14 de outubro de 2016

Trump e Hillary.


    Dediquei um artigo, em Maio deste ano, ao sistema constitucional estadunidense, como prefiro denominar por uma questão de correcção histórica, linguística e geográfica, e à candidatura de Donald Trump, que poderão consultar aqui. Supus que seria o primeiro de uma leva de publicações atinentes às eleições presidenciais dos EUA, que desde há muito extravasaram as fronteiras daquele país. Eleger o Chefe de Estado e de Governo da potência hegemónica significa designar um homem ou uma mulher que liderará, sem grandes obstáculos, os destinos do planeta. A ONU demitiu-se do seu papel a partir do momento em que se fez a guerra sem o seu aval.

     Comparar Hillary a Trump será, reconheço, confrontar o programa e o ideário de uma mulher que, embora com todos os defeitos que lhe apontemos, possui a credibilidade necessária inerente às responsabilidades que pretende assumir com um homem surgido do mainstream, uma figura populista, demagoga, que, todavia, está muito bem posicionada para suceder a Obama. E é exactamente aqui que pretendo chegar. Trump é uma piada que, passo a passo, se afirmou, munindo-se da natural apetência dos EUA para comandar, dos discursos galvanizadores que encontraram acolhimento junto dos descontentes com a política do Partido Democrata desde que Obama, em 2008, chegou à Casa Branca. Não é leviano levar Trump a sério, temer as consequências que advirão da sua eleição. O candidato expôs os seus argumentos, alguns deles profundamente desadequados, que ferirão, certamente, a consciência do cidadão médio, em propostas que granjearam os estadunidenses, a ponto de as sondagens o apontarem como presumível futuro Presidente dos Estados Unidos da América. Tecnicamente, há um empate entre ambos. A candidatura de Trump, para os mais distraídos, não paira, qual substância etérea, sobre nós. É uma realidade, uma realidade que poderá materializar-se em votos, no dia do escrutínio popular, e numa vitória.

     Temos dois candidatos e temos medidas que pretendem implementar. Partindo destas premissas, vejamos qual dos dois melhor serve os interesses da nação americana. Não me competirá a mim aferir da pertinência de se eleger um ou outro. Posso, entretanto, colocar-me no lugar de um cidadão americano, homem médio, que quererá a ventura do seu país e pouco intervencionismo externo. Os EUA têm, tendencialmente, um raio de acção no seu espaço geopolítico. Assim se explica a existência das alianças militares, como a OTAN, e do tradicional antagonismo com a Rússia. Independentemente do nome que resultar da eleição, desengane-se quem crê que o papel de ingerência que os EUA desempenham desde o final do século XIX, com o conflito com Espanha, e, mais ostensivamente, desde o final da I Guerra Mundial, conhecerá um refreamento com Trump. O candidato republicano já demonstrou não querer hostilizar a Rússia, sendo certo que os seus comentários agressivos à China não auguram nada de bom. E tenho para mim que, como bom republicano, na senda de Bush pai e filho, estimulará um conflito algures.

     Desconstruir Trump é, aparentemente, simples. Defende o uso da tortura, é favorável à manutenção de Guatánamo, alega que construirá um muro a limitar o acesso dos mexicanos ao território estadunidense, desconsidera imigrantes, mulheres, doentes terminais. O seu discurso, entretanto, não se restringe às medidas mais caseiras, no sentido de incendiárias, e presumo que será aí, no que idealiza quanto à economia e à política de emprego, que seduzirá os seus compatriotas, ao querer taxar as maiores fortunas e ao prometer penalizar todas e quaisquer empresas que decidam abandonar o país. O proteccionismo e o nacionalismo, aliados, constituem o embrião do seu aparente sucesso.

      Hillary, em contrapartida, será mais interventiva na política externa. Internamente, reafirma os direitos das mulheres, que protegerá; na saúde e na economia, apresenta propostas moderadas e realistas, despidas da paixão que Trump imprime a tudo quanto se refere.

       Em suma, Mrs. Clinton é uma candidata razoável, que melhor saberá gerir o mandato. Imagino-a a servir os interesses da indústria de armamento do país, e acredito que Trump fosse mais peremptório na hora de tomar decisões adversas aos lobbies bélicos. O perigo de se eleger Trump reside na imprevisibilidade de alguém que, como referi em Maio, não revela sentido de Estado. A descredibilização do país nos palcos internacionais é, também ela, uma possibilidade com a qual os eleitores terão de contar. Os debates, pelo que pude assistir, não esclareceram os indecisos e nem convenceram os cépticos; perdemo-nos entre tantos ataques ao carisma e à honra, que pouco aproveitam à disputa séria, credível e intelectualmente honesta. Mas falamos de Trump, e com Trump interessa o momento, nem que tal tenha o preço alto de mil impropérios.

8 comentários:

  1. Meu amigo... eu não sei, ainda que tenhamos várias críticas à Mrs Clinton, para mim o Trump é um personagem folclórico, que não deveria chegar a esse ponto. As propostas dele não passam de bravatas, impossíveis de serem colocadas em prática.

    Me soa tão fora da realidade, que me assusta como uma pessoa como ele consegue ter chances reais de chegar a presidência dos Estados Unidos, é um caso para estudo!

    Abração.

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    1. A sociologia e psicologia estão aí para explicar o fenómeno "Trump", que não é assim tão diferente de outros que conhecemos. Alguma instabilidade e descontentamento aliados a um carácter sombrio e demagogo. Eis a receita ideal para se colocar um idiota no poder.

      um abraço grande.

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  2. Estou a adorar esta saga, o que me rio com o trump e com os seus seguidores lolololol Quanto à outra que teve um par de chifres na testa?!

    É isto que a maior potência tem para mostrar?!

    Ahahahahahahhahahahahahahahah

    Grande abraço amigo

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    1. Na Sala Oval, Monica Lewinsky fez... Quem vier que complete. (risos)

      Costumávamos dizer isto na escola.

      um abraço grande e... até logo. :)

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  3. Penso que, uma eventual vitória de Trump [pouquíssimo provável quero crer], será o prenúncio de tempos sombrios por demais para toda a humanidade.

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    1. As sondagens indicam um empate nas intenções de voto. Veremos... Mas sim, aquele ogre na Casa Branca será um perigo.

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  4. Eu se fosse americano iria apoiar a candidatura de Jill Stein, que sou anti sistema... Lol

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    1. Não que Hillary me agrade, mas por "exclusão de partes"...

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Um pouco da vossa magia... :)