acontecimento que vitimou John, em Dallas. Pelo meio, assistimos aos seus momentos iniciais enquanto primeira-dama, em que se sente visivelmente desconfortável. O filme é um exercício de retrospectiva, de memória.
     Jacqueline foi, a julgar pela interpretação de Natalie Portman - sublime, diga-se - uma mulher vaidosa, fútil, insegura, que treinava o seu papel à exaustão, cujos sorrisos eram superficiais, sem expressividade. Ganhou uma coragem titânica quando John é alvejado. Vê-se obrigada a tomar as rédeas de uma cerimónia de despedida, que julga merecida, a um presidente que mal o chegou a ser. Soube impor a sua vontade, soube comportar-se condignamente - e até hoje é relembrada pela sua postura determinada nesses tenebrosos dias. Natalie Portman esteve irrepreensível enquanto Jacqueline Kennedy. Se arrecadar a estatueta de melhor actriz, será inteiramente merecida.

      A história peca por falta de dinâmica, por falta de alguma objectividade, por se repetir incessantemente. Foi um risco que o realizador correu, e é um risco compreensível, e assumido, num filme que foca uma única personagem. Tudo em Jacqueline, por aqueles dias, é explorado: a roupa, os cigarros, o comportamento errático, a desilusão, a percepção de que não mais era a mulher do presidente, vendo-se obrigada a ceder o seu lugar. A fórmula Kennedy teria tudo para vingar, mas nem Natalie Portman conseguiu o milagre de tornar o filme atractivo e estimulante.

      Para terminar, gostei de uma frase que Jackie profere durante a entrevista: « Nunca nada foi meu, não de modo definitivo. » Por questões pessoais, que claramente não irei explorar, identifico-me sobremodo. Creio que, só para ser confrontado com a minha fragilidade, valeu a pena ver o filme.

19 de fevereiro de 2017

Os portugueses no Brasil.


    Há dias, perdi um amigo. Zangámo-nos. Um amigo que não conheço pessoalmente, que mora do outro lado do Atlântico, no Brasil.
    Não subestimo as amizades virtuais. Tenho amigos que o começaram por ser através de redes sociais. Isso não me causa qualquer problema de maior. Considerava-o um amigo. Partilhávamos um pouco da nossa vida, chegámos a conversar através da cam, acompanhávamos a rotina um do outro. Brigámos devido a divergências históricas e ideológicas. Há aquela velha trilogia, "futebol, política e religião", que periga muitas amizades. Assim foi.

     A História não é uma ciência exacta. Os factos, esses sim, são exactos. As perspectivas são divergentes. Pela Europa, tendemos a romantizar a ocupação que efectuámos, assumo, mas pela América, nomeadamente, tendem a diabolizar os europeus, sobretudo pelo ensino escolar, que fomenta estes rancores. Ambos estão certos e errados, simultaneamente. Eu não isento os portugueses de erros. Claro que os cometemos. Mas não fomos, nem de longe e nem de perto, os vilões. Não chegámos ao paraíso. Os ameríndios praticavam a antropofagia. Na América espanhola, faziam sacrifícios humanos. Não há melhores e nem piores. Somos todos homens e somos imperfeitos, independentemente da nossa procedência. Se por cá aprendemos a vermo-nos como os grandes civilizadores, por lá somos os terríveis invasores que trouxeram o caos a um mundo de beatitude, salvo raras excepções: conheço brasileiros que têm, quanto a esta matéria, uma visão esclarecida.

      Procuro adoptar uma postura justa. Sim, tomámos terras alheias, mas fomos os obreiros do Brasil. Expandimo-nos para lá do que nos pertencia por direito, conforme o delimitado em sucessivos tratados com os espanhóis, e deixámos, em 1822, o Brasil com praticamente a sua configuração actual (o Acre viria depois, já após a independência). Deixámos um país com uma massa geográfica que o torna no quinto maior do mundo, com uma língua que o une e evita a desagregação, com uma cultura que o torna distinto. Não haveria Brasil sem os portugueses. Ponto final. Por mais que à esquerda revolucionária custe, assumamos a verdade sem medos. Haveria outros países, com outras línguas, com outras culturas. Basta observar a miríade de países que resultaram das independências dos vice-reinados espanhóis. Os neerlandeses não fariam melhor. Ocuparam o território que hoje compreende o Suriname e que é um dos países mais pobres da América, independente apenas em 1975.

