11 de fevereiro de 2016

A Guerra dos Trinta Anos.


   No Sacro Império Romano-Germânico, apesar da paz religiosa de 1555, subsistiam alguns conflitos religiosos. As vitórias militares da Contra-Reforma no Baixo Reno e na Baviera recrudesceram os temores do partido protestante; consequentemente, em 1608, alguns Estados reformistas congregaram-se na União Protestante, que, no ano seguinte, em 1609, se opôs à Liga Católica, sob o comando da Baviera, ambas aliadas a potências estrangeiras que lhes davam cobertura.

     A Guerra dos Trinta Anos despoletou devido ao clima de tensão entre  a nobreza protestante da Boémia e os Habsburgos, mais concretamente a eleição do arquiduque Fernando como rei da Boémia, carecendo do beneplácito  das ordens sociais desta entidade política; destruição de igrejas protestantes e generalizado menosprezo pelos direitos da nobreza local protestante. Todavia, em 1618 surgiu o pretexto para o início da guerra: a Defenestração de Praga, que afectou os conselheiros imperiais, seguida da escolha do príncipe eleitor, Frederico V do Palatinato, como rei da Boémia, originando repercussões em boa parte do império e do Reino da Dinamarca. Os exércitos católicos iam triunfando, sob o comando de João Taerclaes, o conde de Tilly, e posteriormente de Albert de Wallenstein, conde de Friedland, enquanto os opositores aos Habsburgos permaneciam à margem. A Espanha, por seu lado, reiniciou a ofensiva contra as Províncias Unidas.

      Em 1629, o protestantismo alemão foi todo ele subjugado, vendo-se a Dinamarca coagida a assinar a paz. Os intentos de Fernando II, imperador de 1619 a 1637, e do seu chefe militar, Wallenstein, rumavam, aparentemente, a bom porto. Nesse ano, o imperador submeteu os protestantes e fez exigir, através do Édito de Restituição, a devolução dos bens eclesiásticos confiscados a partir de 1552. A pressão que exerceu sobre os príncipes aumentou, e em tudo este cenário fazia lembrar o de Carlos V, no seguimento da sua vitória sobre a Liga de Esmalcalda. Porém, Fernando II viu-se obrigado a reconhecer que os príncipes alemães e as potências rivais não estavam dispostos a consentir tão impavidamente à hegemonia da Casa de Habsburgo. Os príncipes católicos, liderados por Maximiliano da Baviera, exortaram, pela força, à destituição de Wallenstein; e, em 1630, o rei Gustavo Adolfo da Suécia, com o suporte financeiro da França, desembarcou na Pomerânia. A campanha dos príncipes alemães suscitara-lhe o interesse, contudo os seus objectivos de soberania política, mormente na zona do mar Báltico, ameaçada por Wallenstein, em 1629, eram-lhe caros.

   A jornada vitoriosa da Suécia, através da Alemanha até à Baviera e às fronteiras dos domínios hereditários dos Habsburgo, foi entusiasticamente apoiada pela França, uma vez que o líder carismático da política francesa, o Cardeal Richelieu, antecipava, na situação, a oportunidade de romper por definitivo com a preeminência dos Habsburgos. Para o dignitário da Igreja Católica, o vínculo de uma religião comum por si só não bastava para lograr na união política; a razão de Estado tinha de se impor. Na sequência da morte de Gustavo Adolfo na Batalha de Lutzen, em 1632, e do assassinato de Wallenstein, dois anos depois, os protestantes assinaram a paz com o imperador. Ainda assim, a guerra prosseguiu por forma a estabelecer um equilíbrio e uma hegemonia em solo europeu. A França viu-se impelida a intervir, auxiliando a Suécia, após o seu desaire em Nördlingen. O Sacro Império tornou-se, assim, o maior campo de batalha da Europa, jogando-se o destino do continente pelos países em litígio.


      A Paz de Vestefália selou, por assim dizer, o conflito, triunfando a França e a Suécia. O Sacro Império saiu derrotado. A França distendeu o seu território desde a fronteira leste até ao Reno. Conseguiu incorporar, definitivamente, os bispados de Metz, Toul e Verdun e pequenas áreas da Alsácia, à custa do Império e de alguns domínios dos Habsburgo. A Suécia anexou a foz dos mais relevantes rios alemães, consolidando a sua posição na Pomerânia ocidental - a zona do Báltico. A Suiça e as Províncias Unidas desvincularam-se do Sacro Império, seguindo o seu caminho como entidades políticas, na lógica de equilíbrio que a paz de Vestefália trouxe à Europa. Por sua vez, alguns príncipes alemães, como, por exemplo, o de Brandeburgo e o da Baviera, alargaram os seus domínios, fazendo perder, assim, a solidez e a unidade do Império, pelo reforço dos regionalismos locais. Todos estes Estados alcançaram a plena soberania, podendo firmar alianças com potências estrangeiras. À partida, estava vedada a possibilidade de se estabelecer qualquer aliança que fosse contra o imperador ou os seus interesses; no entanto, a imposição foi ignorada pelos príncipes.

