28 de novembro de 2016

Fidel (1926 - 2016).


   Fidel morreu. O timoneiro, o revolucionário. A personagem apaixonante, que despertou, pelas décadas, a admiração e o respeito de muitos e o ódio de outros. Fidel, entretanto, consegue reunir algum consenso na hora da morte, e a evocação da sua figura tem-se sobreposto aos pecados do regime cubano. Fidel, contrariamente a Estaline ou a Mao, paira entre nós como o homem destemido, obstinado, que enfrentou a superpotência que mora ali ao lado, que discursava por horas, envergando a farda militar, que nos últimos anos deu lugar aos fatos de treino.

   Fidel foi, em síntese, o símbolo do anti-imperialismo, da vontade de rumar em sentido inverso ao que seria esperado. Quanto tomou o poder, em 1959, Cuba era o que se poderia chamar um casino royal dos EUA, onde proliferava todo o tipo de negócios, servindo a administração cubana como mera cortina de fumo. Após a conquista do poder por Castro, acompanhado pelo lendário Che Guevara, Cuba tornar-se-ia o bastião socialista no Golfo do México. O pequeno estado insular esteve no epicentro da famosa crise dos mísseis, de 1962, que por pouco não despoletou o terceiro conflito armado de dimensões mundiais. Fidel já havia consolidado o seu poder, com a vitória face à tentativa estadunidense de reverter a Revolução, no célebre episódio da invasão da Baía dos Porcos, em 1961. Com a derrota frente ao exército estadunidense, em 1898, Espanha viu-se expropriada da sua ilha, e a influência dos EUA manifestar-se-ia por décadas, pelo que Fidel e a ascensão do socialismo representavam uma ameaça a escassos quilómetros da Florida, intolerável em contexto de Guerra Fria.

    O apoio político e logístico da União Soviética permitiu contrabalançar o embargo económico imposto sobre a ilha pela administração Eisenhower. O bloqueio e o corte de relações diplomáticas, só restabelecidas em 2014, encaminharam o país para o isolamento, situação que agudizaria com a queda do bloco soviético, em 1991. Cuba ficou conhecida pelo surpreendente nível de bem-estar e de desenvolvimento, ainda que com todos os reveses. Nos domínios da saúde e da educação, Cuba posiciona-se em lugares cimeiros, havendo procura internacional pelos avanços na investigação a determinadas enfermidades do foro neurológico, designadamente.

    O longo período em que Fidel esteve na liderança dos destinos da nação cubana não foi imune a erros. A repressão, a tirania e a intolerância foram uma constante pelos anos, e os exilados políticos nos EUA não hesitam em relatar as atrocidades cometidas pelo regime. Fidel foi perseverante nas suas convicções políticas; parafraseando Maquiavel, um líder deve ser temido, mais do que amado. Enquanto político, a minha vénia. Sobreviveu a tudo, inclusive ao ostracismo internacional, à dissolução da URSS, às investidas dos EUA, aos opositores e críticos, à crença no seu suicídio político despojado do suporte soviético. Só a morte o derrotou. Esta é a evidência incontornável. E em quem governou por tanto tempo em ditadura, é curioso assistir ao vazio que a sua partida nos deixa.

10 comentários:

  1. Um mito que se perdeu em seus paradoxos como todos os tiranos ...

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  2. Eu também não consigo simpatizar muito com Fidel. Acho que aquele povo quer uma abertura do regime, quer poder ter acesso à liberdade, aos bens materiais, a poder viajar à vontade, ter o seu patrimônio, etc. Espero que essa morte represente uma viragem, sabe.

    Abraços!

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    1. A morte de um líder carismático acarreta sempre alguma mudança. Não sei até que ponto a partida de Fidel trará aberturas no regime. Fidel estava afastado há anos da vida pública e política.

      Obrigado pelo tempo despendido na leitura, amigo Ty. A blogosfera está cada vez mais oca e sem sentido. Uma porcaria, em bom português. :)

      um abraço.

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  3. Tive pena foi das pessoas mandadas executar e da vida miserável que deu ao seu povo, quando os ricos gozavam e gozam de todos os privilegios. Um turista tem tudo nos hoteis, agora o povo?! Senhas para ir comprar arroz e pão.

    Grande abraço amigo

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    1. Bom, se formos a analisar os indicadores sociais, Cuba está melhor posicionada do que muitos dos seus países "vizinhos" (uma ilha também os tem). No conjunto da América Hispânica, há bem pior.

      Não quero defender Fidel, longe de mim, mas o capitalismo, se o socialismo está falido, também já deu o que tinha a dar.

      um abração.

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  4. Alguém que certamente já está na história. Se em vivo já estava, agora o tempo ditará a sua marca.

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    1. Eu creio que fui ingénuo. A princípio, as opiniões não eram tão contraditórias, como se Fidel tivesse uma aura que o envolvesse. Não senti entusiasmo com a sua morte. Devem ter-se apercebido e começou a onda de diabolização. Eu não consigo sentir o mesmo desprezo por Fidel que sinto em relação a Pol Pot, por exemplo. Fider era... Fidel.

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  5. "Muitas crianças hoje dormirao na rua, mas nenhuma será cubana" se não é assim, é parecido!
    Não deixou o mundo melhor, mas deixou Cuba certamente melhor do que a encontrou. E em determinadas áreas, melhor que nós inclusivamente. Ainda que tenha cometido alguns erros, nomeadamente com os homossexuais, que depois publicamente assumiu...

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    1. Estas personagens controversas despertam sempre muitas paixões, daí que muitos não consigam ser inteiramente justos na hora das apreciações. Errou, como todos erram, mas evitou que a ilha fosse um quintal dos EUA.

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Um pouco da vossa magia... :)