14 de maio de 2016

Quotidiano.


        Há muito que temos presente a crise de valores que perpassa a sociedade ocidental. Eu, que não sou conhecido por nutrir especial apreço e fascínio pelos países orientais, vejo-me obrigado a reconhecer a relevância que os laços familiares assumem no sudeste asiático e no Japão, enquanto que por cá fazemos a trajectória inversa. Manifestação dessa importância encontramos no respeito pelos anciãos, pelos patriarcas e pelas matriarcas. Os mais velhos vêem as suas opiniões serem tidas em consideração pelas gerações mais novas. A idade é um posto.

     Não sou um velho do Restelo, tão-pouco um admirador da época em que os pais acertavam os casamentos dos filhos, em que os namoros proibidos eram vividos em segredo (mantendo certo encanto, talvez) e em que os consentidos não iam muito além de breves encontros ao postigo ou nas salas de estar das moças, com os irmãos, os avós e, sobretudo, com o pai a observar com salutar atenção os movimentos do rapaz e as suas investidas sobre a donzela. Isso não implica que seja indiferente à libertinagem a que assistimos e, o que me preocupa mais, ao desrespeito que se verifica em idades progressivamente mais precoces. As crises na adolescência, naturais nessa fase de desenvolvimento, não surpreendem e não são em si uma novidade. O perigo está no estágio imediatamente anterior, na infância, onde constatamos meninos paulatinamente mais caprichosos e mimados, verdadeiros déspotas em miniatura.

     Ontem, à tarde, lanchei numa pastelaria aqui perto de casa, como de costume. A páginas tantas, entrou uma senhora já de certa idade, acompanhada por uma miúda que não teria mais de seis, sete anos (a julgar pela estatura e pelo comportamento). Fui de imediato tomado por alguma perplexidade ao verificar que a menina caminhava sorridente e feliz, em excessiva euforia, e a avó carregada com a sua bolsa e ainda com a mochila da neta. O natural seria a menina carregar o seu material, ajudando a velha avó. A avó fez os pedidos, ao balcão, e a neta sentada à mesa. A senhora levou-lhe uma mousse de chocolate e aguardou, ao balcão, pelo chá. Já com a chávena na mão, pediu à neta para que se encaminhasse até uma outra mesa, supondo eu que não lhe agradaria ficar na mesa entretanto escolhida pela pequena, num canto com escassa luminosidade. Ora, a menina, se educada fosse, acataria a decisão da avó, levantando-se e cumprindo com a sugestão da senhora, que assim foi; não senti qualquer tipo de ordem nas suas palavras. Pelo contrário, cerrou os braços por cima da mesa, pousando-lhes a cabeça, amuou e começou a fazer birra. A avó cedeu e, aproximando-se, ouviu o seguinte comentário: "Se querias, ficavas tu ali!", rematando com um: "Parvinha!", acompanhado de uma expressão facial sarcástica e cheia de soberba. 

      Respirei bem fundo e ainda ponderei mudar de mesa para evitar confrontar aquela criança com um olhar de reprovação. E se é verdade que lamentei por aquela avó, não deixo de ser sensível ao facto bastante notório de aquela criança ser assim porque lho permitiram. Provavelmente não a pobre senhora, mas os incautos dos seus pais, ainda que a explicação se encontre num conjunto de factores, entre os quais a personalidade da pessoa, daquela menina, e o convívio com os coleguinhas de escola. Sabemos como somos susceptíveis, acentuando-se a tendência nestas idades, em que o carácter está longe de ser definido, e por isso mesmo o papel dos pais e dos educadores é decisivo, evitando-se futuros males maiores. Como diz a sábia voz do povo: "De pequenino se torce o pepino".

      Eu tenho autoridade para criticar o comportamento daquela menina. À chegada da mãe, contei-lhe o sucedido, reagindo com passividade ao que lhe acabara de relatar. Sabe que errou na minha educação. Fui igualmente um menino e um adolescente mimado, autoritário, contumaz, cheio de manias. Fiz birras. Muitas vezes sujeitei os pais a comprarem-me brinquedos naquele dia, àquela hora, caso contrário choraria até suar. Prontamente me satisfaziam a vontade. Não sinto qualquer refreamento em contá-lo, pois, anos volvidos, não fui o culpado; fui a vítima. E ainda hoje sofro com as consequências de uma educação leviana. Apenas considero curioso que eu próprio saiba fazer o meu diagnóstico, e tão-só. E por temer que o fenómeno se multiplique e prolifere, estou atento e pronto a alertar para os perigos que comporta descurar a educação de uma criança. Tornem-nas adultos saudáveis, mentalmente equilibrados e, preferencialmente e dentro dos possíveis, felizes.

14 comentários:

  1. Com a idade, é que os jovens dão razão aos seus pais e avós :)

    A vida ensina de uma forma mais dura que os pais... Mas, nós acreditamos nas suas palavras...

    Grande abraço amigo

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    1. Aqui nem se trata disso. Trata-se de mimo a mais e não propriamente de obstinação em não seguir as orientações dos mais velhos. É provável que com esta miúda se chegue aí, mas ainda faltarão uns aninhos.

      um abraço, amigo.

