24 de setembro de 2015

Outono.


    O ano caminha rapidamente para o seu último trimestre. Os últimos vestígios de um Verão que não encantou, pouco agradou, dão lugar à apatia no regresso ao trabalho, às aulas. À rotina, claramente. Em criança, e já crescidinho, nos tempos de estudante, o regresso era um problema, um caso sério. Após meses de ócio, caríssima inércia, a tarefa fatigante e dispendiosa de comprar o material, entre amuos e repreendas, muita vontade de contornar as obrigações decorrentes de se ser pequeno. Nessas idades, pouca margem há para escapar aos comandos maternos.

      A vida era bem mais fácil. Sempre o é quando temos quem nos encaminhe. Acima de cuidar, mimar, o propósito de passarmos tantos anos sob a protecção dos pais é o de adquirirmos as ferramentas que nos possibilitarão a capacidade de zelarmos pelo nosso bem-estar. Somos animais, e no mais das vezes o esquecemos. Os anos no leito materno são proporcionais às necessidades que temos, somente. O desígnio é sair, ser autónomo.

       Na senda de Orson Welles, de Voltaire, séculos antes, nascemos e morremos sós. Ainda que vivamos em sociedade, somos o nosso único garante, e no individualismo que tem pautado, sobretudo, a última metade do século XX para cá, podemos esperar dos que nos rodeiam tão-só palavras de circunstância, demonstrações de afecto mais ou menos preocupadas, que ninguém se interessa ou prescinde da sua comodidade, das suas certezas, para atender a quem se encontra debilitado física ou psicologicamente. Salvo raras excepções de abnegação.

      Estarei, estaremos, na lógica desse egoísmo crónico, doentio, até sermos confrontados com aquela solidão angustiante, os silêncios que magoam o ouvido, que o único ruído provém do tiquetaquear do relógio. Os sorrisos dos miúdos que brincam às escondidas no jardim de infância, debaixo da nossa janela entreaberta, de cortinas semicerradas, com os feixes de luz solar a incidirem sobre a cómoda gasta, adornada de velhos retratos.

        O arresto da esperança, que há muito se rendeu, não é a última a morrer. Os que morrem por último somos nós, prostrados diante da pequenez que nos caracteriza. 
           Não será o Outono um ocaso do Verão?

16 comentários:

  1. lado intimista... :)
    eu gosto muito do outono, acho que é a minha estação preferida. por tudo e mais alguma coisa. os dias começam a encolher devagarinho, a noite a prolongar-se, as árvores a ficar caducas e as cores douradas a surgir em todo o lado. há a apanha da fruta, as vindimas, a terra a ser tratada, mexida, para receber nova vida lá mais para a frente.
    claro que essa parte da escola não é fácil, mas, num futuro não muito longe, deixarás essa vida para trás. começarás a trabalhar e, quem sabe, não o farás num outono?
    a minha vida neste mundo começou no outono de 73 ;)
    bjs.

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    1. É uma estação bonita, sim. Não a percamos! Gosto sobremaneira do encurtar dos dias, daquele 'escurinho' da tarde (que ainda não é noite nos ponteiros do relógio). E adoro o frio, os casacos, a roupa quente. Luvas!...

      Já esteve mais longe, já...

      Pois começou. Está quase. :)

      um beijinho.

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  2. Uma das mais belas, sábias reflexões que li nos últimos tempos. De há muito tenho esta percepção, fruto da idade é claro. Isto é o retrato da realidade do SER. Talvez, hoje, tenhamos umas clareza maior disto mas, isto sempre existiu e sempre foi assim.

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    1. Obrigado, caro Paulo. :)

      Permita-me, no entanto, este acrescento: em Portugal, durante décadas, havia solidariedade entre as pessoas, mais no interior, mas também nas cidades. Boa vizinhança, empatia, entreajuda. Hoje, nada disso resta. A solidão nos grandes centros urbanos, principalmente, afecta milhares de jovens e menos jovens.
      Claro que a nossa natureza é e foi esta. Fruto talvez de uma compaixão cristã, não éramos tão... individualistas.

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  3. Um retrato muito cru da nossa sociedade. Engoli seco e quase me observei assim caído. Porque é o que cultivamos diariamente com a nossa indiferença.

    Abraços!

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    1. Durante algum tempo, vi-me só, sendo mais velho; entretanto, não sei. Sou ainda muito jovem para conseguir desvendar o que quer que seja. Preciso do meu espaço, sabe. Isso leva-me a duvidar de uma capacidade qualquer em conseguir dividir, ceder, transigir. Viver a dois implica um esforço adicional. Enquanto conseguirmos ser auto-suficientes, o medo da dependência é menor.

      abraço.

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  4. O Outono é das estações do ano que mais gosto, talvez seja mesmo a preferida, não sei se a culpa é a nudez das árvores (que tanto gosto) ou de sentir que o verão deixou-nos sem qualquer suspeita que poderá voltar.

    "Não será o Outono um ocaso do Verão?" Excelente frase, e para alguns essa frase poderia representar a esperança de que o frio poderá nem vir e o calor manter-se até que alguém o apague.

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    1. Lido melhor com o frio do que com o calor, e a época natalícia decorre no Outono, convenhamos, excepto nos últimos dias. :)

      Eu quis fazer uma metáfora com o Outono sendo o ocaso da vida e a juventude, nesse sentido, como o Verão.

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  5. Gosto do Outono, porque posso usar cachecol, comer castanhas assadas ;)

    Abraço amigo

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    1. Gosto do cachecol; dispenso as castanhas. :)

      abraço, amigo.

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  6. Reflexão muito bacana e bonita! Vocês entrando no Outono e nós a pleno vapor em uma primavera com ares de alto verão, não sei o que será por essas bandas.

    De qualquer forma, sempre acabamos por esbarrar na solidão!

    Abração.

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    1. Eu li que este início de Verão corre particularmente "intenso" em algumas cidades do Brasil. Londrina, por exemplo (que tenho uma amiga de lá), tem passado por temperaturas altas.

      Obrigado, meu amigo.

      grande abraço!

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  7. r. Obrigado Mark.

    Texto muito bom. Não podias ter mais razão.

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  8. Qual verão, Mark'zinho? Eu não dei por nada lol Tivemos uma primavera prolongada ou um outono fora de época, isso sim!

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Um pouco da vossa magia... :)