11 de agosto de 2015

A cobiça pela Al-Andalus.


     O autoproclamado Estado Islâmico, sem qualquer reconhecimento internacional, nunca me mereceu a menor atenção. Mais um grupo jihadista, fundamentalista, pronto para propagar e fazer impor pela força as suas convicções, na lógica da linha a que organizações terroristas como a Al-Qaeda nos vêm habituando. O que, todavia, distinguirá este grupo é a sua bem sucedida campanha militar, aproveitando conflitos armados e cenários de instabilidade política para ir conquistando, cidade em cidade, reduto em reduto, parcelas de território pelo Iraque e pela Síria.

      A intolerância religiosa, que é tónica em organizações desta índole, sobressai no designado Estado Islâmico. Minorias católicas são perseguidas, convertendo-se forçadamente ao Islão, sob pena de morte. Também minorias dentro da grande família islâmica, como os xiitas, são alvo fácil da repressão e do extermínio. E se a igualdade entre o homem e a mulher não passa de uma miragem na generalidade dos países de maioria muçulmana, não laicos, nas áreas controladas pelo Estado Islâmico as mulheres estão subordinadas às estritas e rigorosas leis da Sharia, agravadas, recrudescidas, sujeitas a todo o tipo de humilhações e sevícias, inclusive sexuais, vítimas de estupros e de sequestros.

    Tão-pouco o património cultural do Iraque escapa à fúria jihadista. Monumentos são destruídos impiedosamente, em tentativas de fazer sucumbir as idiossincrasias de um povo.

      A comunidade internacional apaticamente vem reagindo, com declarações superficiais, carecendo de efectivos esforços na luta contra tamanha barbárie.

      Como todos os grupos que defendem a conquista de um espaço vital, agora como no passado, também o Estado Islâmico faz referência, frequentemente, ao que designa como o seu califado. Amplos territórios que englobam todo o Médio Oriente, Magrebe e ainda um bom pedaço da África ocidental, central e oriental; a Ásia Menor e boa parte da Europa de Leste, bem como Estados a sul da Rússia, outrora pertencentes à União Soviética; e... a Península Ibérica, ou a Al-Andalus, como a denominam, na senda dos seus antepassados.

       Não somos povos estranhos aos muçulmanos. Pelo contrário, surgimos, portugueses e demais povos da Hispania (hoje espanhóis), nas guerras pela reconquista peninsular, desde a conquista islâmica iniciada em 711 e só travada por Carlos Martel em 732, na Batalha de Poitiers. Durante séculos, debatemo-nos na reconquista cristã, logrando nos nossos intentos e fazendo o território da Al-Andalus diminuir, progressivamente, à medida em que os muçulmanos iam perdendo o Algarve (conquistado por D. Afonso III em 1249), Córdova, Sevilha e, por fim, Granada, em 1492, o que veio permitir apenas uma reunificação tardia das Españas, porém sem Portugal. Desde então, a reocupação da península paira como um desejo ardente em algumas facções islâmicas extremistas, incorporadas pelo actual Estado Islâmico, que adoptou esse objectivo nas suas intenções.

       Incauto será aquele que procurar subestimar a capacidade do Estado Islâmico em conseguir provocar o pânico e até, levando vantagem, poder perturbar os nossos Estados democraticamente constituídos, assentes em sociedades plurais e livres. As alianças que firmámos poderão não ser suficientes para suster a ameaça. Não temos um longo oceano que nos proteja, como os E.U.A, e nem os Pirenéus a servir de barreira. Agora como dantes, o estreito de Gibraltar não é entrave.

        Desdenhar do adversário tem provocado sérias derrotas ao longo dos tempos. Precaução, alianças, visando um entendimento e consensos estratégicos, particularmente entre Portugal e Espanha, os alvos, mas também alargados, com a Europa - que é parte interessada (não podendo esquecer que a cobiça estende-se à Europa de leste), são indispensáveis para podermos falar de algum grau de segurança e de tranquilidade que perdure.

18 comentários:

  1. Respostas
    1. Pelo menos, eles (o Estado Islâmico) ainda não consideram o Brasil como parte integrante do seu, hum, "projecto". :)

      Eliminar
    2. Nem precisa chegar aqui diretamente mas este projeto se não estancado pela raiz ainda trará consequências gravíssimas para todo o mundo ...

      Eliminar
    3. Sem dúvida, amigo. E certamente sentiriam um forte apelo em prosseguir na conquista pelo mundo, caso fossem bem sucedidos numa investida em solo europeu. É caso para dizer que nenhuma sociedade à face da Terra estaria em segurança.