      No que concerne ao Brasil, de pouco a consciência me acusa enquanto português. Fomos bem piores, sim, com Timor, que deixámos ao abandono, proporcionando a invasão e posterior anexação da Indonésia, num genocídio que durou 25 longos anos; com Goa, Damão e Diu e os seus habitantes, que não puderam escolher entre a independência ou a integração na União Indiana; com Angola, Moçambique e a Guiné-Bissau, tardiamente independentes, envolvidos numa guerra colonial e em posteriores guerras civis de décadas, ficando sem infraestruturas, sem profissionais qualificados nos mais diversos domínios. Aquando da independência de Moçambique, num território sete vezes maior do que Portugal, ficaram três magistrados. Três.

       Estes ressentimentos de pouco adiantarão. Só poderão obstar a que nos possamos entender melhor. Não esperem que me associe ao coro de vozes odiosas. Os portugueses já têm quem os ostracize e procure anular o seu legado. Como diria um amigo meu, espanhol, seriam capazes de dinamitar os aquedutos romanos porque simbolizam o imperialismo romano. E fico com aquele sentimento de que houve colonialismo de primeira e de segunda. O colonialismo inglês é tido, por muita da historiografia brasileira, como de ocupação, sendo bom, por isso; em contrapartida, o colonialismo português (e o espanhol) foi de exploração. Um absurdo só explicado pelo preconceito. Se condenamos a ocupação europeia, condenamo-la unânime e coerentemente. Os ingleses cometeram das piores atrocidades na América, mas a sua hegemonia, a anglo-saxónica, cultural na América Latina leva a que se branqueie o extermínio de indígenas. Os espanhóis são bastante acesos quando relembram, e bem, que os ingleses propagaram uma odiosa lenda negra sobre a ocupação espanhola.
       Nem aprofundo a discussão acerca da incorrecção histórica e jurídica na terminologia associada. O termo colónia é anacrónico. O Brasil começou por ser dividido em capitanias, passou por ser o Estado do Maranhão e o Estado do Brasil, posteriormente unificados, até ser um Principado (com a criação do título de Príncipe do Brasil, atribuído ao presuntivo herdeiro da Coroa) e um Reino (unido a Portugal). Nunca por nunca, repito, em qualquer documento da época, surge a expressão "Brasil Colónia", que é utilizado, não ponho em causa se bem ou mal, para designar uma realidade que lhe é anterior, daí que opte pelo termo "ocupação", que me parece menos politizado e parcial. Os portugueses ocuparam, e não em número substancial, o território brasileiro. Fomos poucos em mais de trezentos anos. Não levávamos mulheres nas embarcações. Miscigenámo-nos com os locais e com os africanos, deixando descendência. A cultura brasileira é o somatório de várias, inclusive da portuguesa.

         Doravante, ainda que não deixe de expor as minhas posições, pensarei duas vezes na pertinência de se alimentar uma discussão infrutífera, que só trará mágoas. Afinal, ninguém ganhou. Ambos perdemos.


* Na medida em que não quero trocas de palavras desrespeitosas, reservo-me o direito de não publicar comentários xenófobos que visem o Brasil ou Portugal, ou que sejam passíveis de suscitar confrontos.

15 de fevereiro de 2017

Moonlight.


   Como a vida altera todas as certezas. Dei numa de cinéfilo. Em quatro publicações consecutivas, três dizem respeito às minhas estreias cinematográficas. No Dia de São Valentim, e antes que julguem que fui acompanhado (que fui, em verdade, na minha companhia), decidi assistir ao Moonlight, o derradeiro filme que suscitou o meu interesse numa fase posterior (quero ver o Jackie, que já circula pelas salas).

