17 de dezembro de 2015

As Presidenciais (II).


   Estamos a pouco mais de um mês das eleições presidenciais. A bem ver, tentei evitar abordar assuntos políticos até ao Natal. A quadra em si propicia a uma pausa. As famílias juntam-se, muitas nos dois únicos dias do ano, e todos já pensamos nos doces e nos presentes. Não obstante, a vida não pára. E o acto eleitoral que se avizinha reveste-te de uma importância como nunca antes vimos. Eleger um Chefe de Estado, no nosso sistema, implica sufragar alguém a quem a Constituição mune de especiais poderes com relevância prática e constante. Isso pudemos verificar recentemente, com o impasse governativo em que estivemos pela demora do Presidente em empossar um Governo que garantisse a estabilidade social e económica do país.

   Uns candidatos desistiram; outros ficaram pelo caminho. A disputa será, à partida, sem prejuízo de algum que escape à minha menção, por lapso ou visível irrelevância política, entre Marcelo Rebelo de Sousa, Maria de Belém, Sampaio da Nóvoa, Edgar Silva e Marisa Matias, com particular destaque aos primeiros três, mediante que os dois últimos representam facções que dificilmente, sejamos objectivos, lhes permitiria passar sequer a uma segunda volta.

   Como a imprensa adianta, há um favorito. Um favorito da Comunicação Social e de determinados sectores da vida pública. E a esquerda, que tamanhos obstáculos encontra em se unir, já o percebeu. Marcelo é católico fervoroso, é do PSD. Ainda que tente fazer esquecer a sua militância político-partidária, ela existe e faz-se sentir. Será um Presidente interventivo. Mais do que se desejaria ou até mesmo do que a Constituição faz presumir. A sua atitude, nesta campanha, não tem sido particularmente respeitosa para com os demais candidatos, seus adversários. A entrevista concedida na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa foi claramente uma instrumentalização que visou manipular a opinião pública. Um Presidente não tem necessariamente de ser um jurista, constitucionalista. Apresentar-se na sua escola não o torna um político mais confiável. Eu disse político? Como o Senhor Professor rejeita esse vínculo!

     O favoritismo de alguns órgãos de Comunicação Social constatou-se, nomeadamente, nos tempos das entrevistas. Marcelo foi beneficiado no dobro dos minutos permitidos aos demais candidatos. A par de injusto, a observação que no imediato nos merece, é tendencioso e intolerável numa democracia de quarenta anos. A acrescer, Marcelo passou por uma exposição televisiva de mais de uma década, através dos seus comentários políticos, ora na TVI, ora na RTP. Quem precisaria de cartazes espalhados pelas ruas do país?

       A postura do Partido Socialista favorece Marcelo Rebelo de Sousa perante o eleitorado; Marcelo que já reúne o apoio explícito do PSD e do CDS. O Partido Socialista demonstra não querer se comprometer com qualquer um dos candidatos do seu espectro político, o que debilita as candidaturas da esquerda, cujos esforços para sujeitar Marcelo a uma segunda volta carecem de maior empenho e determinação. O risco de uma eleição à primeira volta persiste. E Marcelo não quer sofrer a "síndrome de Diogo Freitas do Amaral", nas célebres eleições presidenciais de 1986, que obteve um resultado expressivo na primeira volta, sendo derrotado na segunda por Mário Soares, que reuniu até o apoio do PCP.

        Na tradição portuguesa, um Presidente eleito para um primeiro mandato é reeleito cinco anos depois. Quem iremos escolher, sentar-se-á em Belém até dois mil e vinte seis. O país não pode ficar refém de alguém que almeja a Chefia de Estado por forma a vingar uma carreira política fracassada. O preço de uma má escolha será, certamente, cobrado, e apenas a nós poderemos imputar essa decisão errada.

26 comentários:

  1. Por aqui a luta incessante para afastarmos estes canalhas do PT do poder. Que 2016 chegue logo e seja promissor.

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    1. Sim, sim. Soubemos do pedido de impeachment da Presidente Dilma. Parece que foi recusado, algo assim. Confesso que ainda não procurei estar melhor informado.

