16 de abril de 2014

Educação no Estado Novo.


   A classe política portuguesa, salvo raras excepções, começa a ser conhecida também pelas declarações polémicas, ou pérolas, como queiram, que lá vêm animar um pouco o marasmo, o cinzentismo e até algum obscurantismo que se vive no país mais ocidental da Europa. Desta vez, Durão Barroso, ainda Presidente da Comissão Europeia, que lamentou não ter sido possível "conciliar a democratização do ensino com a exigência e a qualidade", aqui em rasgados elogios à educação nos tempos do Estado Novo.

   Por sorte, e de forma a não ser ainda mais infeliz do que foi, Barroso referiu a democratização do ensino que se conseguiu com o 25 de Abril de 1974. Não sei, contudo, se com democratização Durão Barroso se referia à imparcialidade dos currículos escolares (durante o Estado Novo, o ensino era politizado) ou ao acesso generalizado de todo o povo português ao ensino, obrigatório que é, o elementar, à luz da nossa Constituição.

  Acredito que só Barroso e compinchas sintam saudades do ensino da ditadura. O analfabetismo atingia proporções alarmantes no início da década de setenta do século passado. Ir à escola (nem abordo o ensino superior) era privilégio de poucos, da classe média, média alta, e das famílias abastadas. A esmagadora maioria dos portugueses não foi além da antiga quarta classe. Fora das grandes cidades, embora o ensino primário fosse obrigatório desde a I República, as crianças começavam cedo a trabalhar no campo, ajudando os pais no sustento da casa. Eis uma realidade que Barroso não conheceu, que eu não conheci, os pais não conheceram, nem os avós, mas que qualquer um que reflicta em consciência depressa chegará. Para Salazar, "um povo culto é ingovernável". Palavras suas, não adaptadas. Cada uma foi proferida pelo velho abutre, como perspicazmente Sophia de Mello Breyner apelidou.

   Durão Barroso referiu ainda a exigência dos professores de então. Por lapso, ou não, esqueceu-se dos abusos que vários docentes cometiam naqueles tempos. As crianças aprendiam sob o medo. Era prática comum aplicar-se castigos corporais e humilhações. Não havia disponibilidade nem paciência para os pequenos. O respeito, que se revestia de temor, obrigava-os aos aparentes bons resultados. O povo passava fome. Os petizes iam para a escola mal nutridos e vestidos, doentes.
    É claro que o Estado, contrariamente à opinião de Barroso, deve controlar o que se passa em cada sala de aula, fiscalizar a actuação dos professores, prevenir abusos. O ensino no Estado Novo não era de excelência, caríssimo. O regime abominava a educação, escolhendo a linha bem delineada de educar o povo para ler e fazer contas. Mais do que isso seria entrar num terreno perigoso.


   Salazar não era um homem inteligente. Sendo-o, compreenderia o normal desenrolar dos acontecimentos que se viviam no pós-guerra. Negociaria a independência das províncias ultramarinas à semelhança do que toda a Europa fazia. Evitaria a ruinosa Guerra Colonial que arrastou o país para o isolamento internacional. Apostaria na educação, a verdadeira arma que cada um tem para garantir um futuro melhor. Salazar era um homem mesquinho, tacanho, abjecto. Caetano teria visão, que de nada lhe valeria, esmagado entre as facções mais conservadoras do regime, representadas desde logo pelo Presidente da República, o Almirante Américo Tomás, e a ala liberal, que pretendia a democratização do país.

    No mês em que a Revolução de Abril comemora o quadragésimo aniversário, Durão Barroso não poderia ter começado a campanha eleitoral para as Presidenciais de 2016 de pior maneira. Sim, que o inepto Presidente da Comissão Europeia, o pior de que há memória na Europa, verdadeiro fantoche nas mãos de Frau Merkel, vai iniciando a piscadela de olho pouco dissimulada em solo português. Como os portugueses têm memória curta, para o bem e para o mal, é provável que vingue nos seus intentos. Dois e mil e quatro está lá atrás. Em nome de uma pretensa vantagem que representaria para Portugal ter um Presidente da Comissão Europeia de nacionalidade portuguesa, Barroso deixou o cargo de Primeiro-Ministro e rumou a Bruxelas, mergulhando o país numa grave crise política. Pensou em si, nos seus interesses. É um homem sem sentido de Estado, que não honrou o compromisso que firmou com o povo. O mesmo que agora aspira a Presidência da República, ser o mais alto representante da Nação.

     A minha memória não é curta.

55 comentários:

  1. clap clap clap, ninguém dizia melhor! esse gajo ainda mexe? fds agora quer ser presidente? eu é que não voto nele!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Mexe. LOL Pois, parece que quer. Só o rosto dele me agonia. Será possível que esta gente não pense naquilo que diz?

      Eliminar
  2. Bem, no que é que ele se foi meter... lol

    É a mais absoluta verdade que, "naquele tempo", as coisas no que à educação diz respeito eram pavorosas. Sobretudo para as gentes do interior. Eu vejo isso pela minha própria vivência e pelas pessoas mais próximas que me rodeiam. Não sou, naturalmente, do tempo do "botas", mas os meus pais são, etc.

    Dos meus avós, apenas lidei mais com a avó materna, todos os outros morreram demasiado cedo, mas ela não sabia nem ler nem escrever. Aliás, creio que só o meu avô paterno era alfabetizado. E isto porque, à luz dos tempos, era bem mais urgente trabalhar para sobreviver do que estudar, quando não havia um chavo para isso e os livros passavam de irmão para irmão, a mala/mochila, com sorte, era um saquinho de plástico.

