4 de junho de 2015

Programa Eleitoral.


   Aproximando-se a passos largos a data das eleições legislativas, ainda a definir pelo Presidente da República, sabendo nós, contudo, o intervalo temporal em que terão obrigatoriamente lugar, começam as movimentações partidárias apressando-se em fazer germinar no povo a tendência para votar neste ou naquele partido.

       Quando ouço Pedro Passos Coelho a apresentar as linhas orientadoras do seu programa coligado, pasmo-me com a dissimulação que grassa pelo espectro político português. Não condeno as pessoas, tampouco a escolha pelo abstencionismo, que parece ser a única solução viável perante um rol de promessas que, acto eleitoral em acto eleitoral, são feitas, já com poucas preocupações em ser credível. O sorriso cínico de Passos Coelho não me faz duvidar: ele sabe que mente e sabe que o povo o sabe. Inevitavelmente terão de votar em alguém e os seus esforços vão no sentido de procurar ser mais convincente do que o adversário principal.

      O voto de confiança que pede é um atentado à inteligência de cada um, um vil atentado. Como confiar em alguém que, no dia seguinte, esquecer-se-á, ou fará por isso, do que dissera meses antes? É tudo menos esperança, segurança ou estabilidade o que promete. Austeridade, sim, é a verdade que esconde sob palavras aliciantes, para controlar um deficit crónico e ocultar a sua obstinação em cortar nas despesas a quanto obrigas, nem que para isso provoque uma diminuição do poder de compra das famílias, conduzindo milhares a uma vida indigna à condição humana.

       Insensato será aquele que esperar a bonança vinda desta coligação. A orientação doutrinária de Passos e do seu vice é bem clara: um estilo de vida comezinho, com um controlo dos gastos públicos apertado, desumano. O fim do período de resgate é um pretexto para poder pregar palavras de ventura, de novos tempos, de um crescimento que tarda e não chega, um discurso de anos a fio que não cola e nem seduz.

      A economia limpa a que o Primeiro-Ministro se refere não é azul ou verde. É negra, suja como o carvão, assente na mais pura desonestidade intelectual. Assim Passos Coelho me prove que estou errado.
        Travar o decréscimo da população é outra das preocupações de Passos, quando ele, pelas suas decisões, impulsionou a emigração, convidando, subtilmente, os jovens a procurarem vida fora do país. Volta, agora, atrás. Que mudança tão oportuna.

       De seguida, as típicas linhas que ficam sempre bem num programa: reduzir o abandono escolar, o preço dos medicamentos, descentralizar, estimular as exportações, aumentar o salário mínimo, as reformas, alargar as isenções, etc. - as tentativas do PSD e do CDS-PP tendo em vista aparentar preocupações sociais. Verdadeiros parágrafos para compor, copiados de outros anos com mais ou menos mudanças; uma vírgula aqui, um período ali, tópicos que nunca ficam mal. E eu dei-me ao trabalho de o ler. Constate-se!: há todo um ponto dedicado ao Estado Social.
        Não esqueceram a «corrupção e o compadrio», mencionando-os assim, como transcrevi, com péssimos exemplos no seio do próprio partido.

         Adiando para dois mil e dezanove a meta de atingir um saldo orçamental positivo, a coligação impele os portugueses para que votem em si, inserindo todas estas medidas num quadro de objectivos sincronizados. Uma ideia cautelosa, ardilosamente arquitectada.

           O programa, todo ele, peca por uma imensidão de lugares-comuns, não especialmente bem escritos. Um discurso escorreito, mas lexicalmente pobre. Não tendo formação em publicidade, diria que, aí sim, foi bem concebido. No final da leitura, quase - quase - que acreditamos no que ali está. Para ser lido, sobretudo, pela classe média, o grosso dos eleitores, se é que ainda sobra alguma.

        Palavras que não chegam a encantar e bem menos convencem. Assim pudessem ser responsabilizados perante o eleitorado. E cá estaremos, daqui a uns anos (ou não), analisando a verdade do que por ali consta. A memória individual não é tão curta quanto a colectiva.

25 comentários:

  1. Tenho dúvidas que a coligação ganhe mas se ganhar também não me admiro, as pessoas têm memória curta.

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    1. Mais por demérito do PS, não me parece assim tão ilógico que ganhe.

      Como previ, este PS com Costa também não alegra.

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    2. se a coligação ganhar, Portugal terá o que merece, infelizmente. preferia ver o ps coligado a outros mais pequenos do que estar lá por maioria. vamos a ver. não me convence. promessas há muitas, mas isso é o que se passa em todos os partidos. irei votar, sim, mas no menos mau...
      bjs.

