21 de fevereiro de 2016

Seems like it was yesterday.


    Este mês perfaz uma década desde que os pais se separaram. Quando o constato, quase que não quero acreditar. Está tudo tão incrivelmente presente. As expressões faciais, as decisões irreflectidas, as posturas alteradas. A minha aparente alienação, como um ferido em combate que deixa de sentir a dor, por momentos, dado o estado de excitação.

    O processo de separação dos pais foi brusco. Como que num rompante, puseram termo a duas décadas de vida em comum. Vinte anos de dias agradáveis, alguns de inquietude, como em todas as famílias. Não há lares perfeitos. E se havia situação que considerava sólida, essa era a relação dos pais. Sobressaía tanto carinho entre ambos. Mais do que estima. Companheirismo.

    Tento, num juízo de prognose póstuma, perceber que motivos se revelaram idóneos. Encontro uma sucessão deles. Todos que não julguei, e nem podia, adolescente que era, suficientes para produzir este resultado: o pai não está bem, a mãe tão-pouco. Sinto-os tão iguais, porque o são, de facto, e por isso sempre se deram bem. Nunca ouvi um grito entre eles, uma palavra grosseira, uma atitude precipitada.

   Ainda subsiste o desânimo, a revolta, a inconformação. O sentimento dominante será, contudo, o desalento. Um vazio existencial. Perdi as minhas referências, a estrutura que me mantinha erguido. De lá para cá, não mais tenho feito do que procurar sobreviver, reconstruir-me, que muitos cacos ficaram da pessoa que era, não demasiado eufórica, que nunca fui, sempre nas brumas da minha melancolia, mas idealista, sonhadora, que jamais duvidava de um amanhã promissor. O amanhã transmutou-se no ontem. E só no ontem eu me encontro sentido.
       
   Levarei esta carga emocional comigo. Não sou pessoa de ultrapassar com eficiência as maleitas. Assemelha-se a uma doença crónica, cujo remédio apaziguador ainda procuro.
       Assim o consiga, atempadamente, que tenho o tempo em meu desfavor.

16 comentários:

  1. Não posso avaliar mas imagino. O certo é que vc encontrará em breve o seu caminho.

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  2. Pensa positivo, melhor assim separados do que juntos a odiarem-se :D

    Grande abraço amigo

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    1. Assim eu pudesse ver a vida, com tamanha simplicidade. :) Como eu gostaria de ser assim, Francisco!... O que daria para ter outro cérebro.

      um abraço grande.

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  3. Os meus pais tinham, interiormente, uma relação tensa e desagradável, porque não se queriam e tinham-se unido por qualquer razão que ignoro, e que nunca me foi dito. Exteriormente eram um casal ideal ... mas eu sabia ... nos anos 40, 50 e 60, a maioria dos casais eram formados para a vida!
    Quantas vezes não era eu que, por força das circunstâncias, servia de elo de comunicação?
    Quando queriam retaliar era em mim que o faziam, e acabava por ser agredido, sobretudo verbalmente, pelos dois de igual forma.
    Quantas vezes pedi (apesar de, nessa época, frequentar um colégio religioso, apostólico romano, e ainda creditava num Deus supremo, uno e todo poderoso, que unia para a vida) que acabassem a relação, que mantiveram durante 32 longos e penosos anos.
    Quando, finalmente(!), saí de casa, muito jovem, ainda não tinha completado 15 anos, senti um profundo alívio ... que dura até hoje.
    Estiveram unidos até que um deles faleceu, mas, na verdade, já tinham fenecido e secado há muitos anos atrás. Nenhum deles mereceu a sorte que teve ... eu também não.
    Mas nunca lhes ouvi nenhuma palavra inconveniente, um grito, um gesto desadequado ou algo que fizesse sair para fora da porta do quarto que partilharam durante essas três décadas, a agonia que foi a vida deles.
    Creio que nunca falei sobre isto a ninguém que os/me conhecesse, e não sei porque o faço hoje. Talvez tenha sido despoletado pelo que li aqui, porque não nos conhecemos, e suponho que isso não virá a suceder
    Manel

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    1. Olá, Manel.

      A nossa experiência é diferente. Posso dizer-lhe que os pais se davam realmente bem, sem dissimulações. Não havia qualquer tipo de tensão. Era, presumo, uma relação genuína.

