1 de fevereiro de 2015

Lições.


   A vitória do Syriza inundou as redes sociais e fez manchetes por toda a Europa. Coberturas televisivas intensivas, incluindo em Portugal. Por entre anos de marasmo, vão surgindo partidos que granjeiam popularidade entre a classe média desfavorecida pela crise que atingiu os países economicamente fragilizados. E o fôlego renasce, estando explícito o desejo de contrariar as políticas austeras impostas por Bruxelas, em soluções que a médio prazo revelam o seu fracasso.

  A conjuntura grega actual tem influenciado movimentos de inspiração semelhante em países como Espanha e a Irlanda, ao mesmo tempo que provoca o caos nas instituições europeias e mundiais, que temem o incumprimento das obrigações assumidas perante o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional. Em boa verdade, parece difícil acreditar que haja um entendimento, uma sintonia, entre Tsipras e os credores gregos. Bastante provável é que o Syriza termine por aderir à pressão da Europa, perdendo apoiantes. O segredo do seu sucesso é o inconformismo e o desejo de corte radical com antigas políticas. Na senda do Podemos, no país vizinho, que retirou do mal-estar que grassa na sociedade espanhola o resultado estonteante nas eleições para o Parlamento Europeu do ano passado.

   Em Portugal, a oposição feroz, e menos credível por isso, o Bloco de Esquerda, passa por uma crise interna que tem se reflectido no decréscimo na confiança do eleitorado. O Partido Socialista, cauteloso, aplaude a mudança em Atenas, mas teme quaisquer termos comparativos, sabendo da sua vocação tradicional europeísta e tendo absoluta consciência de que um discurso extremista à esquerda seria incompatível com aspirações governativas tão imediatas. Os portugueses são, tradicionalmente, moderados.

    Acreditando-se que o governo grego consiga renegociar a sua dívida, evitando assim, a UE, o contágio, o nosso país poderá retirar algumas vantagens. Tudo dependerá da orientação seguida pelo Syriza, agora que tomou as rédeas do poder. Sem dúvida alguma o fraco deve bater-se contra o forte. O povo grego foi corajoso e determinado. Um bloco sulista unido em torno de um objectivo faria frente à toda-poderosa Alemanha, não duvidemos. Contudo, não me parece credível que o PS e, eventualmente, o PCP queiram ficar com esse ónus. O falhanço do Syriza implicaria o reconhecimento da inviabilidade do seu programa, comprometendo a governabilidade à esquerda. Costa sabe disso.

     A política, esse eterno jogo de interesses. Sabemos, inevitavelmente, como terminará.

30 comentários:

  1. Deixa lá ver o que acontece

    Até ao lavar dos cestos é vindima :)

    Abraço amigo

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  2. Consigam ou não chegar lá e mudar alguma coisa,pelos menos que agitem as mentalidades e as letargias de muitos e tragam alguma esperança :)

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    1. Exacto. Pelo menos que haja a dita esperança. Não acredito muito no sucesso destes movimentos extremistas, mas terão esse "dom".

      um abraço.

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  3. Lamento que o BE se perca em problema internos há vários anos. Poderia facilmente ser 3ª ou até 2ª força política portuguesa.

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    1. Nunca fui bloquista. Lamento que esteja a perder peso eleitoral por problemas internos. Sei que é (ou foi) um partido significativo na juventude esquerdista portuguesa, muito embora seja de uma área política de extremo com a qual não me identifico. Sou eurocéptico, sim; moderado, contudo. Entre outros. :)

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    2. Pois eu não sou euroceptico mas votaria BE se tivesse alguma viabilidade o que não é o caso neste momento. Acho que a política europeia precisa de mudança que não verá do habitual bloco do poder.

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    3. A União Europeia precisa de uma boa reforma.

      Um dos problemas crónicos do Bloco é, desde o seu surgimento, ser um partido de oposição, sem ambições governativas, pelo menos por si só - até por saber dessa "impossibilidade". Daí todos os dislates ditos por membros e dirigentes ao longo dos anos. As pessoas perceberam isso, deram conta de que se trata de um partido sem um programa credível, capaz de ser posto em prática. A crise interna foi a machadada final. Não lhe auguro nada de bom.

