25 de maio de 2014

O dia de Espanha.


   Um amigo convidou-me para sair. Estive para recusar, antevendo a confusão. Combinámos nos Restauradores, junto ao obelisco. Fui de metro, podendo ir a pé. Não o fiz já supondo que as ruas estivessem intransitáveis de tanto espanhol. Felizmente, podia-se estar nas carruagens do metro. Nada que a hora de ponta não produza. Nas Picoas, entrou uma professora que tive no ano passado. Viu-me, cumprimentou, e disse-me que há dias estivera reunida com a regente, ex-juíza do Constitucional, falando-lhe de mim, entre outros, em relação às notas dos testes dos seus actuais alunos. Foi uma das minhas cadeiras preferidas do curso. Tenho saudades.

  Sentámo-nos no degrau do memorial e ficámos à conversa. Grupos de espanhóis dirigiam-se na nossa direcção, rumando ao Rossio e à Praça do Comércio. Barulhentos e rudes como os portugueses. Merecem-se. Deus, que me puseste num país incivilizado!

    A maior surpresa do dia viria, contudo, do próprio metro. Os letreiros que anunciam a chegada do comboio estavam em castelhano. Dei uma valente gargalhada cá para mim! Os portugueses continuam a confundir cordialidade com subserviência. Por que cargas d'água colocaram a informação em castelhano? É assim tão díspar do português que leve os espanhóis a não entenderem a mensagem? Numa final da Liga dos Campeões Sport Lisboa e Benfica e Futebol Clube do Porto, em Madrid, tenho quase a certeza de que não teriam essa atenção em língua portuguesa. Não sei, digo eu...

   Pusemos os assuntos em dia. Falámos nos meus estudos, nos dele. Já está licenciado e com mestrado. À pergunta sobre o que pretendia fazer pós-licenciatura, respondi-lhe com um assertivo não sei. Começa a ser preocupante, isto sou eu que penso. O Verão servirá para esclarecer as dúvidas. Em dois mil e dez, por esta data, também não sabia o que escolher. Quando a hora chegar, eu decidirei.

    A meio, dois espanhóis sentam-se ao nosso lado, à direita do meu amigo. Depois de comerem e fazerem aqueles ruídos pré-históricos com a boca, um deles olha para mim e pisca-me o olho. De imediato, disse ao meu amigo. "O que queres que faça?" - riu-se. Pedi-lhe para sairmos. Bom, descemos a Augusta em direcção à praça. Montaram umas tendas para que eles pudessem ver o jogo. É incrível como uma cidade se movimenta em torno de uma competição desportiva. Fico fora de mim. O relevo que se dá a... isto! Conseguimos entrar na Ribeira das Naus, descobrindo que aquilo até está agradável. Terminaram as infindáveis obras de requalificação. Há uns espaços com relva, onde nos detivemos por instantes. Adoro sentar-me na relva fresca.

    Depressa esfriou. Como se fazia horas de jantar, decidimos voltar para casa. A estação do Rossio estava nojenta, com um cheiro nauseabundo a urina e cerveja, pavoroso. Ele fez questão de me acompanhar até à minha estação de metro, que é noutra linha, sentindo a relutância em ir sozinho até casa. Iria, claro, mas aqueles espanhóis bêbados não me inspiravam qualquer confiança. São estas atitudes que valem por mil palavras. Caiu-me mesmo bem. Dois rapazes intimidam mais do que um, além de que ele é dos Anjos, nascido e criado, logo, deve ter experiência em enfrentar gente de aspecto duvidoso (risos). Estou sempre a gozar por ele ser de lá. Na brincadeira, naturalmente. É uma zona péssima, Almirante Reis, medo!

    Hoje, já cumpri o meu dever cívico, em itálico porque estou a ser irónico. Votei em consciência. Dei o contributo que considero importante neste momento. A Aliança Portugal está cá para baixo. Espero que os penalize (risos). Agora há um LIVRE, que não faço a menor ideia do que seja. Mais um partido da esquerda. A esquerda tanto se fragmentou no passado e continua. Só ajuda à direita, una, coesa.

       Veremos o que sai daqui. Mais do mesmo.

