9 de março de 2015

Prelúdio.


   De sempre que sinto uma tendência para rebuscar o passado, trazendo-o ao presente. Como venho dizendo ao longo dos anos, sei - porque o sinto - que o que de melhor vivi está lá atrás, em memórias e retratos, espalhando pela cama uma infância de sorrisos.

   Na busca incessante por reviver, percebi que tenho poucas memórias do avô paterno, recentemente falecido. Estamos em apenas três fotos, e em todas acompanhando outras pessoas. Uma, que achei a mais bonita, deixei de fora, procurando agora um bonito porta-retratos para a colocar por aqui, no quarto. Valha-nos a hipocrisia humana, que nos leva a sentir saudades apenas quando sabemos que não mais podemos desfrutar da companhia daqueles que aprendemos a estimar demasiado tarde. O meu tempo findou.

   Entre cartas, documentos, papéis e agendas perdidos e esquecidos pelo tempo, dei com uma carta misteriosa, inserida num pequenino saco verde-musgo, discreto, também ele dobrado pelo meio. Um envelope branco, fino, com a dobra aderente colada pela pressão do peso do conteúdo da gaveta. Fora aberto anteriormente. Tratando-se de uma gaveta da mãe, senti um primeiro instinto a censurar-me a investida. Não era correcto. Não tinha o direito de invadir a sua privacidade. Todavia, algo me dizia, por outro lado, para continuar, como se soubesse de antemão que encontraria algo relacionado a mim.

     No interior do envelope, um folheto de médico escrito à mão. Pelo canto superior esquerdo, o nome da obstetra. No rodapé inferior, o endereço do consultório e um antigo número de telefone. Comecei a ler. O nome da mãe, a sua idade à época, umas siglas que não decifrei, as quais associei à data provável do seu início de gravidez, na interpretação que fiz do teor da carta. Soube da estória há uns anos. Ontem tive acesso àquilo que a comprova. A carta passada pela obstetra da mãe, grávida de quase três meses, a um outro médico, de Cascais, que realizaria a interrupção da gravidez. A carta ao "Caro Colega" que nunca conheceu o seu destino. Com todos os detalhes: comprimento e largura do saco gestacional, mais uns quantos dados, e as célebres palavras: «batimentos cardíacos frequentes», o que, e pegando nas palavras da mãe, me salvou do destino que espera a tantos fetos por aí. Sabendo que o meu coração batia, e tendo a desaprovação incondicional do pai, optou por levar a sua gestação em diante.

    Tempos houve em que me magoou saber que, ainda que por momentos, o meu nascimento esteve em perigo. Era muito infantil. Entendia-o como uma rejeição. De imediato, ideia que foi se consolidando e que persiste, percebi que bom que teria sido. Para todos, sobretudo para mim. E não, não estou cansado de viver ou desiludido. Talvez esteja, admito, embora não sinta essas repercussões a todo o momento. Simplesmente vejo que foi um erro da mãe ter mantido a sua gravidez. Cada vez mais vejo que fui o que uniu os pais. Não era expectável que estivessem juntos por tantos anos, sendo uma relação de alicerces muito frágeis. Fui fruto de uma inconsequência de ambos. E os erros, como se sabe, têm um preço demasiado alto. Os juros são-me cobrados, sem ter culpa da dívida contraída.

      A falta de pró-actividade perante a vida, nas palavras do amigo, conduz-me ao marasmo. Diz que é um problema de atitude. Não rebato a sua posição quanto a tudo isto. Que me falte essa... atitude. Um erro é um erro. E há erros que não se corrigem, ou cuja correcção implica medidas drásticas. Manter o erro é igualmente doloroso. Becos sem saída. 
     Há quem volte à entrada, saindo; quem descubra um orifício por onde escapar, e quem, finalmente, permaneça no centro, olhando em vão, lastimando-se, inerte, precisando de respostas sem saber formular as perguntas.

26 comentários:

  1. «A falta de pró-actividade perante a vida...»