      Eliminar
  2. Vamos ver como correm os próximos tempos, Os Mulçumanos estão a encher a Europa com emigrantes. Nós com pena, damos-lhes abrigo. Amanhã, enterram-nos vivos. Wait to see it

    Grande Abraço amigo

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sim, e muitos pretendem transformá-la, à Europa, impondo-lhe as suas regras, as próprias dos seus países. É isso que condeno. Em Roma, sê romano. E não posso com as investidas destes terroristas na Europa.

      abraço grande.

      Eliminar
  3. Também temos que contextualizar a ameaça e perceber até que ponto é real.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sabes, o mote para escrever este texto foi o recente mapa difundido pelo EI, no qual aparece bem explícita a península ibérica.

      Não direi que nos conquistem, mas não ponho em causa um atentado ou algo do género que provocasse o caos por cá. Eles querem-nos. É dado adquirido.

      Eliminar
    2. E que quero uma casa na praia e não é por isso que a tenho lol

      Eliminar
    3. Lol, só tu. :)

      Sim, mas o facto de nos desejarem torna-nos um alvo. Eu levo a sério as ameaças desta gente, até porque já deram provas ao mundo, mais do que suficientes, do que são capazes.

      Eliminar
  4. Nem acho que o AEI tenha grandes conviccoes. Acho que são simplesmente mercenários.
    O problema dos mercenários é que na são um grupo concentrado e facil de combater.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Há várias facções no Islão, se bem que estes parecem organizados o suficiente. Segundo sei, são dissidentes da Al-Qaeda, do seu núcleo duro - ultraextremista.

      Eliminar
  5. Mark sempre ouvi dizer que o futuro a Deus pertence, não sei se será o nosso Deus ou o deles que irá decidir...no teu texto focas vários temas, desde a igualdade entre os homens e as mulheres à destruição da monumentos, e por vezes penso até que ponto nós somos vistos por eles como os "estranhos" com vidas que não cabe na cabeça de ninguém.

    Nem sei se é um tema cultural, mas uma coisa é certa, a ameaça está por perto. E sim estamos num ponto estratégico. Lembro-me quando começou a guerra no Iraque, eu na minha ilha, porque era (já não é tanto) um ponto estratégico para os militares norte-americanos vi claramente o grande fluxo de aviões, para irem para a guerra. Isto para te dizer, Portugal como sabes é uma porta de entrada ou saída, bem estratégico!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Partilhamos o mesmo Deus. :) O Islão e o Cristianismo acreditam na mesmíssima entidade. Assim como, em português, conhecemo-Lo por "Deus", os ingleses conhecem-No por "God", os espanhóis por "Dios", e os muçulmanos por "Allah". Juntos, com o Judaísmo, perfazem as três grandes religiões monoteístas.

      Tens razão, mas aí cabe a tolerância. Aprendemos - porque não éramos assim - a respeitar os demais credos. O Estado aceitou sujeitar-se a uma Lei Fundamental que a isso o obriga. É isso que nos distingue da maioria daqueles povos: o valor da liberdade que conquistámos no Ocidente.

      A RA dos Açores é um ponto ultra estratégico no Atlântico norte. Sempre o foi. Desde estadunidenses a ingleses, por variadíssimas vezes serviu os seus interesses. Perdeu um pouco de importância com o final da Guerra Fria, renascendo com a ameaça da Al-Qaeda desde finais de '90.

      Eliminar
  6. Acho que religião tem pouco e proponho que globalmente deixemos de lhe chamar "Estado" - tem mais contornos de grupo terrorista e menos de grupo civilizado de pessoas.
    E como grupo terrorista vive do terror que inspira nas pessoas. E o medo, sabemos, é a mais contagiosa das doenças...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá, R.. Bem-vindo.

      Sim, eles denominam-se como um "Estado", mas evidentemente que não o são. Dominam uma parcela significativa de território que pertence, essa sim, a Estados soberanos, a par de que são globalmente incluídos em listas de organizações terroristas. Refiro-os como se dão a conhecer, e em itálico.

      O pior de tudo é que provocam atentados e têm sido bem sucedidos.

      Eliminar
  7. Preocupa-me tudo o que fazem lá no Oriente. Preocupa-me a forma como difundem a palavra no Ocidente. preocupa-me a forma como jovens ocidentais decidem "imigrar" para estes grupos. E acima disso tudo, preocupa-me que a Europa não mexa para colocar um travão nas coisas todas que têm vindo a acontecer. Isto com muros e afins não vai lá. E eles quando atacarem, vão atacar em grande. E provavelmente, quando menos o esperarmos...

    Abraço :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É um fenómeno que se vai tornando cada vez mais recorrente: jovens ocidentais alimentarem as fileiras daqueles grupos terroristas. É preocupante. E a intolerância religiosa tem aumentado bastante, tanto em ocidentais quanto em orientais. Já dizia Marx: "A religião é o ópio do povo", e muita razão tinha. Incrível como uma mera frase mantém toda a frescura séculos volvidos.

      um abraço, amigo.

      Eliminar

Um pouco da vossa magia... :)