32 comentários:

  1. O Partido Livre não é de esquerda, segundo eles mesmos, são um partido sem orientação política, logo totalmente centrais. Estão lá pessoas de direita, de esquerda, mas com objetivos comuns.
    Quanto a "Numa final da Liga dos Campeões Sport Lisboa e Benfica e Futebol Clube do Porto, em Madrid, tenho quase a certeza de que não teriam essa atenção em língua portuguesa. Não sei, digo eu..." devemos fazer aquilo que queremos que nos façam a nós :)

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    1. Lamento, Kyle, mas são de esquerda. Lê: http://livrept.net/declaracao-principios-161113 "Liberdade, Esquerda, Europa, Ecologia". Quando eu disse que não fazia a menor ideia do que fosse, não era em sentido literal. Estava a gozar. Mais um movimentozinho, uma coisinha indefinida.

      Se eles se dizem, quem somos nós para discordar! LOL

      E não esperava que colocassem letreiros em português, em Madrid. Não queria. Respeito a língua de cada povo quando estou no seu território.

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  2. Mark, pode não gostar de Futebol, nem de desporto em geral, mas a realização de estes eventos é importante para a cidade e para a economia em particular. Qualquer grande evento desportivo em Lisboa representa milhões para o setor hoteleiro e, naturalmemnte para o PIB.
    A informação em castelhando não me choca, embora devesse ser bilingue (não sei se era); temos que perceber o que representa receber duas equipas em Lisboa, vindas de uma cidade muito próxima, no jogo de futebol de clubes mais importante do ano, que se goste ou não.

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    1. Não disse o contrário. Eu critiquei todo o aparato. Ainda assim, não são estes eventos que salvam a economia portuguesa. No Brasil, por exemplo, a maioria da população é contra a realização do Mundial.

      Não, não era bilíngue. Era somente em castelhano, para piorar. Não compreendo esse argumento. Queres ver que eles não percebem o letreiro em português? Ai, coitadinhos, estou a morrer de pena. O português e o castelhano têm um grau de inteligibilidade mútua bastante acentuada, sobretudo na ortografia. É evidente que entenderiam! E mais, eles não fariam o mesmo, aposto a minha cabeça na guilhotina.

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  3. Não sejas tão Severo, com nuestros hermanos, Ainda vais acabar por casar com um :P

    E, o café correu bem?! Anjos é Lisboa, e fica perto da Graça ;)

    Tens de começar a sair desse teu triângulo meu bom amigo :) (Campo Pequeno, cidade Universitária e Corte Inglés) ehehehehehhehehehehehehhehehehehe

    :)

    Adoro a forma como escreves, mas aqui o teu amigo adora os espanhóis ;)

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    1. Não sou nada severo com os espanhóis, Francisco. Sou objectivo. Tu serás condescendente e permissivo. Falta-te um pouco de chauvinismo. A ti e à maioria do povo português.

      E o que tem? Chelas também é Lisboa. Vais dizer que é uma zona excelente? LOL Eu sei que os Anjos fica perto da Graça. E não só, Martim Moniz, etc, tudo "maravilhas".

      Por acaso, mas só por acaso, o meu triângulo é mais hexágono, heptágono, octógono. Só há zonas que não frequento porque não gosto.

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  4. Bom sempre ouvi dizer que de Espanha nem bom vento, nem bom casamento... Não gosto de espanhol e recuso-me a falar tal língua. Durante a licenciatura parte dos meus colega queriam tirar um curso de espanhol e eu recusei-me terminantemente. Sou português não falo espanhol, assim como os nossos vizinhos se recusam a perceber sequer o que dizemos.

    Ainda bem que divertiste no café! ;D

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    1. Subscrevo cada palavra, cada sílaba, cada vírgula. Se o respeito fosse recíproco, a minha opinião acerca deles seria outra. De momento, recuso-me a colaborar com pessoas que sequer reconhecem para si mesmas a existência de Portugal como Estado soberano.

      Foi uma tarde divertida. :)

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  5. "Mark e seu amigo no meio da confusão" ahaha xD adorava ver-te todo enjoadinho (que é como te imagino) no meio dos espanhóis de cerveja e farturas nas mãos loool :D admite que é um quadro engraçado! :p abração!