    Tal seja, de facto, isso mesmo!... Às vezes, ao ler-te, dou por mim a pensar se não serás um pouco masoquista...! Essa, porém, creio ser a dedução mais simples e, por consequência, totalmente desprovida de qualquer tipo de reflexão objectiva. Minimamente racional.

    Há em ti um desencanto quase sem tamanho que te coloca perante a vida como se apenas passasses por ela. Como se não vivesses!... Pegando nas tuas palavras e levando-as até ao limite, diria que te consideras a ti mesmo um "erro de casting". Pareces olhar através de ti como se não admitisses que tens sentimentos. Como se receasses ver a tua sensibilidade - porque a possuis!... - maculada num hipotético confronto com o dia-a-dia.

    Tua mãe, se bem interpretei alguns dos textos em que a referes, parece ser o centro do teu universo, mas, por outro lado, só mesmo nas entrelinhas te permites reconhecê-lo. "Passas por ela" com uma espécie de leveza que, na verdade, não se coaduna com o que pensas de ti: "Um menino de sua mãe!..."

    Depois, entreténs-te em frases de autoflagelação, como se estivesses condenado a expiar as culpas de alguma coisa pouco clara. Como se te tivesses tresmalhado da tua própria existência.

    «Valha-nos a hipocrisia humana...».

    Diz-me cá uma coisa: consideras mesmo que és hipócrita? Sabes muito bem que não o és!...

    «Fui fruto de uma inconsequência de ambos.».

    Ainda que assim tivesse sido, em lugar de te marcares com o ferrete de uma qualquer sentença muito pouco salomónica, por que não te valorizas na exacta proporção daquela decisão de tua mãe que «...optou por levar a sua gestação em diante.»

    Tanto quanto posso depreender dos comentários dos teus leitores, existe um número significativo de pessoas que gostam de ti. Talvez não passe de um sentimento virtual, mas a verdade é que são pessoas que continuam a frequentar esta casa cujas portas tu abriste. Pessoas que podem regozijar-se com as tuas "pequenas vitórias" e sofrer com os teus desaires. Pessoas que, bem vistas as coisas, poderiam ser o fulcro que te permitisse suplantar as tuas dúvidas.

    Não olhes para ti como um erro. Não olhes em vão. Não permaneças inerte, mesmo que as respostas não cheguem. Mesmo que não saibas formular as perguntas!...

    ...

    Ah!... Desculpa as minhas palavras!

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    1. Olá, driftin'. Peço desculpa por responder tão tardiamente, mas aceito os comentários através do telemóvel, não me dando jeito responder por lá.

      Crer-me "masoquista" será a conclusão a que se chega após ler o que vou escrevendo. Não sou. Em boa verdade, custa-me ser assim. Contudo, não consigo passar indiferente ao que vou percebendo. Precisaria de uma boa dose de abstracção, de "doce ignorância".

      Completamente certeiro. Não sinto apego à vida. Nada a ela me prende. Sou mero espectador de uma realidade que não construí e que não desejo. Espectador da minha e das que me rodeiam.
      Já quanto aos sentimentos, não. Por tê-los, e saber que os tenho, é que exponho o que sinto. Numa necessidade de catarse.

      A mãe é importante, sim, demasiado, é certo. E a flagelação pelo pecado alheio é uma constante. Eu entendo-me como um erro deles que se materializou numa existência errante, a que procuro, em vão, dar sentido.

      O que seria suposto, porque erros há-os em grande quantidade por aí, era dar o tal rumo a que ainda não consegui chegar, e que cada vez mais ponho em causa. Ainda que saiba que não faço sentido enquanto pessoa, ser-me-ia bem mais cómodo, e menos doloroso, aceitar o facto e prosseguir na caminhada.

      Ora essa, agradeço-tas. :)

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  2. Não és um erro, és filho de uma relação que terminou. São coisas diferentes, nunca serás a justificação de manter um casamento. Pode ter sido o argumento mas não és a razão, porque as decisões dos outros a eles pertencem. Pensa naquilo que tens de positivo, um rapaz inteligente, que teve uma vida privilegiada se compararmos com muitos e que apenas não tem os pais juntos, sabendo no entanto que a tua mãe ficou mais feliz sem o teu pai. Do que leio, não fez uma segunda decisão feliz e agora penso se não será o teu medo, um filho a repetir os erros da mãe. Sai do marasmo Mark, a tua vida tem muito mais para ti há tua espera. Um abraço grande.