    Se Silence nos reporta a uma realidade que não é contemporânea, se La La Land é um musical que nos leva a um mundo de fantasia, Moonlight mostra-nos a vida tal qual ela é, crua, dura, sofrida. Acompanhamos três fases de Chiron, Little, Black, desde a infância, passando pela adolescência e terminando enquanto jovem adulto. Sem querer desvendar o conteúdo do filme, as vivências de Chiron confundem-se com as de milhões de jovens: a disfuncionalidade, a ambiguidade, as primeiras descobertas, os assomos de violência juvenil... Não há, em si, uma inovação. O filme é bom, é, mas não é um inédito. Há temas que são caros a Hollywood. O universo da desagregação dos lares e dos valores é um deles.

    Moonlight é uma história trágica, sem adornos e delongas. É a procura do eu, de uma identidade, de uma trajectória, entre o caos, o interior e o provocado. O que a torna particularmente interessante prende-se às personagens envolvidas, ao submundo que as rodeia e às suas idiossincrasias, e a uma sexualidade que nos chega através de terceiros, num primeiro momento, mas que não senti que fosse o drama na vida de Chiron, não o maior dos que o acometeram até se tornar homem. Gostei do traço de candura que o envolve desde pequeno, o que se verifica designadamente no final, que, em suma, conjuga a percepção de que não se superou, quando confrontado com as suas escolhas, e a ânsia por um conforto qualquer, um abrigo.

     Não pude assistir a todos os nomeados ao Oscar de Melhor Filme; sei, entretanto, que La La Land  é o grande favorito. A Academia tem certa tendência por argumentos que propaguem uma mensagem positiva, seja ela qual for. Moonlight não tem diálogos de ouro ou cenários idílicos; é um filme de negros, dos recônditos sinistros daquela América que não convém conhecer, e deixa-nos no incerto.
      Para repetir.


9 de fevereiro de 2017

La La Land.


   Somos dois noctívagos, daí que os convites cheguem sempre a horas tardias. Em boa verdade, já fui mais. Decidimo-nos novamente pela última sessão, desta vez no Colombo, que é agradavelmente interessante quando está vazio.

    Vamos ao filme. O La La Land é aquela história em que tudo está programado para se ter um bom produto final. A síntese de um bonito conto de amor, com percalços, salpicado de momentos musicais, inesperados, como se vivêssemos um sonho, onde, entretanto, somos confrontados com dilemas e com obstáculos, com o descrédito e com a nossa perseverança. O realizador soube reunir bem diversos elementos: o jazz dos clubes, o teatro, os sessentas, os setentas e os oitentas (Take on Me?) com os iPhones e os comandos para os carros, como se cada realidade tivesse confluído na mesma era.

    Não sei até que ponto é um filme com um final feliz ou não. Não consegui desvendar a mensagem no derradeiro olhar entre a Mia e o Sebastian: se um agradecimento pelo que viveram, se um testemunho de vitória de ambos, na concretização individual dos sonhos, se, pelo contrário, uma despedida infeliz, porque o sucesso e o dinheiro são muito relativos. O meu lado spoiler fica-se por aqui, prometo.

     A Emma Stone deu um verdadeiro show de interpretação. Incorporou a menina sadia e cheia de esperança, desapontada com os reveses, quase infantil nas suas reacções, imatura. Gostei de tamanha versatilidade.

     O género romântico-musical foi recuperado pontualmente por Damien Chazelle. A fórmula é conhecida, todavia não deixa de ser meritório da sua parte criar umas horas de fantasia bem concebida. Saímos quase a levitar com a Mia & amigas, crendo ser possível levar a vida num tom descontraído, como se pudéssemos sair de uma entediante festa (ou do trabalho) a pular e a sorrir, tendo um pianista charmoso à nossa espera. A Emma Stone não é uma Liza Minnelli, mas é uma miúda cheia de talento.
      Eu gostei, e recomendo. O pior que podemos fazer é tentar diminuir uma obra na comparação com velhos clássicos. Hoje em dia nada se inventa. Tudo se reinventa.

5 de fevereiro de 2017

Trump.