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    3. Os partidos da esquerda não se entendem. O PS sempre preferiu acordos à direita. E o PCP e o Bloco são tradicionais partidos de oposição, com linhas doutrinárias que não são exequíveis. Isso enfraquece a esquerda.

      Não sei se este PS consegue ter a maioria necessária para poder governar sem qualquer consenso.

      Sinceramente nem sei em quem votar. :)

      beijinho.

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  2. Não me parece que vá votar este ano. Ninguém merece o meu voto e como não acredito no voto em branco. Não irei :(

    Grande abraço amigo

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    1. Tens sempre o voto nulo, Francisco. Nunca votei nulo ou em branco, mas em branco não votaria. Acho perigoso. Já ouvi histórias suspeitas de mesas de voto...

      um grande abraço. :)

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    2. Mark, confirmo essas histórias escabrosas de votos em branco. E depois eu é que levo o rótulo de "comuna ressabiado", mas não sou eu que ando a tentar meter cruzes em votos em branco...

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    3. A fiscalização deveria ser apertadíssima nos actos eleitorais. Parece inacreditável que ainda se passe disso num país com eleições plurais há quarenta anos.

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  3. Programas políticos são terríveis, não!? Pelo jeito não só aqui... não sei por ai, mas do lado de cá, tenho notado que as velhas lições da "velha" política já não brilham como outrora, nada que reflita em mudanças bruscas ou grandes revoluções, mas observo que os contos que antes funcionam bem, já não tem mais o mesmo efeito.

    Espero que em breve possamos oxigenar essa política e banir essas velhas raposas!

    Grande abraço.

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    1. Por aqui é exactamente igual, amigo Latinha. Os programas eleitorais estão cheios de frases feitas, procurando o voto com propostas que vão ao encontro das necessidades primárias dos cidadãos. Depois, evidentemente, nada é cumprido. E o povo sabe-o! O que me perturba é esta hipocrisia social: eles mentem, nós sabemos, e continuamos a votar. E não são diferentes, não, como se diz por aí. O poder corrompe o Homem. A classe política é asquerosa, toda ela. Acredito que um por outro escape, mas a esmagadora maioria é assim como te digo. Chamem-lhe demagogia.

      um abraço grande!

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  4. Sempre votei e sempre que posso fujo das noticias mas por vezes apanho as reportagens em que esses políticos prometem uma serie de coisas. Depois é a dança do PSD a criticar o PS e depois vira-se o disco e o que temos é mais do mesmo, apenas com um remix ligeiramente alterado.

    Um tacho todos querem, mas fazer a bela de uma sopa, ninguém quer.

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    1. Eles fazem a sopa. Comem dela, não a dando a mais ninguém.

      O mundo democrático precisa de uma revolução. O sistema partidário está esgotado nestes moldes, a ponto de nem eles se esforçarem muito por dissimular. Sabem, lá no fundo, que ninguém acredita.
      Eu defendo profundamente a responsabilização de quem vence as eleições e incumpre com tudo o que veio prometendo. E entrar num partido político tem de deixar de ser uma porta para a concretização pessoal, que é o que é desde há muito a esta parte. Pela história, ia-se para padre para ter acesso à educação; agora, para se ser rico, vai-se para político.

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  5. Eu (a poder votar, visto que estarei a trabalhar) votaria nos Verdes. Tenho 34 anos e só votei uma vez na vida, e em branco. Não me identifico com a política partidária. É um sistema pérfido, clientelista, mafioso, nas minhas palavras: o grande sabotador do desenvolvimento português. Não creio que os nossos pais tenham lutado por uma democracia em que a única solução de voto seja votar em branco ou o voto nulo por falta de boas alternativas. Por isso votaria nos Verdes, não querendo que governassem o país, mas retirando (por número de deputados) poder aos grandes, o possível - porque, honestamente, já nem consigo ouvir os nomes PS ou PSD. E os restantes não são viáveis nem representativos. A geração que, como eu, tem este mesmo sentimento, seria a única capaz de mudar o paradigma, com plataformas menos políticas e mais civis. Mas a última vez que a vi foi naquela manifestação histórica de jovens sem futuro. Depois foram todos embora, ganhar a vida lá fora.

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    1. Sensatas palavras, Alex. Concordo com tudo. Já pensei nisso: votar nos menos representativos para retirar poder aos tradicionais. Cheguei a defender por aqui o voto útil. Que tonto fui. Que se entendam com uma Assembleia cheia de cores. Pelos menos assim teriam de se entender. Claro que fariam alianças estratégicas. Também corremos o risco da ingovernabilidade. Mas já não estaremos nessa fase? O que seria melhor?

      As plataformas civis são uma opção, temendo, contudo, que se tornassem em partidos informais. Como disse acima, desejamos o poder.