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    1. Sou filho de dois sujeitos sem senso de responsabilidade. Conceber um filho exige uma boa dose de maturidade, que não a há por aí, bem sei. Como eu a teria, não admito que se tome tal decisão de forma leviana. E, nesse sentido, "tiro o chapéu" à mãe por ter ponderado naquela que teria sido a decisão correcta.

      Serei um privilegiado, sim. E os meus queixumes poderão não fazer qualquer sentido num mundo que nos massacra, e não a mim mais do que a outros. São as minhas "pequenas grandes" dores.

      um grande abraço, Eolo.

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    2. Eu não quis dizer que não tens direito à tua mágoa, o cálice da dor sabe igual a todos. O que gostava que fizesses era valorizar o que a tua vida tem de bom.

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    3. Eu sei disso, Eolo. Eu entendi aonde querias chegar. :)

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  3. Não sei bem o que escrever..primeiro tocas em assuntos muito teus, e eu ler as tuas palavras, no encadeamento que tu próprio as inseriste, fiquei a pensar que nada nos vale ir até ao passado para ficarmos presos a ele. Há momentos na nossa vida que nos marcam, e talvez o simples gesto de abrir uma carta te tenha feito ver a vida com outras "cores" mas não devemos ir até ele (ao passado) e focar-nos apenas nos azedumes da vida.

    Ninguém é um erro quando nasce...

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    1. Tem sido o meu "erro" (é-o?): revisitar o passado mais do que é suposto. Mas não gosto do presente. O passado funciona como conforto e, em certa medida, substituição ao presente que refuto.

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  4. ninguém pede para nascer. se estás aqui, foi porque os teus pais assim o quiseram. se não tivesses nascido, se, se...
    a minha mãe abortou de um menino, estava de 4 meses. se o meu irmão António tivesse nascido (pois já tinha nome), eu não estaria aqui hoje, provavelmente...se, se... não podemos controlar estes casos.
    assim, já que aqui estamos, resta vivermos da melhor forma.
    à medida que os anos avançam, encararás a vida de outro prisma. não precisamos sorrir todos os dias, mas sermos gratos por aquilo que temos. e temos muito.
    bjs

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    1. Eu sou contra o aborto. E vivo nesse paradoxo: muito embora seja incondicionalmente contra o aborto, não censuraria a mãe (não mesmo, até porque não existiria!) se o tivesse feito. Juízos de prognose.

      O meu receio é esse (o que tenho, precisamente, vindo a verificar): os anos agudizam a minha descrença na própria existência que carrego ou suporto.

      um beijinho.

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  5. Peço-te perdão, mas este assunto, que aliás fizeste bem em partilhar, é demasiado pessoal para estar a emitir qualquer opinião.

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  6. Não obstante o conteúdo fatidicamente catártico, é uma delícia ler-te na tua construção narrativa, Mark (como sempre). Então, afinal, há uma origem subterrânea familiar para o teu torpor existencialista. É mesmo possível que ele derive de uma gestação interrompida - que a nível psicológico efetivamente se concretizou - será essa a sombra?. Oferece-se, a ti, agora e progressivamente, desde o nascimento, uma escolha: a se levarás a gestação adiante ou se a interrompes. Tudo é simbólico, psico-analítico e humano. E és tu a tua mãe. Não sou de índole moralista, as duas opções são extremamente positivas se tiveres consciência delas. Inconsciente, vivo ou morto é igual. Parece-me que estás a fazer as perguntas certas. E que o encontro da carta, como a tua própria vida, não é um acaso. (se te tornares místico, ou simplesmente capaz, pede ajuda ao teu avô falecido. talvez ajude.)