       O território austríaco não se ressentiu sobremodo da guerra, mas o enfraquecimento do Império teve como consequência a diminuição do poder do imperador, facto agravado pelas potências que saíram vitoriosas, França e Suécia, os garantes da Paz, que ganharam a possibilidade de ingerir nos assuntos internos do Império.

         No campo confessional, as cláusulas da paz religiosa de Augsburgo, de 1555, abrangeram também os calvinistas do Sacro Império. Foram reconhecidos os mesmos direitos a todos os cultos e, a partir de 1624, dever-se-ia tornar normativa a inserção de cada confissão num determinado espaço geográfico.

       A Guerra dos Trinta Anos atingiu, para a época, perdas significativas em homens e bens. Não obstante, o conflito, que resultou na Paz de Vestefália, traria, para o quadro das relações internacionais, o conceito de Estado-Nação.

14 comentários:

  1. Adoro ... Sempre uma aula tanto no conteúdo quanto no aspecto didático que o Mark possui.

    Parabéns sempre ...

    Beijão

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    1. Eu gosto imenso de escrever sobre as guerras religiosas da Idade Moderna. :) Obrigado.

      um grande abraço.

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  2. Adorei esta aula de história :) é para continuar?! Espero que sim, o que eu aprendi neste post foi muito bom :)

    Grande abraço amigo

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    1. São artigos pontuais. Há uns bons meses que não escrevia sobre História.

      É sempre para continuar. :)

      Obrigado, amigo.

      um abraço fraterno.

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  3. Uma parte da História que conheço não tão bem. Muito interessante, Mark. Gostei. Sabia apenas que tinha sido um conflito duradouro, religioso. É pena que o Sacro Império não tenha saído vitorioso. Teríamos contido a vaga protestante e herética na Europa (e no mundo).

    Cumprimentos.

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    1. Sabe, aprendi desde cedo a não criticar os acontecimentos históricos; a História compreende-se. O que lá vai, lá vai. Não devemos traçar hipóteses. De nada nos vale. Podemos e devemos, isso sim, tirar ilações para o futuro. Tentar não cometer os mesmos erros.

      Cumprimentos.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. A humanidade sempre se moveu pela religião. A religião instiga os nossos piores sentimentos. Felizmente, para todos, atingimos, pelo menos no Ocidente, o secularismo. Entretanto, parece que ainda não estamos a salvo de tentativas que visem impor-nos uma religião.

      Muito obrigado, Tiago.

      um abraço. :)

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  5. Acho que passados tantos anos, o Homem não aprende e teima em não querer começar a dar o braço a torcer. O que é que já se ganhou com essa atitude?!

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    1. Absolutamente nada. Refreámos um pouco os nossos instintos. Aprendemos a ser 'ligeiramente' civilizados.

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  6. Acho estes posts que escreves fascinantes. Sobre esta guerra pouco ou nada conhecia. Em poucos minutos, de forma sucinta, fiquei com uma ideia clara sobre o tema. :)

    Obrigado! ^^

    Abraço grande :3

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    1. Não fui tão sucinto assim, mas, de facto, a lógica de um blogue não se compadece de extensas dissertações. :)

      Eu é que agradeço, João, pelas tuas palavras.

      um grande abraço!

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  7. Odeio guerras e quando metem religião pior um pouco.
    Quando estudei História Universal era sempre com dificuldade que conseguia perceber os jogos políticos, económicos e religiosos.
    O povo era uma moeda de jogo. A religião era um aproveitamento de ambos os lados. Votos de uma boa semana.

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    1. Heheheh, as pessoas ajuizadas não gostam de guerras, ainda menos se forem religiosas. :)

      Não consigo bem explicar o que me leva a gostar destes enredos. Sou assim desde pequeno. Comecei com a expansão marítima e com as casas reais. Encantavam-me. E fui por aí fora. :)

      Obrigado, Luís. Uma boa semana para si.

      um abraço.

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