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    4. Também não lhes auguro nada de bom, nem sei como ainda se aguentam. É pena porque o panorama fica mais pobre.
      Contribuiram para a queda do PS e acabaram por ir na enxurrada.

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    5. Veremos nas próximas legislativas como se safam.

      Sim, é pena.

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  4. Estou a achar imensa piada à "bofetada com luva de pelica" que os gregos estão a dar a toda a gente. Criar um governo dias após as eleições e na semana seguinte já estarem a repôr salários, reempregar pessoas, aumentar o salário mínimo nacional e cortar com as taxas moderadoras na saúde, é de bradar aos céus. Já iniciaram conversações com outros líderes europeus, andam a fazer uma maratona pela europa esta semana em negociações e a discutir um alívio das medidas e o fim de tanta austeridade, para promover o crescimento e o bem estar das pessoas. Aquilo sim, são políticos em condições. Podem ser extremistas, mas estou a gostar da bofetada que estão a dar a todos os outros políticos. hoje já se falou na televisão sobre acabar-se definitivamente com a Troika e o próprio Presidente Obama disse que tinha que se acabar com tanta austeridade.

    É caso para dizer como o Fernando Pessa:

    "E esta, hein?" XD

    Claro que esta situação em Portugal era inimaginável, a menos que fossemos nós a irmos para o poder, como no conto "Prisioneiros do Amor"! Ahahahah! :P

    Abraço :)

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    1. O programa do governo grego é muito ousado, João. Não sei se sairão vitoriosos no final. Pelo que tenho lido na imprensa, a Europa é bastante reticente quanto ao abrandar das medidas impostas à Grécia. O perdão da dívida, então, é inimaginável. Veremos.

      um abraço grande! :)

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    2. Sim, eu sei disso Mark. Eu tenho consciência disso também. Mas confesso que achei piada e positivo o facto de os gregos, que foram tão "maltratados" nos últimos anos, estarem a dar uma lição a todos os restantes países da Europa, ao constituírem um governo tão rapidamente e começarem a entrar em funções e a tomar medidas. Mesmo que no fim acabem por perder, a ideia deles irá certamente dar força a outros partidos fora da Grécia. Como o "Podemos" na Espanha e certamente outros partidos que estejam a pensar nascer por essa Europa fora. A minha ideia é que a austeridade é uma estupidez. É impossível mantermos a Economia a crescer se continuarmos a manter uma política de austeridade a este nível, que impeça o crescimento pessoal das pessoas e de micro e pequenas empresas, que representam 80% das empresas, no caso do mercado português. É preciso haver um maior controlo dos gastos, mas não através da destruição de postos de trabalho. é preciso é haver maior equidade social. Para quê que hão de andar a pagar subsídios vitalícios a governantes? Eles podem trabalhar em outros sectores. Porque não estabelecer limites aos ordenados? Porque não estabelecer tectos máximos às reformas pagas pelo Estado a toda a gente? Porque não criar um Parlamento apenas com Porta Vozes de cada Partido, que se reuniam numa sala para debater os temas, ou fazendo video-conferências com alguns dos restantes colegas partidários, poupando assim milhões de euros por ano nos salários? Não sei, francamente acho que muita coisa está errada em tudo o que nos rodeia. Entristece-me e deixa-me cada vez mais desalentado. Voltando ao tema que estávamos a abordar, concordo contigo que o perdão da dívida dos gregos seja algo que não vai acontecer. Mas pelo que percebi, também não é essa a intenção do Primeiro Ministro deles. Ele quer é re-negociar a dívida, fazendo com que esta possa ser paga com juros mais baixos e durante mais tempo. A Alemanha tem de "baixar a crista" de uma vez por todas. não pode ser sempre tudo como eles querem, porque eles não são os donos da Europa, creio eu. Ao ponto que as coisas estão a andar, não estamos muito longe de assistir a uma guerra interna que possivelmente se alastrará pelo resto do Mundo - com a crise do petróleo, as sanções à Rússia, a crise na Ucrânia e as guerras dos jihadistas...Ui..muita coisa ainda vai acontecer este ano.