      Se é possível conhecermos a felicidade, eu fui feliz naqueles primeiros anos da minha vida. Até à adolescência. Fui amado, acarinhado, mimado. Fomos uma família, na verdadeira acepção do substantivo.
      O Manel saiu de casa. Os seus pais permaneceram unidos até que a morte os separou. Os meus pais separaram-se, a mãe refez a sua vida com uma pessoa com quem me dou, assumidamente, mal.
      Eu diria, pelo que me conta, que os seus pais, com todo o respeito, viveram uma farsa. Se o Manuel chegou a ser o «elo de ligação», se a relação era «tensa e desagradável», não vejo em que lugar caberia o afecto.

      Creio que o fez, o desabafo, porque o sentiu, porque teve necessidade. Como eu vou tendo necessidade, de tempos a tempos, de ir exorcizando os meus fantasmas, que são muitos, acredite, embora não pareça. Se o fez sentir-se melhor, ainda bem.

      Aceite um abraço.

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  4. Mark imagino que dificilmente esse momento da tua vida se torne menos "pesado". Acredito que com o passar do tempo vai olhar para ele com outros sentimentos.

    A fases da vida que nos marcam, e deixam marcas.

    Abraço :-)

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    1. Sabes, às vezes penso nisso, e conforta-me: "Mark, deixa passar mais algum tempo; quando fores independente e tiveres a tua vidinha, tudo será mais fácil". Oxalá!

      um abraço, e obrigado.

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  5. Olá
    Só hoje passei por aqui e este é um tema que me faz pensar na felicidade de ter tido uma família como um presente que se ama e se vive todos os dias e em todos os seus elementos.
    Penaliza-me ver casais desavindos.Os que perderam o amor e o respeito.
    Não posso dar-te conselhos que os não sei para mim, mas uma coisa arrisco a dizer. Dá tempo ao tempo. Será melhor que se respeitem separados do que juntos sempre em guerras.
    Aceita um abraço de amizade certo que tu farás a tua vida sem estes dramas que sem querer transportas.
    Os meus pais viveram 46 anos de casamento e mais alguns de namoro.
    Era maravilhoso ouvi-los namorar.

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    1. Olá, Luís.

      Felizmente, os pais não perderam o respeito. O que me chocou, há dez anos, foi o facto de não haver guerras. Nunca os ouvi discutir. Foi uma separação inesperada. Nada a fazia prever.

      Obrigado. Farei, certamente.

      Quarenta e seis anos, mais namoro. Uma vida! :)

      um abraço, Luís.

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  6. ai, Mark...
    tu sabes a minha história de vida e não quero repetir-me, ainda mais que é o teu momento e o teu blogue.
    apesar do choque e do trauma que fica para sempre, tiveste um pai, que mal ou bem, te acompanhou, e que ainda está presente, queiras tu e ele estreitarem os laços.
    (olha o escândalo de um casal famoso e o que estão a passar os filhos).
    os teus pais sobreviveram e tu também. perdeste muita coisa, referências, um núcleo estável e sendo praticamente filho único e muito protegido, sofreste. e esse sentimento (abandono?) acompanhar-te-á para sempre.
    tens o tempo a desfavor? mas és tão novo... (e nada de ideias...).
    aprendemos a conviver com os nossos demónios e dores. tem de ser.
    bjs.

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    1. Sei, sim. E já te disse que te considero um exemplo. Com uma história de vida difícil, aí estás: uma senhora bem resolvida, bem estruturada.

      É... tem de ser. É um exercício diário de superação. A expressão «Um dia de cada vez» encerra uma grande verdade. É realmente conquistar o dia, passo a passo.

      um beijinho.

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  7. Caro Mark, já pensaste que também tu podes constituir uma família, e essa relação pode terminar? Ninguém é de ninguém, e as pessoas só devem permanecer juntas se isso fizer sentido, se existir amor. Mark tu continuas a ter o teu pai e a tua mãe é isso é o que importa. Um beijinho. Lídia

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    1. Olá, Lídia.

      Como está a senhora? Espero que bem. :)

      Tem toda a razão. Às vezes penso que talvez seja um pouco egoísta ao negar à mãe, sobretudo, o direito de refazer a sua vida, mas a verdade é que não a vejo feliz.

      um beijinho, e obrigado pelas suas palavras.

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Um pouco da vossa magia... :)