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  2. O dizer mais deste final? " Eu tenho autoridade para criticar o comportamento daquela menina. À chegada da mãe, contei-lhe o sucedido, reagindo com passividade ao que lhe acabara de relatar. Sabe que errou na minha educação. Fui igualmente um menino e um adolescente mimado, autoritário, contumaz, cheio de manias. Fiz birras. Muitas vezes sujeitei os pais a comprarem-me brinquedos naquele dia, àquela hora, caso contrário choraria até suar. Prontamente me satisfaziam a vontade. Não sinto qualquer refreamento em contá-lo, pois, anos volvidos, não fui o culpado; fui a vítima. E ainda hoje sofro com as consequências de uma educação leviana. Apenas considero curioso que eu próprio saiba fazer o meu diagnóstico, e tão-só. E por temer que o fenómeno se multiplique e prolifere, estou atento e pronto a alertar para os perigos que comporta descurar a educação de uma criança. Tornem-nas adultos saudáveis, mentalmente equilibrados e, preferencialmente e dentro dos possíveis, felizes."
    Sabedoria e disposição, coisa ímpar de cada um de nós que, apesar dos percalços da vida, ainda somos capazes de mudar o curso da mesma. Para melhor.

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    1. O bom que temos é o livre-arbítrio. Apesar de todas as dificuldades, se mantivermos o discernimento e a perseverança podemos mudar e superar todos os obstáculos.

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  3. A mudança, quando a há, não se faz sem grandes penas, e porque existe inteligência e distância suficiente para se poder julgar em casa própria. Doutra forma continuaremos a assistir a um triste espetáculo de gente pouco instruída, pouco habituada a ver para lá do seu umbigo e com pouca vontade de mudar.
    Compreendo esta situação, pois se me deixarem fazer o que me apetece não vou querer, nem me interessa, que a situação se altere.
    Bastas vezes, o problema (questiono-me tantas vezes se realmente o é) está em nos deixarem fazer o que queremos, não está propriamente no indivíduo em si. Continuo a acreditar numa certa bondade inata, ainda que pareça ingenuidade.
    Igualmente acredito que somos fruto de uma quantidade de fatores: da educação que recebemos, do nosso próprio caráter (no que se incluirá, logicamente, alguma herança genética) e do que resulta das vivências que estabelecemos com o mundo que nos rodeia, e que não está relacionado propriamente com o que recebemos dos agentes educadores.
    Assim, fico encantado quando me dou conta de como pessoas com maus entornos podem acabar por se transformar em seres com quem é bom partilhar vivências, e quiçá mesmo, amizade, assim como seres humanos, fruto de uma educação exemplar, podem transformar-se em gente a evitar cuidadosamente!
    Uma boa semana
    Manel

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    1. Não sei se será o caso dessa menina. Os pais tiveram as melhores das instruções e nem por isso deixaram de errar comigo. Eu creio que se trata de uma falta de percepção ao ajuizar sobre o alcance das acções. Uma criança deve ser educada com carinho, provendo-se-lhe tudo o que necessite para a sua sã formação, e não presenteando-a conforme os seus caprichos. Ser pai e mãe também exige certa aptidão.

      Hmm, eu tendo a não partilhar esse entendimento de Rousseau. Para mim, na senda de Hobbes, o homem é, tendencialmente, mau.

      Com certeza. A herança genética pesará, mas essa é uma velha querela na ciência: somos mais a genética ou o ambiente social e cultural em que estamos inseridos?

      Sabe que não tive uma má educação? Tive uma educação leviana, o que é diferente. Fui um menino educado e bem comportado, mas mimado e intransigente.

      Continuação de uma boa semana para si.

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  4. otimo reflexão... nesta questao de educação de filhos... eu estou com a SUPERNANNY, a culpa é dos adultos, e mesmo os pais sendo eventualmente maus educadores, a avo deveria colcoar os limites dela... alias, provavelmente o pais da menina são birrentos e mal educados.. e esta avo é que deve ter ensinado!

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    1. Sim, claro. Os avós desempenham um papel de extrema relevância na educação dos netos, e uma palmada nunca fez mal a ninguém. :)

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  5. Mark vou-te contar uma coisa que aconteceu ontem, estava uma mãe toda satisfeita a dançar, ou melhor, a abanar o corpo ao som de uma música e a filha olha para ela os olhar de "morte" e a mãe parou de dançar. Parece-me que a filha tinha vergonha da mãe estar a dançar, e não sei qual era o mal, talvez os mais novos julgam que têm o mundo na mão, mas talvez devessem saber que ele existe é por alguma razão.

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    1. Não sei bem o motivo, mas o teu relato recorda-me um episódio que uma colega da faculdade me contou, que se passou com ela.

      Ao saber que a filha namorava, a mãe perguntou-lhe: "Então, já f****?" (risos)

      Essa colega costumava dizer-me que tudo daria para ter uma mãe um bocadinho mais conservadora. :)

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  6. Bem, se fosse eu com a minha avó, ela sem dúvida que traria as minhas coisas, porque eu era uma criança e não podia andar carregada. Mas se lhe desse uma resposta do género ou não acatasse uma ordem dela, levava uma valente chapada no focinho que daria uma cambalhota.
    A verdade é que ela só me bateu uma vez (que me lembre), mas sempre soube onde é que estavam os limites, e nunca os transpus...

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    1. Quer-se dizer, as criancinhas não podem carregar as mochilas, todavia as desgraçadas das avós, com idade, têm de as acarretar! Mas que bem, mas que bem! :)

      Os miúdos de hoje em dia já não conhecem os limites. Creio que vai deixando de os haver. O clima de impunidade é tal que se dão ao luxo de fazer o que querem.

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  7. Em alguns aspectos [okay, em muitos! [risos]] faz falta a educação que havia nos anos 80, meados dos anos 90. Cada vez mais fico "chocado" com situações que assisto no metro e em outros locais. A falta de respeito dos mais novos é assustadora.

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    1. Compartilho dessa tua reacção. É realmente preocupante.

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Um pouco da vossa magia... :)