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    1. LOL, tem a sua piada. :D Eu odeio confusão e barulho. Ao que soube, lançaram petardos no Rossio, um grupo de neonazis com ligações ao Sporting. :s

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  6. ||||
    Olá Mark,
    Gostei simplesmente do teu post. Concordo com a abordagem que fazes dos "reparos" que visualmente documentaste. Na realidade parecemos um povo hospitaleiro demasiado extensivo para umas coisas e menos para outras. Assuntos de futebol às vezes metem-me "nojo". Mas sou eu a pensar com os meu botões. Só o estado calamitoso de imundice que algumas zonas da cidade de Lisboa ficaram, a transadar a urina, garrafas, copos, lixo variado deixado por espanhóis, também o poderia ser por ingleses, ou outro povo. Às vezes fico a pensar se essa gente "civilizada" também fazem essa lixeira nos seus países. Mas também se questiona se as autoridades (portuguesas) tudo fizeram para dotarem desses espaços de equipamentos adequados para evitar essa imundice. Não vou querer aqui defender a apologia de ser civilizado, porque ainda temos dentro de nós muitos genes de bichos do passado, em evolução. No entanto, estes são temas fraturantes com um leque de apoiantes e adversários clubescos, que em quase tudo se parece ao tempo dos Romanos. Foi lá tão longe no tempo, mas ainda tão comum nos simples mortais presentes neste Planeta chamado Terra.

    Abraço

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    1. Olá João Eduardo. :)

      Sim, os ingleses procederiam da mesmíssima forma, aficionados que são por futebol. Agora, é evidente que a cidade não estava preparada para isto. Como dizes, ficou tudo uma imundice, que foi limpa por pessoas pagas para isso, é verdade, mas que não são obrigadas a pactuar com o caos. Eu andei por aquelas ruas, perto das 20h, e posso te dizer que parecia uma cidade africana, a julgar pelo lixo, garrafas partidas, despojos humanos que vi.

      O mais "engraçado", passo a expressão, é verificar como esta gente se comporta no estrangeiro, por mais que para eles isto seja uma mera extensão de uma "Espanha" que, gradualmente, lhes vai fugindo das mãos.

      um abraço.

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  7. Foi um Portugal, oferecido para os Espanhóis. Somos a continuação de Espanha e de Marrocos xP

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    1. Não digas isso nem a brincar, ahahah. :D

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  8. Bem, cá estou eu a ser do "contra", nalgumas coisas que referes.
    Primeiro eu gosto de futebol e não deixo de ser civilizado. É um desporto que move multidões onde quer que se pratica, e aqui ou em Espanha, não há excepções.
    Foi excelente para Lisboa receber esta final e o facto de ser entre dois clubes de Madrid, cidade próxima fez que o caudal de gente fosse enorme, pois além dos que viram o jogo no estádio (cerca de 60000) havia outros tantos por aí.
    Assim tanta gente, é natural que provoque lixo, e isso não sucede apenas nos adeptos de futebol, é algo que acontece sempre e em todos os sítios onde se congregam multidões desta grandeza; claro que no final da noite o lixo começou decerto a ser retirado - uma situação normal, pois.
    Já quanto aos avisos em castelhano concordo que deveriam ser bilingues, olhando ao facto de que os espanhóis "têm a mania" de que não entendem o português - são burros ou então preguiçosos, ou pior ainda, convencidos...
    Sobre o que dizes dos Anjos, é um bairro de Lisboa, como tantos outros, com pessoas boas e más, como todos os outros; não é crime viver-se em zonas menos agradáveis em comodidades e outras coisas e muita gente não tem posses para viver nos locais de que gostas e que frequentas.
    Eu vivo em Massamá e não me envergonho nada. Há aqui gente excelente, como em todo o lado, e há aqui tudo o que se precisa para viver sem ter que ir constantemente a Lisboa, onde vou apenas quando "devo" ir...
    Decerto detestarias viver aqui, mas para mim que aqui vivo desde 1996, já criei até raízes, e há algum espírito de bairro, com as pessoas a conhecerem-se melhor...
    Temos que saber adaptar-nos às situações e não podemos esperar que o mundo seja apenas feito à nossa imagem e semelhança.

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    1. Sê do contra sempre que queiras. A diversidade de opiniões é bem-vinda e saudável. :)

      Eu referi "incivilizados" logo a seguir a ter abordado o manto espesso que caminhava de garrafas na mão e a entoar cânticos, e foi como reacção ao que vi. Claro que um adepto que vê um jogo de futebol, que vai ao estádio, que discute com amigos o seu desporto favorito não é incivilizado.

