1 de maio de 2016

O Dia do Trabalhador.


  Coincidentemente, o Dia da Mãe é assinalado, este ano, com o Dia do Trabalhador. Já expus anteriormente o que penso sobre tais dias comemorativos dedicados aos ascendentes. Não vislumbro uma utilidade prática que não seja a puramente comercial. Tomando como certo de que uma mãe deve ser honrada diariamente, considerando até redutor que se lhe dedique um dia específico do calendário, não vejo o que este dia terá a acrescer à saudável relação entre uma progenitora e os seus filhos. Um estímulo à hipocrisia, presumo que sim, numa época em que se acentua a quebra da importância dos laços familiares.

    De maior relevância será, destarte, o Dia do Trabalhador, que em Portugal passou a ser oficialmente assinalado apenas após a Revolução de Abril de 1974. Com a precariedade laboral, com os milhões de desempregado por este mundo, o dia pretende consciencializar-nos para a dignificação necessária e premente do trabalho humano, tão depreciado nas modernas sociedades capitalistas, em que o trabalhador é encarado como um instrumento ao serviço e à disposição do patronato e não enquanto verdadeiro artífice da construção da economia de um país. Fazendo uma retrospectiva histórica, percebo que muito evoluímos desde que a Igreja, através das suas encíclicas, ao longo do século XIX, alertava para a exploração dos operários fabris pelo patronato. O trabalhador foi adquirindo direitos através dos tempos. Presentemente, aludindo à realidade portuguesa, temos um Código do Trabalho que enuncia uma série de normas que visam a protecção do trabalhador. A experiência, contudo, diz-nos que não há paridade alguma entre trabalhador e patrão. O trabalhador mantém, não raras vezes, o seu vínculo laboral à custa de sacrifícios que vão muito além do humanamente exigível. A mulher grávida é preterida; o desempregado que atinge determinada idade, ainda que qualificado, vê as suas chances de reintegração no mercado de trabalho bastante reduzidas; o jovem licenciado vê-se impelido a emigrar pela falta de oportunidades no seu país de origem, levando consigo o conhecimento que será aproveitado lá fora, privando a sua pátria de uma mais-valia. É este o quadro alarmante que temos em Portugal, e não será apenas por cá.

     «Todos têm direito ao trabalho.», expressa o artigo 58.º da Constituição, logo no número 1. Aqui, e estando o Estado obrigado a promover a execução de políticas de emprego, somos confrontados com a falta de concretização dos dispositivos constitucionais. A Constituição é, em matéria de trabalho, um manual de boas intenções. Sabemos que só há trabalho com uma conjuntura económica e estrutural saudável, que também se consegue por intermédio de políticas responsáveis que estimulem a fixação das empregas, que são as geradoras de postos de trabalho, e a contratação de trabalhadores. Exactamente o que não tem sido feito, propiciando-se o trabalho precário e mal remunerado. Com o novo executivo, renasceram algumas esperanças com as medidas que têm vindo a ser aplicadas, no entanto ainda não se conseguiu reverter a tendência dos últimos anos. Um primeiro passo, positivo, está na mudança de entendimento e de sensibilidade relativamente a estas matérias.

12 comentários:

  1. Por aqui nada a comemorar a não ser o fim próximo de um ciclo tenebroso ...

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    1. Segundo soube, o Dia da Mãe é comemorado no segundo domingo de Maio, no Brasil.

      O Dia do Trabalhador é assinalado internacionalmente.

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    2. Sim. Por aqui o Dia das mães será no dia 08 este ano.

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    3. Exacto. É uma festividade móvel.

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  2. Reduzir o Dia da Mãe à questão comercial é, a meu ver, uma desconsideração não pelas nossas mães, mas sim pelo papel da mulher na sociedade. Acabar com o dia específico para tal comemoração seria idêntico a acabar com qualquer um dos feriados que existem na nossa República, já que todos os dias são do Trabalhador, todos são da Independência, etc.

    É claro que o Dia da Mãe não é uma questão comercial. Não sei quando começou esta comemoração, apenas sei que há muitos anos dava-se a mesma a 8 de Dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição (sinceramente uma data mais apropriada tendo em consideração o aproximar da comemoração do nascimento de Cristo).

    Mark são estas comemorações que fazem parte da cultura de um povo, acabar com elas reduzir-nos-ia a todos apenas a números neste mundo em constante evolução... em sentido contrário, em alguns assuntos.

    Mas gosto do texto. Obrigado pela oportiunidade (de ler e comentar).

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    1. Bem, o teu comentário tem ideias tão confusas e contraditórias que nem sei por onde começar. Começo por dizer que discordo de praticamente tudo, fundamentando de seguida.

      Em primeiro lugar, confundes o papel de mãe com o papel de mulher. Há mulheres que nunca experienciam a maternidade. Tens razão, sim, é uma desconsideração, e precisamente por isso me insurjo com quem apenas se lembra da sua mãe nestes dias comemorativos. Tu mesmo, no teu blogue, dizes que vais aproveitar o dia com a tua mãe. Precisas destas datas para o fazer? Acredito e confio que não.

      Nem todos os dias são da Independência ou do Trabalhador. Comparas o estatuto de trabalhador ao estatuto de mãe, sendo que são papéis intrinsecamente distintos. Aliás, desconsideração, com as mães, é fazer essa comparação absurda. No que diz respeito às independências, se são proclamadas no dia X, não o são no dia Y. Dizer-se que todos os dias são dias da independência é uma falácia.

      Sim, era comemorado no Dia de Nossa Senhora da Conceição. Passou ao primeiro domingo de Maio por ser o mês liturgicamente dedicado a Maria, mãe de Jesus.

      Não carecemos de "dias das mães" para honrar a nossa mãe. São dias que assumiram um carácter vincadamente comercial, queiramos ou não.

      Obrigado pela tua participação.

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  3. Estive na Manifestação :)

    Tomara que a lei das 35 horas, seja para todos :)

    Grande abraço amigo

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    1. Eu esquivo-me de manifestações, sejam de que índole forem.

      um abraço, amigo. :)

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  4. Concordo com a índole comercial que as datas tem vindo a adquirir ao longo dos anos. Por outro lado, concordo que certas datas devem ser mais abordadas, como é o caso do dia dos avós, para ver se a nossa sociedade começa a ter mais consciência e respeito por quem de nós cuida.

    Já no que diz respeito ao dia do trabalhador, é uma data que deve continuar, sempre, a ser celebrada.

    Abraço :3

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    1. Desditosa sociedade que carece de um "dia dos avós" para de eles se recordar! O mesmo se aplica às mães e aos pais.

      um abraço. :)

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  5. Bem, precariedade laboral... sei o que isso é. Muito poderia dizer, mas posso dizer apenas que eu, que sou qualificado a diversos níveis, ganho praticamente o mesmo que a senhora da limpeza. Não que ela não mereça o que ganha (merece e merecia muito mais), mas o investimento que os meus pais fizeram na minha formação não tem um exato retorno. Muitos colegas meus que trabalham em supermercados levam ao final do mês o mesmo que eu.
    (desculpa o desabafo)

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    1. Oh, por favor. Estás à vontade. Apenas apresentas um fiel retrato do país.

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Um pouco da vossa magia... :)