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    1. A carta foi apenas o conteúdo material daquilo que já sabia. E até foi interessante saber que ela poderia ter vários objectivos, menos ser lida por mim, até porque visava evitar-me. :) Estar com aquele documento na mão reveste-se de um simbolismo tal para mim que não mais o guardei no lugar onde se encontrava. É meu. A mãe que me perdoe. :)

      Eu tendo a anular-me com frequência, daí que imagine o mundo nos anos anteriores ao meu nascimento. Parecem-me melhores, como se eu não trouxesse em mim nada de novo ou de bom a acrescentar ao que já havia. Até nas escolhas musicais isso se reflecte.
      O caminho entre interromper a gestação ou dar-lhe continuidade é ténue e arriscado. Tento não pensar muito nisso e seguir na ignorância que procuro estimular. Receio.

      Não acredito muito em ajudas do mundo espiritual, mundo esse que nem sei se existe. O ocultismo não encontra em mim adepto.

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  7. Conheces certamente o 'Cântico Negro' de José Régio. Lembrei-me quando te li. Fica o link com o convite para a leitura http://www.releituras.com/jregio_cantico.asp.
    Vais fortalecer-te e crescer como tens crescido. Vais 'desenhar os teus próprios pés na areia inexplorada'... Li-te e li os comentários até agora publicados e que demonstram como nos fazes companhia e a tua companhia é importante. Um abraço Mark. P.

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    1. Revejo-me. Há muito tempo que não o lia.

      Eu agradeço a todos a preocupação. Sou uma pessoa triste, desencantada, desiludida. E que pouco consegue fazer para mudar. Falta-me a força anímica!...

      Muito obrigado, querido P.

      um abraço.

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    2. Muito do que deixas conhecer de ti está aqui neste teu blogue. E se tens momentos em que podes sentir-te triste, desencantado ou desiludido, há outros em que isso não é verdade. Deixa-me recordar-te o entusiasmo com que nos ensinas Hístória ou nos pões a pensar sobre 'Coisas Sérias'. Tens força anímica para tanto de bom e de importante. Mark, vê o lado positivo das coisas: um passeio no 'Cais das Colinas', uma tarde no jardim da Gulbenkian, ou o que escreveste neste post "http://asaventurasdemark.blogspot.pt/2013/07/quando-os-corpos-se-tocam.html". A vida é tão cheia de coisas lindas. E tu fazes parte dessas coisas.
      Um abraço, experimenta sentir esse abraço colocando os teus próprios braços nos teus ombros: o esquerdo no ombro direito, o direito no ombro esquerdo e... aperta. É esse o meu abraço. P.

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    3. P., obrigado pelo carinho.

      Oh, esse texto. Um engano. Curiosamente, chamava-se Pedro, daí referi-lo por "P.". Às vezes lembro-me dele. Nunca mais soube nada. Lá deve andar envolto nos seus assuntos de agronomia.

      O meu problema, caro P., é ter poucos momentos bons que me façam esquecer o que de mau me rodeia. E os que tenho são-me retirados abruptamente.

      um abraço.

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  8. Talvez isso tenha sido passado bem passado e que sua mãe deve se arrepender até hoje. Tenho certeza que você vale muito! Abraço!

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    1. Não sei... Creio que, por outras circunstâncias, ela até se arrepende de não o ter feito. Mais não seja de vez em quando...

      um abraço, amigo.

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  9. woow... brutal.. adoro este tipo de escrita...

    Gostei mesmo muito...

    (vou ver se tens fb)...

    abraço

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  10. Mark não gosto nada de ler as tuas pseudo conclusões. A tua mãe tomou a atitude certa e mais do que isso, falando disso contigo, não vejo como um qualquer hipotético arrependimento, mas sim como um um grandioso acto de amor. Somos como somos, porque somos todos diferentes e acima de tudo, a nossa presença neste mundo acaba sempre por justificar a presença de outros. Nunca te esqueças disso. Um grande e forte abraço.

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    1. Ela não o fez pelos motivos que enumerei e não por um súbito ataque de humanidade.
      Não a censuro por ter ponderado "tirar-me", pelo contrário. Acredita, não há em mim ponta de ressentimento. Havendo, seria talvez por não ter dado continuidade ao seu plano inicial.

      um abraço grande!

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Um pouco da vossa magia... :)