   Recordo-me de aludir ao tropeção que os estadunidenses dariam caso a escolha recaísse em Donald Trump. A primeira semana de mandato assim o tem demonstrado. Trump surpreendeu. Rogávamos aos céus por um assomo de sensatez inesperado, da sua parte ou da parte dos conselheiros que o acompanham. Está a revelar-se exactamente como se apresentou na campanha eleitoral, levando a que, do mundo das artes à política, todos, unanimemente, condenem as suas medidas.

    Os EUA são uma terra de imigrantes, à semelhança de outros grandes estados, como o Brasil ou a Argentina. Negá-lo seria um erro só justificado pela ignorância. Milhões, movidos pelo American dream, ao longo dos séculos XIX e XX, desembarcaram nos portos estadunidenses, construindo as suas vidas por lá, constituindo família, enriquecendo o tecido económico do país, dando-lhe pujança, ajudando na sua afirmação como grande potência.

    Afortunadamente, o poder judicial tem sabido, nestas primeiras horas, impor-se às políticas totalmente discriminatórias e até - perdoem o excesso - de cariz nazi. Trump, na sua perseguição aos imigrantes, confundindo-os com terroristas, reporta-me a Hitler, quando, progressivamente, foi restringindo direitos e direitos aos judeus. Excluir um grupo de pessoas com base na sua nacionalidade, ou religião, ou seja o que for, é obsceno. Merece a nossa mais veemente e ostensiva reprovação. Trump não é só contra os ilegais; Trump é contra quem vem por bem, buscando tão-só novas oportunidades.

    A ascensão destes movimentos de teor totalitário, também pela Europa, assusta-me. O mundo está a mudar, efectivamente. Longe ficaram os tempos da tolerância, do derrube de muros, da solidificação dos laços entre os povos. A história repete-se. Ainda nem há cem anos travámos as mais duras das guerras, fomentadas pelo ódio, pelo preconceito. Os grandes populistas munem-se da palavra para excitar as piores paixões humanas- e Trump nem é grande orador. No seu discurso de tomada de posse, foi tão lacónico e superficial que me deu, entre outros sentimentos, pena. Pena pela sua manifesta incapacidade e pena também dos seus compatriotas, pelo erro que cometeram, e do qual, estou seguro, se aperceberão tarde ou cedo. Confio num impeachment. Dizem que eles até estão de novo na moda...

30 de janeiro de 2017

Alternativas.


    O panorama político português faz-se representar por várias cores partidárias. Não será dos mais abrangentes, mas, ainda assim, da esquerda à direita, reúnem-se tamanhas sensibilidades. O PSD, como maior partido da oposição, ocupa um lugar cimeiro no que respeita às alternativas de governo. Esperam-se, o que também se aplica ao PS, quando dá o lugar aos sociais-democratas, políticas responsáveis, verdadeiramente direccionadas aos problemas concretos do país. Desde o momento em que não conseguiu fazer aprovar o seu plano de governo, o PSD adoptou uma postura claramente revanchista. Começando pelo seu líder, Pedro Passos Coelho, que não cede, julgando que ao manter-se no leme dos destinos do partido demonstra que não abandona o país. A atitude de ostentar a bandeirinha de Portugal à lapela é uma garotice típica de quem não entende como funciona a alternância democrática.

     A propósito da votação da TSU, ver o PSD aliado a extrema-esquerda é cenário dantesco. O que tem incomodado Pedro Passos Coelho e os seus correligionários é o aumento progressivo do salário mínimo nacional. Tudo o que belisque os interesses do grande patronato é motivo para que o PSD se movimente, impaciente, nem que para isso siga a tradicional rebeldia do PCP e do BE. A propósito, tudo farão para que a aliança governativa falhe ou saia melindrada. A retórica, um ano volvido, é a mesma: usurpação. A solução encontrada, como já foi sobejamente comentada, inclusive por mim, encontra total cobertura na Constituição e, diria mais, é naturalíssima em qualquer país cuja democracia esteja viva e saudável.

