27 de abril de 2014

Primavera.


    Há um mês que nos prometem temperaturas amenas, sol que vai aquecendo a pele, progressivamente mais e mais alto, brisas suaves. Foi com estupefacção que recebi o dia de hoje, luminoso, propiciando passeios, sumos de frutas, mangas curtas. Assim fiz. Levantei-me cedinho e fui dar uma volta pelas avenidas, ver algumas montras do comércio tradicional, comer um bolo cheio de creme (que também mereço; há pecados inevitáveis), escrever parcas notas no meu caderno, inspirar-me nas pessoas que via numa manhã tímida de domingo, embora viva, nas cidades grandes que raramente adormecem.

   Vou no embalo da maioria e sinto-me melhor nestes dias. Em boa verdade, anseio pelo Verão. Preciso de praia, de mergulhos no mar, de piqueniques no campo, com direito a toalha na grama e cestinho com geleias de mil sabores, pãozinho quente e saladas frescas de tomate-cereja e rúcula.
     O ano tem sido sombrio, amargo, com gosto de eternidade má. Daí à displicência é um pequeno passo.

     Vi um rapaz da minha idade, aparentando pouco mais de vinte anos, a amparar o avô na caminhada. Sei-o avô porque ouvi o modo carinhoso com que o neto o chamava, paciente, olhando para os pés do ancião e, em simultâneo, para o chão e prováveis obstáculos que encontrasse. De repente, lembrei-me do avô, o paterno, que não vejo há bem mais de um ano. Nunca fomos próximos a ponto de haver reciprocidade de mimos. Beijava-o na face, quando o via, sempre com uma distância formal que não permitia mais do que palavras de circunstância. Uma relação, portanto, muito diferente da que tenho com o pai da mãe, que me levava pela mão aos jardins que conhecia, tirando-me fotos, muitas, que guardo e vejo, de tempos em tempos, com ternura e a nostalgia própria de momentos que não posso recordar recorrendo à memória.

    Os ecos dos avós paternos chegam-me por conversas com pessoas que vejo e que sabem deles ou através do pai, quando falamos. Fará oitenta e oito anos no mês que vem. Está com problemas de locomoção. Contrataram uma senhora especialmente vocacionada para tratar dele, uma espécie de enfermeira. Alimenta-se bem e, que conste, não pergunta por mim. Pode ser que o visite num destes dias.

   Na vinda, comprei um gelado. Os anos passam, mas o hábito de ir primeiro à cobertura, e só depois ao recheio, não muda. Como não se altera o querer voar para uma terra longínqua que me receba de braços abertos, se tanto confortantes, iguais aos do rapaz no seu avô.

33 comentários:

  1. A tua descrição do gelado, fez-me ficar com um súbito desejo de um super-maxi não sei porque! lol... E como também sinto falta do verão este dia também me deixa assim, mais feliz... ;D

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    1. "Eu é" mais Magnuns.

      Ficamos todos mais animados, presumo. :)

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  2. muito bom texto, também anseio pelo verão, os dias cinzentos pesam-me na alma.

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    1. Nunca desejei tanto o Verão como agora!...

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    2. mesmo!

      r. dizem e eu acredito :) | parece que sim, é bom passear ^^

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  3. Vocês entrando na primavera e gente aqui no outono :) bonita essa relação avô-neto, eu não conheci meu avô de pai infelizmente.

    Abraços!

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    1. Sim, tecnicamente, a Primavera começou a 20 ou 21 de Março, mas só agora as temperaturas começam a subir.

      Eu conheci ambos e ainda estão vivos. Espero que por mais uns aninhos.

      um abraço.

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  4. - És fã de praia também Mark? Desconhecia-te "necessitado" dela :)
    - Quanto ao teu avô, vai visitá-lo. Mesmo que não tenhas uma relação muito próxima com ele, é a tua família, e a família não se escolhe. Se já tem a idade que tem, e os problemas que tem, possivelmente ficará contente de te ver. Mesmo que não sejam muito ligados. Amanhã pode ser tarde (aqui fala a voz da experiência, e ainda hoje, já passados uns 10 anos, me sentencio por isso...)

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    1. Sim, gosto imenso de praia, Horatius. Tenho por hábito falar de algumas idas à praia. Não gosto de ficar o dia inteiro. Gosto, sobretudo, de ir cedinho e sair por volta das 11h. :)

      Ele nem se deve lembrar de mim, ahah. Está óptimo "de cabeça", pelo que sei. Estou a brincar. Lembra-se, com certeza, não tem muitos netos (tem três, já a contar comigo). Pois, tenho pensado nisso, do ser tarde demais um dia. Não quero ficar com esse tipo de remorsos.

