19 de março de 2016

Pai.


      De sempre desconfiei das boas intenções dos dias alusivos ao pai, à mãe, aos avós. A julgar pelo comércio em torno dos sentimentos mais primários do indivíduo, o mesmo que dizer da sua afeição pelos progenitores, eu considero que foi muito bem conjecturado. Ainda que não queiramos, somos induzidos a comprar uma lembrança, àquele telefonema especial, a ponderar na balança da consciência as nossas (más) acções e omissões...

     Recordo-me de estar no colégio e, como todos, de fazer o meu próprio presente a ofertar ao pai. Há um que guardei particularmente na memória: uma escova para os sapatos, pintada e envernizada à mão. Ao meio, a palavra Pai, cunhada pelo meu próprio dedo. Depois de devidamente ornamentada, foi envolta em papel celofane, verde.

      O pai, tal qual a mãe, nunca foi muito atento a estes mimos. Via, claro, gostava, mas logo colocava de parte. E eu em nada ficava desiludido. Queria brincar, e pouco mais. O amor do pai nunca se materializou em gestos espontâneos ou premeditados de zelo e devoção. Presente, amigo, protector, sem dúvida alguma carinhoso, mas simultaneamente distante de algumas necessidades prementes de qualquer criança.

      Nunca o tive como referência. A mãe substituiu-o em todas as vertentes, restando pouco mais do que a sua presença física e espiritual. A separação aproximou-nos, primeiramente, afastou-nos, para nos acercar novamente, de há um ano para cá, até nos quedarmos em períodos de contacto ou distanciamento. Por ora, estamos alheados um do outro. 

      É provável que lhe ligue, não obstante sentir certa hipocrisia no gesto. Sei que nem sempre o terei e, conhecendo-me, amaldiçoar-me-ei por ter sido mesquinho. Eu gosto do pai. Sinto a sua falta. Sei que o amo à minha maneira, como também sei que lhe custa termos perdido aquela relação tão constante no tempo e no espaço, não perfeita, com alguns vícios, entretanto robusta e sólida.

        Confio que o futuro nos será brando, e que, aí, talvez possamos recomeçar no ponto em que ficámos.

10 comentários:

  1. De facto, o dia do Pai é todos os dias. Acredito que este existe em particular, porque hoje é o dia de São José :)

    Grande abraço amigo, e dá lá um telefonema :)

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    1. Eu diria que em Portugal e em alguns países católicos é assinalado a 19 de Março porque coincide com o dia consagrado a São José, mas o Dia do Pai existe em países não-cristãos; aliás, mesmo em países cristãos e católicos, no Brasil e no México, por exemplo, é assinalado em outras datas.

      Sim, liguei-lhe há momentos. Está bem.

      um abraço, e não te esqueças de estar/telefonar com/ao/o teu. :)

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  2. Olá meu amigo...

    Ah! Essas relações... eu tenho um bom relacionamento com o meu, mas como digo, sempre somos "pai e filho", já houve tempos em que eramos mais afastados, o tempo tem feito que com que fossemos nos aproximando.

    O que tenho feito é não me furtar a esses convites da vida e assim temos mudado nossa relação... tenho certeza que o mesmo acontecerá contigo e espero que possamos levar tua relação com teu pai a novos patamares!

    Grande abraço! :)

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    1. Olá, amigo Latinha. Bom te ver (ler)!

      Eu tive um relacionamento muito próximo com o meu pai até à separação. Lamento muito, dez anos depois, que nos tenhamos afastado. As reaproximações que se seguiram foram efémeras. Jaz em mim um desalento. Às vezes ainda não quero acreditar que os meus pais se separaram. Parece que nada mais faz sentido. Bom, mas esta publicação nada tem que ver, no imediato, com essa situação.

      Eu espero que sim. A minha vida precisa de uma volta enorme. Tenho muito a resolver.

      um grande abraço!

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  3. O dia do Pai e dias semelhantes deveriam de ser com o Natal, ou seja, sempre que o Homem assim queira, e não uma data especifica para mostrarmos o nosso afecto. Uns aproveitam para gastar uns euros e oferecer algo simbólico, outros passa ao lado.

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    1. Dias para gastar dinheiro. O afecto não se mune de calendário. :)

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  4. Estime o seu pai enquanto o tem. Tivesse eu o meu!

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  5. O pai quer se queira ou não queira fará parte da nossa vida e aquilo que mais me dói foi não o ter sabido amar como ele sempre me amou.
    Hoje reconheço que ele tinha tão pouco e deu-nos tanto e sem conhecer as letras e os números foi ele quem nos ensinou. Não havendo pão ele sempre nos alimentou.

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    1. Quem sabe se ele estará por aí, algures, ouvindo os seus pensamentos, caro Luís.

      Quando ouço dizer "mãe é mãe", pergunto-me: E pai, não será pai? Teremos dois, como dizem, mal, que Jesus tem? Ambos os progenitores cumprem o seu papel. As mães tradicionalmente mais afectuosas, mas os pais amam ao seu jeito, e quantos não são pai e mãe ao mesmo tempo...

      um abraço.

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