      Abraço :3

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    3. em Portugal, por exemplo, lá disseram os patrões, seria inimaginável o salário mínimo ser mais de 700 euros, como agora na Grécia.
      mas o S. aliar-se à direita radical só mesmo na Grécia. aqui não sei se seria possível. mas esperemos que altere, esperemos que consiga renegociar e que abra a porta a outros países, como Portugal. e tem um bom ministro das finanças. desejo-lhes sorte que terão muitos entraves pela frente.
      bjs.

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    4. João, a austeridade desmedida é um disparate, mas o despesismo desenfreado também o é. Portugal, a Grécia, eventualmente, "viveram" acima das suas posses durante décadas, aumentando a dívida (que todos os países têm). Em Portugal, recordar-te-ás certamente das obras públicas caríssimas: as pontes, os trens de alta velocidade, os investimentos nestas e naquelas infraestruturas, quando já se adivinhava o fim. E muitas foram as vozes que se ergueram contra o que lhes parecia ser políticas erradas.

      O que se passa na Grécia é engraçado, sem dúvida caricato, mas veremos onde tanta determinação vai dar. O Primeiro-Ministro grego e o seu Ministro das Finanças queriam, inicialmente, o perdão da dívida. Agora querem / andam a renegociá-la.

      Portugal carece de uma reforma do Estado, sem dúvida. É urgente e há muito que se fala nela. Diminuir o número de deputados é uma das medidas que defendo (e não sou o único). Os "tectos máximos" das reformas também, além do fim das subvenções vitalícias, por que não?

      um abraço.

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    5. Margarida, eles estão a enfrentar gigantes. Eu simpatizo com a Grécia, palavra. Espero que consigam (o novo Governo e quem o elegeu, o povo) fazer frente a tanto poder, a tanta pressão. Passos Coelho já fez o tradicional discurso de "bom menino". A este povo falta alguma coragem. Dos fracos não reza a história.

      um beijinho.

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  5. Sabes como tudo isto vai acabar? Olha, eu não. E estou curioso para ver onde isto tudo ainda vai parar... LOL

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    1. Não sei. Presumo. O governo grego a perder popularidade. xD

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  6. Mark, se algum dia tiveres uma crónica num jornal, compro-o só para te ler :3

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  7. A vitória do Syriza só foi possível pela conjugação de vários factores, principalmente três: o falhanço da austeridade forçada pelos organismos internacionais (vulgo troika), a existência de um partido fora do arco da governação com cabeça, tronco e membros e que soube evoluir, a ponto de se tornar governo, e principalmente ter um líder carismático e outras personalidades que nós aqui não conhecemos mas que devem ser igualmente bastante interessantes para um aproveitamento político, como por exemplo o tão badalado e simpático ministro das Finanças.
    Passando às comparações com Portugal, só a primeira premissa é igual, pois o Bloco de Esquerda, nunca ambicionou ser poder, sempre se limitou a ser um (válido) opositor aos habituais partidos que governam, sem nunca apresentar alternativas, antes pelo contrário, continuando sempre radical...Além do mais, a crise de dirigentes deste partido tem sido nos últimos tempos, assustadora - a maior parte dos bons elementos deixaram-no ou continuaram nele, mas sem os dirigirem - Daniel Oliveira, Joana Amaral Dias, Fernando Rosas, Miguel Portas, Rui Tavares, José Manuel Pureza, Ana Drago, para não falar de (esse sim, carismático) Francisco Louçã. É um grupo de gente que qualquer partido não se importaria de ter nas suas fileiras. E agora? Tirando uma ou duas pessoas, é um partido oco de gente e consequentemente de ideias, com tendência para desaparecer...
    Quem poderá aproveitar algo do positivo que o Syriza consiga, será António Costa, que me parece capaz de mudar algo dentro do próprio PS.
    Uma palavra para a postura perfeitamente patética do PSD após a vitória do Syriza, quer naquele comentário "infantil" de PPC, ao ridículo de uma carta que um betinho ex dirigente da JSD enviou ao Alexis Tsipras a pedir satisfações acerca das suas políticas.

