14 de novembro de 2015

Paris.


    Paris, 13 de Novembro de 2015. Um grupo de homens armados dispara indiscriminadamente sobre inocentes que seguem calmamente as suas vidas. Fazem reféns, gritam palavras de ordem, aludem à Síria e ao Iraque. Matam centenas; comovem milhões. A escolha da capital francesa não terá sido ao acaso. França é um dos pilares da civilização ocidental. Lá, embora fortemente influenciada pela Glorious Revolution, cem anos antes, terminou o Antigo Regime; lá, eliminaram-se as barreiras legais, sociais, culturais que se erguiam entre os homens; lá, defenderam-se princípios que se propagaram pelo mundo, que instituímos por intermédio das revoluções liberais que pautaram todo o século XIX. Pátria-Mãe da Liberdade, da Igualdade, da Fraternidade.

     Se os ataques ao complexo do World Trade Center, em Nova Iorque, feriram o coração dos E.U.A, os atentados do fatídico dia de ontem atingiram um vértice do ocidente. Abalaram um sistema de valores assente na dignidade da pessoa humana e em regimes democráticos, pluralistas. A instabilidade, o caos e os massacres deixaram de ser um distante eles, passando a ser um confinante nós. A França, ali tão perto...

     Não podemos aceitar que o medo vença. Não podemos cair no risco de criar uma sociedade big brother em que o Estado a todos vê e segue. Outros o tentaram, não há muito tempo, e não conseguiram. Se somos tolerantes, flexíveis, complacentes, assim devemos continuar. São esses os valores que propugnamos. Agir em conformidade não significa ceder ao terror, assimilando-o. Tão-pouco retroceder nas conquistas que obtivemos, regressando à barbárie, à espada na mão e ao crucifixo ao peito. Reconhecer e defender a matriz cristã, que faz parte da Europa, da América, prescinde de guerras santas.

      Vê-los como uma facção que não representa o comum islâmico. Porventura, teremos subestimado a sua capacidade em provocar a desordem. Aumentar a segurança sem nos tornarmos demasiadamente securitários. Unir esforços. Perceber que um país não se basta, que as fronteiras políticas, no que a nós diz respeito, não estão por Vilar Formoso ou por Elvas, mas para os confins da Europa de Leste. Evitar sucumbir ao ódio irracional, às reformas legais a quente, ao preconceito. Não esquecer o que se passou a poucos dias. Aprender lições.
        São estes os desafios que espero ver superados.

20 comentários:

  1. As pessoas andam tão insanas....
    O futuro da humanidade é preocupante....

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    1. Posições extremadas dão estes maus frutos.

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  2. Continuemos a recebê-los de braços abertos. Um dia serão os nossos carrascos. Está mais que visto que temos de defender os nossos interesses, defender os nossos Estados de Direito desses marginais. Angola não teve problemas em ilegalizar o Islão, em reconhecê-lo como uma seita. Convido-o a visitar este link: http://www.angonoticias.com/Artigos/item/40695/angola-vira-o-primeiro-pais-do-mundo-a-proibir-o-isla

    «Vê-los como uma facção que não representa o comum islâmico». Acredita mesmo que muitos dos muçulmanos não apoiam as investidas desta gentalha? Quantos e quantos não nos queriam ver submetidos aos seus costumes bárbaros! Não se iluda, meu caro rapaz. É uma guerra santa, sim. Agora como no passado. Dispensamos a espada, mas temos outros meios. Essa gente só conhece uma lei: da força.

    Cumprimentos.

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    1. O seu discurso é próprio dos extremistas. Defender os "nossos interesses", como diz, não implica desrespeitar outras religiões, até porque o nosso ordenamento jurídico consagra a liberdade religiosa. O Estado Islâmico é uma seita marginal, correcto. Concordo consigo. O Islão, porém, não. Há islâmicos que não se revêem nestas posturas criminosas. Naturalmente, haverá os que se revêem. Há bom e mau em todo o lugar, em todas as nacionalidades, em todas as religiões.

      Não vou discutir consigo o que se passa em Angola. Vindo desse país, com esse regime, nada me espanta. Só tenho a lamentar pelo povo angolano, pelo que tem sofrido e pelo que ainda tem a sofrer. E ainda lamento por si, por pensar assim. :)

      Cumprimentos.

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  3. Excelente texto :) e de facto vamos ver o que acontece no futuro :)

    Um Futuro que nos deveria preocupar a todos, mas que deveríamos exigir aos mesmos Líderes do Islão as mesmas responsabilidades que são exigidas ao Papa :)

    Grande abraço amigo

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    1. Talvez o problema resida em não haver UM líder do Islão, mas líderes. E há cristãos, como eu, que não se identificam com o líder da Igreja Católica. Aliás, dispenso líderes, sejam eles quais forem, na minha relação pessoal com Deus.

      um abraço afectuoso, amigo Francisco. :)

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  4. Realmente um momento preocupante e sem perspectivas imediatas de solução.
    Não vejo isto como sendo um problema do Islão em si, mas uma manipulação do mesmo por seres absolutamente irracionais. Tal e qual com manipulações cristãs ao longo da história.
    O certo é que alguma coisa deverá ser feita se quisermos preservarmos os valores conquistados a duras penas.