      Em Portugal, não temos o impeachment. O Presidente pode ser destituído, sim, mas em circunstâncias excepcionais. Olhe, um bom tema a abordar por aqui. :)

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  2. Por mim não ganhava nenhum. Se Manuela Ferreira Leite tivesse concorrido não pensaria duas vezes. Que mal tem em ser católico fervoroso? E isso é mau? Eu acho que é muito bom até. Alguma moralidade para a investidura presidencial. Valores cristãos da solidariedade, humanismo e partilha. Veja o bom Presidente que foi Mário Soares e o outro, o Sampaio.
    Maria de Belém devia ter vergonha. É uma incompetente. Essa senhora fez o quê pelo país? Mal por mal prefiro o Nóvoa.
    Ainda tenho esperança que o Prof. Marcelo revele ser um bom Presidente. Tem o meu voto (o leque é o que é).

    Cumprimentos.

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    1. À direita, sabem que seria difícil que um candidato vingasse concorrendo contra MRS. Além de que é normal a direita portuguesa chegar a consensos. Daí o apoio do CDS, veemente até.

      É mau na política. O Estado português é laico, embora haja um favorecimento da Igreja Católica. Já tive, por mim falo, dez anos de uma Presidência religiosa e conservadora. Não quero repetir a experiência, sobretudo por uma década, que se adivinha. Qualquer um dos Presidentes conseguiu a reeleição. Só um desastre no primeiro mandato levaria os portugueses a negarem o segundo.

      Os valores que refere podem ser seguidos por qualquer um dos candidatos. A solidariedade, o humanismo, a partilha não são exclusivos do catolicismo. Jesus trouxe-nos a sua palavra, é certo, e é seguida por uma imensidão de religiões e de congregações, a par dos não-crentes. Esses valores não são exclusivamente religiosos.

      Bom, lá terá a sua opinião quanto a Maria de Belém. É a sua. Eu não seria tão extremista a esse ponto, até porque o Senhor Professor, a par das suas inegáveis qualidades enquanto jurista e professor de Direito, tão-pouco fez fosse o que fosse por Portugal.

      Espero que as esperanças não lhe morram na praia. :)

      Cumprimentos.

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  3. Faça a escolha mais prudente, porque por aqui as coisas estão um caos, por "má" escolho da população

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    1. Estou indeciso entre dois candidatos. Mas sei bem em quem não irei votar. :)

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  4. O Sampaio da Nóvoa está a criar simpatia em mim, apesar de 40% estar a pensar no pof MRS

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    1. Ainda te convences à esquerda. :p

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  5. Não irei votar no Marcelo, acho que o mediatismo dele é uma carta a favor mas eu gosto ser do contra por isso votarei em...e acho que cá em casa vão pelo mesmo caminho que eu.

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    1. Sabes, é curioso, mas o mediatismo dele sempre foi, para mim, uma carta contra. Gosto de pessoas discretas no dia-a-dia. O Prof. Marcelo é amoroso, um querido, mas a sua personalidade está desajustada das características que um Presidente deve ter.

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  6. Pois é, eu fiquei sabendo por você que o Presidente daí tem poderes. Agora soube que não tem o impeachment aí. Eu espero que tenha um jeito de vocês tirarem um Presidente corrupto do lugar. Aqui não deu em nada. O Supremo rejeitou o pedido de impeachment da Dilma. É assim que esse país não anda pra frente, o povo sai nas ruas, se manifesta, grita e parece que os poderes públicos não querem saber de nada. Não acredito mais em nada desse país.

    Abraços!

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    1. Temos mecanismos constitucionais que nos permitem destituir um Presidente, sim. Aliás, como disse ao Paulo, abordarei esse tema por aqui, assim tenha paciência e tempo. :)

      «O povo é quem mais ordena», como dizia Zeca Afonso. Ainda nos é permitido sair às ruas, reivindicar. Se temos esses direitos, devemos exercê-los. :)

      um abraço.

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  7. Eu vou votar no camarada Edgar. Se ele retirar a candidatura (o candidato do PCP às vezes retira a candidatura - a última vez que isso aconteceu foi em 1996 quando Jerónimo de Sousa desistiu a favor de Jorge Sampaio), votarei no Sampaio da Nóvoa. Se houver segunda volta, entre MRS e MAria de Belém, voto no Marcelo, porque não posso com aquela tiazona ressabiada...