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    2. Eu lembro me de falares das tuas idas à praia. Só não tinha a noção que Eras fã:-)

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    3. Gosto. :) Se for uma praia sossegadinha, com menos pessoas, melhor! Há por aí tesouros ainda pouco descobertos. Infelizmente, não conheço nenhum. Mas detesto as afluências. :s

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    4. Então já somos dois, Mark. Também gosto de praias mais paradas. A Praia da Nazaré, conhecida como a colónia de férias dos Ribatejanos, é um horror. Além de ser só gente conhecida, tem muito movimento para o meu gosto.

      Que praias frequentas?

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    5. Olha, praia a sério costumo fazer fora da cidade: em Milfontes, no Alentejo litoral, onde os avós têm casa, ou no Algarve, com a mãe e o mano. Vamos para Vilamoura, Quarteira, Armação de Pêra, depende. Houve um ano que fui com a mãe até Sines e gostei da praia, contrariamente à fama devido aos barcos. Não tem ondulação - gosto.

      Por cá, gosto da praia da Parede e já tenho ido à Costa. Vou mais com primos e amigos até às férias ditas "a valer". Como vai tudo para a linha, as praias da Costa acabam por ter menos pessoas. :)

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    6. Não conheço nem a Parede nem a Costa. A Costa (da Caparica, presumo), tem pouca gente? Nunca fui, mas pela fama, pensei que tivessem uma afluência considerável...

      Não gostei de Milfontes. Muitos catraios para o meu gosto, e muita gente de uma forma geral. No Algarve, gosto de Tavira. Mais a norte, gosto de S. Pedro do Moel (que creio que tem a tua cara, Mark. Procura fotos no google)

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    7. Horatius, a Costa tem gente, mas as praias da linha ainda têm mais e são pessimamente frequentadas. Jamais iria para lá. Nunca fui, aliás. Ainda assim, há praias na Costa mais "desertas". É toda uma extensão. E com colegas e amigos, não dá para ir muito mais longe.

      Milfontes tem gente AGORA! No início dos anos 80, quando os avós compraram casa, era um pequeno paraíso.

      Oh, S. Pedro do Moel também tem imensa gente... Mas que praias não têm? Todas. Está tudo descoberto.

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    8. p.s.: Lembrei-me de outra praia onde costumo ir: praia de Santa Cruz, em Torres Vedras. Também gosto. Para aqui, vou mais com amig@s da mãe.

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  5. Parece-me um bom domingo Mark. O meu foi em casa, sem produzir nada de útil.

    E porque o que escreveste me fez lembrar:
    https://www.youtube.com/watch?v=xpFASRclZpc

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    1. Foi a manhã. À tarde, estudei um pouco e fui passear até à Quinta das Conchas.

      Own, Sérgio Godinho, que delícia. :)

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    2. p.s.: Esqueci-me de acrescentar: Oh, estiveste a descansar. Normal. Trabalhas, bem precisas. :)

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    3. Mark és muito fofinho **** :P Mas eu devia ter feito um milhão de coisas... shame on me!

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    4. Relax... Primeiro o descanso, depois os deveres. :)

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  6. Aproveita o sol.
    A tua terra prometida pode não o ter.
    :P

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    1. Ah, mas não me referia aos países nórdicos. Uma terra qualquer, distante... É a necessidade da mudança. :)

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  7. Foi um bom fds para passear. Tb o fiz, na sexta e no domingo. No domingo passeei junto ao rio, e quebem que soube.
    Só te faltou começar nas corridas; estava à espera de o ler :)
    abc

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    1. Agora com os dias progressivamente quentes, sabe muito bem. :)

      Oh, pois, é a preguiça. :D

      um abraço, sad.

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  8. Olá Mark!
    Aqui o dia amanheceu cinzento e frio de doer a alma. Até gosto do frio, dá pra usar qualquer camisa velha, ou até acordar, tomar banho e vestir a mesma camisa que usou pra dormir...hahah.
    E as pessoas ficam mais elegantes também.
    Abraço ;-)

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    1. Olá Ti@go,

      Os brasileiros gostam muito do frio porque aí há calor o ano inteiro. Mais ou menos como os naturais de países frios: adoram o calor porque estão cansados de temperaturas tão baixas. :)

      Aqui é ao contrário: o Inverno, regra geral, propicia um vestuário mais cuidado. No Verão, quer-se t-shirts, calções, ténis frescos.

      um abraço. :)

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  9. Gostei muito da ternura deste post, a forma como descreveste o episódio do rapaz com o seu avô. E creio que é opinião geral que todos esperamos pelo Verão :3

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  10. É realmente uma postagem primaveril.

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Um pouco da vossa magia... :)