      O pior foi os "outros tantos por aí", a sujar. Quanto à excelência desta final em Lisboa, além dos supostos benefícios para a economia portuguesa (eu não levo este argumento muito a sério), não vejo o que teremos ganho.

      João, não tenho nada contra Massamá. Falei dos Anjos porque é uma zona perigosa, pelo menos do estigma não se livra. Fala-se muito em prostituição por ali. Não sei como será Massamá, mas há zonas muito agradáveis nos arredores de Lisboa. Claro que moraria em Massamá. Então, se tivesse de ser, seria. Já estaria habituado.

      Tens toda a razão e eu revelo alguma impreparação face a adversidades que ainda surjam. Aprendizagens que tenho de fazer. :)

      um abraço.

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  9. Desculpa te encher o saco,mas como eu lembro que você tava afim de ver o filme " Hoje eu quero voltar sozinho" eis que um amigo achou um site que dá pra ver o filme completo. A imagem é foi filmada no cinema,portanto,não tá hipernítida,mas dá pra ver o filme.

    Espero que goste. Adeus.

    http://filmesgays.org/hoje-eu-quero-voltar-sozinho/




    http://filmesgays.org/hoje-eu-quero-voltar-sozinho/

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    1. Olá Tiago!

      Sim, sim, queria (quero) muito ver o filme. Perguntei, há dias, a um rapaz brasileiro que tem um blogue se sabia algo sobre uma eventual reprodução do filme em Portugal, mas entretanto não cliquei nas notificações e esqueci-me do blogue.

      Obrigado. :)

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  10. quanto a futebol, nada ligo, mas vi o final do jogo e gostei. critico a lixeira que deixaram na baixa e a destruição das paragens dos autocarros.
    eu vivi na mouraria, com vinte anos eu trabalhava à noite na escola e subia a calçada do combro e o chiado às 11 da noite, isto nos anos 90, quando o BA era muito pior. não morri, não tive medo. cá estou.
    se pensasse assim, nunca sairia de casa. :)
    e hoje continuo a fazer o mesmo, inclusive andar de comboio à 1 da matina.
    bjs.

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    1. Bom, há jogos decisivos que espreito, devo dizer. Recordo-me do Euro 2008 e do Mundial de 2010 em que, volta e meia, lá perguntava como Portugal se estava a sair na competição.

      Claro que sim! E são as adversidades que nos fazem crescer.

      um beijinho.

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  11. - Mark, num país com a abstenção que temos, e com políticos que sem vontade própria, comandados pelos alemães, como é que te choca a questão do metro? LOLOL

    - Parece que a fragmentação da esquerda não ajudou muito a direita xD

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    1. Choca-me porque é ridículo. Suponhamos que um português da província vem pela primeira vez a Lisboa. Quer-se dizer, então, os espanhóis, coitadinhos, não entendem os letreiros em português, mas o desgraçado do português, no seu país, repito, NO SEU PAÍS, tem de entender os letreiros em castelhano. Isto faz sentido?

      Pois não. Demérito da esquerda.

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    2. Claro que é ridículo. E um português provinciano, se não fosse analfabeto e soubesse ler, pensaria que tinha ido ter a Madrid em vez de ter ido para Lisboa... LOL

      É caso para dizer que a direita lixa-se sozinha. Não precisa de ajudas para fazer isso... loloolol

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    3. Deus te ouça, Deus te ouça.

      Olha, por acaso estava de phones nos ouvidos (como quase sempre, na rua). Nem sei se aquela "voz off" (na falta de melhor termo), habitual, também estava em castelhano. Lol

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  12. No sábado estivemos muito perto um do outro... muito mesmo...

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    1. Já vi que sim. Bom, eu não cheguei ao Cais do Sodré. Ficámos ali pela Avenida Ribeira das Naus. :)

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    2. Eu estive no Rossio Mark LOL

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    3. Então estivemos realmente perto. Se calhar até nos cruzámos. :)

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    4. Pois, por isso te escrevi o que escrevi :P Estive a fazer tempo na Estação do Rossio!

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    5. Dependendo da hora, passei por ti, visto que desci os Restauradores. :D

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    6. Então, não. Eu terei descido por volta das 18h.

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Um pouco da vossa magia... :)