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    1. Um militante do PCP a votar em Marcelo Rebelo de Sousa. Insólito (ou nem tanto...). x)

      Sabes, duvido que Maria de Belém vá a uma segunda volta. Pelo que leio e vejo, Sampaio da Nóvoa é bem mais consensual entre os socialistas. O importante é não permitir que MRS vença à primeira volta.

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    2. Se as hipóteses forem entre Marcelo Rebelo de Sousa e Maria de Belém, duvido que eu venha a ser uma carta fora do baralho. Sabes que ela é como o Assis, nem sei bem como não são do PSD ou CDS. Entre um e outro, sendo ambos péssimos, eu prefiro MRS, que pelo menos é um gajo simpático.

      MRS sabe que tem de vencer à primeira volta. Dificilmente conseguirá à segunda...

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    3. Maria de Belém parece um pouco antipática, é verdade. Presumo que seja o seu estilo pessoal. Há pessoas que são mais sisudas e que, no entanto, se revelam agradáveis quando as conhecemos. Enquanto PR, seria engraçado ver a transformação de Marcelo para aquele homem com sentido de Estado. A menos que continue assim como é: informal, divertido, sorridente. Verdade seja dita, não tem nada que ver. Prefiro um Presidente mais humano a um Chefe de Estado "máquina de calcular", como Cavaco.

      Tive certa preferência por Maria de Belém por ser uma senhora.

      Sim, à segunda corre o risco de lhe acontecer o mesmo que sucedeu ao Freitas do Amaral.

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  8. Depois de ponderar muito, há já um tempo, decidir-me-ei pelo Paulo Morais, um homem que brada sozinho contra a corrupção, ou Marcelo! Mas gostei muito da tua reflexão...

    Aproveito, Mark, pra te deixar, também aqui, os votos de um FELIZ NATAL!

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    1. Tão-pouco conhecia esse candidato. Vou procurar informar-me. Bom, sabia da existência de alguns candidatos de menor expressão eleitoral.

      Muito obrigado, Daniel. Um Feliz Natal para ti também. :)

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  9. Embora simpatize com Marcelo, por gostar de ouvir os seus comentários, não tenho muita vontade de votar nele. Creio que as pessoas votarão nele pela popularidade de tantos anos de televisão e pouco mais. Os candidatos à esquerda além de pouco conhecidos do grande público, estão a ser injustamente "condenados" pelos media, que lhes dão menos tempo de antena. Se Marcelo ganhar, não me acredito que fique mais do que um mandato. A política em Portugal vai dar muitas voltas nos próximos meses e anos. As coisas vão mudar bastante, creio :)

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    1. Exacto. O facto de ser um bom comentador não implica que seja um bom Presidente. É preciso, como se diz, «separar as águas».

      Segundo Marcelo, o neto pediu-lhe para que não ficasse mais do que um mandato. Não sei, a verificar-se seria um inédito na nossa democracia. :)

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  10. Acho bastante interessante e instrutivo ler teus comentários e assim conhecer um pouco mais de vosso país! :)

    Por aqui estamos em "pé de guerra", há um pedido de impeachment (que eu não concordo) e se amontoam as descobertas relacionadas a corrupção e desvios. O que me incomoda profundamente por aqui é a ideia de que apenas um partido, seja qual for, representa o mal encarnado na terra. Mas enfim, vamos ver... ;-)

    Espero que o ano traga o melhor a todos vocês! :)

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    1. Olá, amigo Latinha.

      Muito obrigado por gostar. Eu penso sempre que estes artigos políticos dizem bem pouco aos amigos brasileiros, mas sempre sou surpreendido com as vossas boas reacções. :)

      A corrupção começou cedo na história do Brasil (colonial). Na carta de Pêro Vaz de Caminha, na qual se dá conta do "achamento" do Brasil, há um pedido muito especial feito ao Rei D. Manuel, para que este intercedesse por um familiar seu. Resumindo: está-nos no sangue.

      Aqui tivemos algo semelhante no que diz respeito a culpabilizar apenas um partido. Aliás, é tónica comum entre os governantes responsabilizar os antecessores.

      Muito obrigado, amigo. Que 2016 nos traga melhores dias. Ainda temos o doce Natal pela frente. :)

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  11. Da minha parte não será eleito... embora tenha a perfeita consciência que o meu voto é apenas um voto.

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    1. Todo eu regozijo. :)

      Por um se ganha, por um se perde.

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Um pouco da vossa magia... :)