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    1. João, o Bloco nunca ambicionou ser poder, efectivamente. Foi um exercício de comparar, no seio da esquerda radical, que partido ou movimento, de relevo, poderia adoptar tal postura. O PS jamais arriscaria.

      Não vejo Costa a colar-se ao Syriza. Pelo contrário. O PS já se descolou, sabiamente, diga-se, do radicalismo grego. Deve estar atento, aproveitar isto e aquilo, mas ainda é prematuro analisarmos o sucesso da "fórmula grega". O PS não está disposto a perder tudo - e logo agora.

      Passos Coelho teve, como disseste, um comportamento idiota, subserviente.

      um abraço.

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    2. Acrescento: com o "de relevo", referia-me a representação parlamentar. A par do PCP e do BE, há mais partidos de extrema-esquerda inscritos em Portugal.

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  8. Quero ver o desfecho. Neste momento considero que tudo é possível e como tal, não acredito que a Alemanha "ganhe" ou que a Grécia "vença". Uma grande incógnita.

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    1. Também me parece improvável.

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    2. Nem só de vencedores são feitas as vitórias.

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  9. Não consigo enquadrar o Syriza como "extremista" ou até mesmo "radical". Me parece bem mais neossocialdemocrata ou neorreformista, assim como o "Podemos".

    Não pedem a saída da UE, da Otan e da eurozona. Querem estruturar sua economia destruída pelos pacotes da Troika. Não vejo motivos para enquadrá-los como extremistas. Eles não fazem nada de diferente do que fizeram muitos partidos socialdemocratas do pós-guerra. O que acontece é que os partidos da esquerda tradicionais como os socialistas e socialdemocratas perderam credibilidade perante a população depois que aderiram a cartilha do neoliberalismo. Aliás, foram durante os governos socialistas democráticos e socialdemocratas que neoliberalismo chegou a Europa ocidental e que mais tarde gerou toda essa consequência que vemos, desmonte do estado de bem-estar social, privatizações e regressividade dos impostos, estímulo ao desemprego para provocar baixos salários e o enfraquecimento dos sindicatos. É o capitalismo na sua face mais sinistra.

    O que o Syriza, pelo menos a tendência moderada que representada por Tsipra, quer é reformar e devolver a soberania a seu país, pressionar a Alemanha e a Finlândia contra essa injustiça que estão fazendo contra a Grécia que deixou 25% de desempregados e sendo que metade dos desempregados são jovens. Isso é uma calamidade. Na minha concepção, a Europa do Sul deveria ter olhado para América Latina dos anos 90 e visto que austeridade e o endividamento só serve para encher os bolsos dos capitalistas financeiros às custas do sofrimento do povo.

    É isso. Espero que estejas bem. Abraços.

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    1. Olá, Tiago.

      www.priberam.pt / extremismo | s. m.

      ex·tre·mis·mo
      (extremo + -ismo)
      substantivo masculino
      Adopção de teorias político-sociais extremas.

      Nesse sentido, a linha ideológica do Syriza pode ser considerada extremista. Não nos podemos esquecer de que defendiam o perdão integral da dívida, numa fase inicial, só adoptando uma postura mais moderada desde que sentiram um não acolhimento por parte dos credores gregos. Serão reformistas, sem dúvida, e isso verifica-se quando analisamos o programa do partido, mas vários dos objectivos que lá constam revelam, por si só, extremismo político, que não é necessariamente mau, veja-se. Retira esse tom pejorativo de "extremista".

      O Estado social, que surgiu no pós-guerra, começa a ser insustentável na actualidade. O Estado só se pode comprometer perante os cidadãos quando tem dinheiro para o fazer, e isso é o que vai escasseando por alguns países da Europa.

      A faceta pró-activa do Syriza de enfrentar elefantes brancos, caso da Alemanha, é elogiada por mim. Gosto da postura.

      Estou bem, Tiago. Espero que tu também. :)

      um abraço!!

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  10. Acho que o assunto Grécia ainda vai dar muito que falar. E, sinceramente, duvido mesmo muito que os gregos consigam alcançar metade do que querem... :X

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Um pouco da vossa magia... :)