      Precisamos de pessoas honestas, credíveis, empenhadas em trabalhar em prol da nação.

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  6. Mark, ao contrário de muitos que aqui comentaram e não sei se de ti próprio, sei muito bem em quem vou votar. Tenho excelentes exemplos que comprovam o que é a boa gestão da coisa pública, a nível autárquico. Transpor isso para o país, seria muito difícil, sem dúvida, mas possivelmente seria um sofrimento bem menos inglório que este que temos tido. Contudo, não sou utópico. Sei que a CDU não irá vencer as próximas legislativas. Acredito (e tudo farei, dentro do que está ao meu alcance) para que saia reforçada.

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    1. Eu simpatizo com a CDU e com as suas figuras. É um partido simpático. Não afasto, de todo, dar-lhe o meu voto. Retirar a força "aos grandes", como diz o Alex, é uma nova tendência (ou não tão nova assim).

      Não sou de extremos, mas estou profundamente desiludido com o meu campo político, tão vazio de ideias para o país, tão apático.

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    2. Mark, a CDU não é um partido. É uma "menage a trois" (ouvi esta expressão a um camarada, e passei a adotar xD): o PCP (a que muitos tentam reduzir a CDU), os Verdes e a Intervenção Democrática.
      Creio que a CDU anda a ganhar muitos votos de "desiludidos" com o os seus "campos políticos". Mas desiludidos esclarecidos. Porque os pouco esclarecidos vão votar no "teu" Marinho Pinto...

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    3. Horatius, não sei se ria, se chore. Estou a adorar estares a dizer-me que a CDU não é um partido. Eu sei perfeitamente que a CDU concorre como coligação, mas nas eleições, hás-de perdoar, propõe-se como partido desde a década de noventa, parece-me. É, na prática, um partido. Aliás, exceptuando-se a Intervenção Democrática, menos conhecida, todos sabem que a CDU agrega o PEV e o PCP. Fui pouco rigoroso, se tanto.
      Como diria José Sócrates, o PEV é "verde por fora, vermelho por dentro". :)

      "Meu" Marinho Pinto? Nunca gostei do senhor ou sequer o apoiei fosse no que fosse.

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    4. Onde consta é um "partido simpático", deveria constar "é uma coligação simpática". Mea culpa. Valha-nos o teu preciosismo. Lol

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    5. Há quem chame ao PEV Melancia por causa disso xD
      E em rigor, é uma coligação, que tem sempre que se criar para cada ato eleitoral. E são três entidades que apenas se juntam para atos eleitorais. Fora disso, cada um tem a sua própria atividade. Por isso, não será um "partido". Sendo entidades com ideais diferentes, se formassem um partido único, possivelmente esse mesmo partido seria um "forrobodó" como é o Bloco de Esquerda...

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    6. Pois, claro, nos seus estatutos não será um partido. É uma coligação constituída há imenso tempo e, em boa verdade, o PEV e o PCP em nada divergem. No parlamento, "dá lugar" ao PEV e ao PCP. Fui pouco rigoroso.

      Não é um partido oficialmente, mas quase. Sabes disso. :)

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  7. Mark não irei votar na coligação obviamente. O Sr. dos Passos além de mentir descaradamente, já nem se dá ao trabalho de disfarçar muito, porque como ganhou as últimas eleições a prometer uma coisa e a fazer outra, viver agora sobre a ideia que o PS é igual a bancarrota e que o Sócrates está preso (se calhar ele também deveria de estar, digo eu). Mas como gay, ou melhor, como gay votante, tenho que avaliar também, além de tudo o que escreveste, aquilo que os partidos promoveram na melhoria da igualdade e da fraternidade entre todos - coisa que nem o PSD nem o CDS fizeram. Eu como gay não esqueço a adopção e a co-adopção quando for votar.

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    1. Pois é, também não conseguiria votar na coligação PPD/PSD - CDS/PP por todos os motivos e mais alguns. E porque, intrinsecamente, é-me impossível votar em partidos que, assim pudessem, tratar-me-iam como cidadão sei lá de que categoria. E tenho muita e boa gente de direita na família.

      Contudo, este PS não me agrada, não me convence, não me parece credível. Em aspectos estritamente económicos, não acredito que a sua orientação divergisse "por aí além" da coligação. Há muito que o PS oscila entre a esquerda e a direita, conforme lhe dá mais jeito. Quando o PSD está muito "à direita", o PS cola-se mais "à esquerda". Achando-se no poder, em pouco se diferencia do principal rival. Jogos de interesses que me repugnam. Posto isto, é provável que vote nulo ou então que o faça num pequeno partido. Ou na CDU. Não descarto.

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Um pouco da vossa magia... :)