     Ainda que se pense o contrário, reconheço a importância do PSD como um grande partido da social-democracia europeia. Admiro o PSD de Sá Carneiro, nomeadamente, quando o partido, enquanto PPD, foi fundado, assentando num centro-político razoável e equilibrado. A sucessiva deriva à direita, à extrema-direita, a última protagonizada pelo actual líder, vem descaracterizando o partido da sua ideologia primitiva. O PSD, presentemente, perdeu espaço no seu campo político. Com esta liderança, ademais, revela ter ficado preso ao passado, daí que não consiga impor-se e recuperar a confiança do eleitorado. Urge renovar o partido, mudar de presidente, arejar - que me permitam os sociais-democratas por estes singelos e despretensiosos conselhos.

22 de janeiro de 2017

Silêncio.


   O convite surgiu atempadamente, enquanto lia o Animal Farm do Orwell. Fomos à sessão da meia noite nas Amoreiras; em rigor, a sessão da uma, a hora a que o filme começou pela quantidade extenuante de comerciais que o precederam.

   Scorsese teve uma boa ideia. Quando tomei conhecimento da história, fiquei feliz por Hollywood querer abordar um capítulo que não tem merecido a atenção suficiente da indústria cinematográfica. A penosa vida dos missionários portugueses no Japão, em tentativas de levar a palavra de Deus contida nos evangelhos. No zénite da presença portuguesa, centenas de milhares de japoneses aderiram à nova fé, que, entretanto, lesava os interesses das autoridades locais. Os neerlandeses, por seu turno, contrariamente a portugueses e castelhanos, respeitavam, regra geral, os costumes e as práticas religiosas dos povos, não se arrogando dessa atitude messiânica, que foi interpretada, no Japão, como uma fé hostil e forasteira, merecendo a reprovação, a perseguição e, no limite, a expulsão dos jesuítas.

   O filme tem o típico pendor religioso dos seus congéneres, o que se verifica na envolvência espiritual. As densas paisagens verdejantes transportam-nos a uma realidade de tal modo distante, geográfica e culturalmente, que sentimos verdadeira compaixão pela missão hercúlea daqueles dois padres portugueses, que partiram um busca de um terceiro, também ele português, de quem se dizia perdido na crença, um apóstata.

    A vida dos japoneses convertidos ao cristianismo era terrivelmente sofrível. Professavam a sua fé no mais absoluto segredo. Qualquer símbolo cristão, como uma cruz ou um simples rosário, representava a redenção absoluta, a presença de Deus no seio dos homens. À chegada dos padres, aqueles modestos aldeões reagiam como se estivessem diante do próprio Filho de Deus, arriscando as suas vidas se preciso fosse, morrendo pela fé, recusando-se a blasfemar e a renegar a Cristo. Essa faceta não é conhecida no ocidente. Parafraseando um dos padres, ali, entre aqueles homens, Deus teria as mais devotas das suas criaturas. As interpretações foram magistralmente conseguidas. Tanto amor a Cristo, tamanha fé inabalável, mesmo em pessoas que tudo quanto conheciam não ia além daqueles casebres improvisados no meio do nada.

    Andrew Garfield, o actor principal, encarnou, a meu ver, na perfeição o papel de jovem sacerdote, obstinado, corajoso, com crises de fé, naturalmente, mas que soube adaptar a profunda religiosidade, com chamamento divino, à vida que o aguardava naquelas paragens, sob o olhar atento e voraz do  inquisidor-mor.

    O filme é demasiado extenso, e não deixa de pecar por alguns clichés. A traição de Judas no Getsémani, o caminho do calvário; nem as vis moedas, jogadas pelo algoz aos pés do camponês dissoluto, foram esquecidas. Não obstante, o suplício de todos quanto se recusavam a abjurar a Cristo, relembrando os martírios dos primeiros cristãos no tempo dos romanos, impressionável aos mais sensíveis, leva-nos a questionar os limites da fé, assumindo que tem limites, e até onde estamos dispostos a ir em sua defesa.

    Aconselho o filme. O circunstancialismo histórico tem muito interesse, os actores saíram-se bem, e a obra em si é nem mais e nem menos do que um testemunho de fé, no silêncio, como perceberão.