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    1. É verdade, Paulo. Marx dizia que «A religião é o ópio do povo». Sem perfilhar, contudo, a sua ideologia, não posso deixar de concordar. Erros foram cometidos transversalmente por cristãos e por muçulmanos. A tolerância não é própria dos homens. Daí que careçamos de leis que limitem as nossas arbitrariedades.

      Creio que se os países ocidentais se unirem contra esta ameaça, juntos conseguirão. Acredito que o comum islâmico esteja cansado de ser comparado a uns jihadistas facínoras quaisquer.

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  5. Vejo como solução, apenas uma das soluções, um pais Muçulmáno, um líder Árabe que finalmente seja claro no respeito que todos os povos e a todos os países, que respeito direitos humanos e que comece, no interior do mundo árabe, uma revolução de mentalidades.

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    1. É complicado, Goody. Os países do Magrebe, por exemplo, são diferentes dos do Médio Oriente, muito embora todos falem árabe. Aliás, os dialectos não são mutuamente inteligíveis.

      São sociedades profundamente religiosas. O Corão é Direito por lá. Aplicam-no. Em Estados onde a religião e o direito se confundem, não esperes justiça, equidade, liberdade, tolerância.

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  6. Como podes imaginar também eu fiquei muito, mas mesmo muito triste com o que aconteceu, não sei bem que futuro será este o nosso, em que o Estado Islâmico tem força e meios para fazer mais do que já fez. Estaremos preparados? Não, nunca estaremos e engane-se quem julga que está.

    A guerra é uma solução? Mas há uma solução perfeita?! Que dias estes...

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    1. Já estamos em guerra. E com tristeza o digo. Raro é o mês em que não se lê ou não se ouve sobre um atentado aqui e ali.

      Nunca estaremos preparados porque não vivemos em Estados totalitários. O Estado não nos espia, não segue as pisadas de cada um - e ainda bem. Prova é que até as fronteiras estão abertas entre os Estados-membros signatários do Acordo de Schengen.

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  7. PEnso que também não foi ao acaso que se escolheu uma sexta-feira 13 (dia de azar). E por ser em França que começou a história da sexta-feira 13...

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    1. Quem sabe... Se foi coincidência, que triste coincidência. Vem alimentar o mito.

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  8. Se formos atrás na história, percebemos que tudo não passa de uma reivindicação a uma promessa antiga do ocidente aos árabes. A questão é tão complexa e antiga, com tantos episódios de interesses estratégicos, e já com tantos séculos, que se perdeu no tempo. Esta é uma boa oportunidade para a recuperar à consciência coletiva dos povos. Mas soa-me que andaremos ocupados com a hipocrisia burguesa do costume.

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    1. Pactos, promessas, alianças estratégicas, sempre houve. A verdade é que o Estado Islâmico inclui a península nos seus planos expansionistas, remontando à Al-Andaluz. Muito antes das promessas respeitantes aos otomanos. Creio que a isso te referes. A reivindicação jaz aí: vêem-nos como parte do Califado.

      São conflitos antigos, sim; religiosos, políticos, económicos. Se formos à história dos reinos cristãos peninsulares, dos quais Portugal faz parte, veremos que andámos às avessas com os muçulmanos. D. Sebastião, já no século XVI, quis expandir a fé cristã no norte de África. Quantos e quantos monarcas não apoiaram investidas cristãs frente aos islâmicos, sobretudo desde e com a conquista de Constantinopla. Diferendos tão antigos...

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  9. Eu concordo contigo. No entanto, também sou da opinião que nós andamos a colher os frutos que semeamos. "Nós", isto é, os líderes dos países ocidentais que em meados dos anos 90 começaram com a mania das invasões e afins. É claro que nos choca e entristece - e aqui falo de nós, pessoas comuns - vermos pessoas inocentes a morrer "aqui tão perto". No entanto, por esse mundo fora, quantos inocentes não perecem todos os dias, em atentados, em guerras "santas" e outras coisas do género?

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    1. O Iraque invadiu o Kuwait logo no início dos anos 90. Naturalmente, a comunidade internacional teve de intervir. Depreendo que te refiras à primeira Guerra do Golfo. Mas sim, concordo. Armámos, digo, enquanto ocidentais (os E.U.A), os talibãs contra a União Soviética. Depois, o feitiço virou-se contra o feiticeiro. A política intervencionista e belicista dos estadunidenses em nada tem ajudado, muito embora a contenda remonte a séculos atrás...

      Sim, há atentados por esse mundo e não se vêem ondas de comoção global. Provavelmente porque visaram um dos vértices, como referi, do ocidente.

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  10. E principalmente porque estes terroristas (dos ataques a Paris) eram nacionais.

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    1. Sim. Isso deixou os franceses ainda mais revoltados (e preocupados)...

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Um pouco da vossa magia... :)