    Conta-me a minha mãe (que fez até à antiga 4.ª classe) que nunca teve livros propriamente seus. Eram sempre ou de um dos irmãos ou de um vizinho que já tinha feito a instrução primária. Tempos difíceis!

    E mais haveria a contar, mas acho que já estaria a entrar demasiado na esfera íntima das minhas gentes e não é o local. xD Podemos, posteriormente, falar disso. :-D


    Abraço, querido Mark!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Claro. A tua família foi vítima do Estado Novo, das políticas de Salazar. Esse homem teve o dom de atrasar ainda mais o país. O atraso de Portugal é secular, vem desde a Idade Média, mas Oliveira Salazar tem grandes responsabilidades. Durante décadas e décadas a fio liderou os destinos do país e nada fez de bom. Na educação, então, foi catastrófico. Seria interessante se Durão Barroso lesse o teu testemunho.

      um abraço, querido Ine!

      Eliminar
    2. Bem, como as minhas gentes, há mais uns milhares bem jeitosos. Eu não consigo conceber (afortunadamente, claro), sequer, como seria aquilo.

      A minha mãe às vezes fala disso. Conta que gostava de andar à escola, que teve pena de ter deixado, depois foi trabalhar, casou, etc etc etc trabalhar para começar minimamente bem a vida a dois e depois, quando deu por isso, já se tinham passado muitos anos e a prioridade passou a ser a educação da minha irmã e depois aqui do Inefavelzinho. lolol

      Quem sabe se ainda não retoma!

      Eliminar
    3. Sim, milhares e milhares de famílias. Ainda hoje o país se ressente. Nas gerações mais antigas temos poucos licenciados.

      Lamento pela tua mãe. É triste ler isso. As crianças gostavam de andar na escola e, num ápice, viam-se obrigadas a sair.

      Se essa for a sua vontade, que regresse. Acho tão bonito. Quando fico na faculdade, de noite, vejo imensas pessoas de quarentas, cinquentas, sessentas e até há casos de octogenários. :'')

      Eliminar
    4. A escolaridade da minha família é semelhante à do inefavel. Os avós São analfabetos, os pais têm a 4a classe, e o meu pai conta que levava porrada todo os dias. Eu sou o 3o licenciado da família, e sou o mais novo da minha geração, sendo nós 15 primos...

      Eliminar
    5. Sim, era o "pão nosso de cada dia" naqueles tempos para muitas crianças, Horatius. :(

      Eliminar
    6. Esta, infelizmente é a história de muitos de nós, ainda. A história da minha família não é muito diferente eu tb fui um dos primeiros licenciados da família.
      Entre barrosos, socrates ou guterres, algum há-de ser o próximo presidente. Custa-me dizer isto, mas espero que seja de esquerda, não por outra qualquer razão, mas em nome da alternância democrática.

      Eliminar
    7. Só vem corroborar aquilo que penso de Oliveira Salazar...

      Sim, sad, se bem que tivemos dois presidentes de esquerda, um imediatamente a seguir ao outro: Mário Soares e Jorge Sampaio. :) Mas concordo contigo e, de todos os que enunciaste, tenho uma simpatia por Guterres para Presidente.

      Eliminar
    8. Desculpem meter a colher, mas já ouvi (apesar de ser apenas uma suposição), que entre tantas hesitações entre todos eles estas eleições poderiam ser um "duelo de senhoras", entre Leonor Beleza e Maria de Belém. Não me chocaria tal, e penso que M.ª de Belém, apesar de não a conhecer muito bem, seria uma pessoa interessante para Presidente.

      Eliminar
    9. Horatius, por favor, não metes nada a colher. Este espaço é livre. :)

      Humm, a ideia não me agrada. Não simpatizo com nenhuma, muito menos com Leonor Beleza.

      Já agora, por que não Maria de Belém e Manuela Ferreira Leite? LOL

      Eliminar
    10. Seria uma ideia, mas continuo na minha, prefiro a Belém à Ferreira Leite! LOL

      Eliminar
    11. Sim, sim, claro. Isso também eu. Perguntei foi o motivo pelo qual puseste o "duelo" com a Beleza e não com a Ferreira Leite. LOL

      Eliminar
    12. Concordo contigo Mark. Dos 3 que referi, de longe Guterres, porque apesar de tudo julgo que é feito de outra massa.
      Quanto ao duelo de senhoras, poderia ser interessante, mas tb não simpatizo especialmente com nenhuma das duas. A de esquerda não é de toda da minha simpatia, e a de direita é proxima demais de Cavaco e esteve envolvida em muitas polémicas no passado (lá está a memória...).

      Horatius, vai na volta ainda sugeres MFLeite e Ana Gomes LOLOL e eu cortava os pulsos :)
      Abc

      Eliminar
    13. O Guterres tem dois "defeitos" para a política: é honesto e íntegro. LOL :) Considero-o "presidenciável" precisamente por isso: é recto, tem sentido de Estado, o que se exige a um Presidente da República. Algo que Barroso desconhece.

      Pois, Maria de Belém não cai nas minhas boas graças, e Deus nos livre e guarde de Leonor Beleza. Totalmente cavaquista e nem todos estes anos conseguiram limpar a sua imagem do triste escândalo dos hemofílicos...

      Ahahah, a Ana Gomes tem a sua piada, mas não a considero "presidenciável". :D

      Eliminar
    14. eu gosto, quero dizer, simpatizo com a elisa ferreira. na ala direita, não há nenhuma mulher que valha a pena.

      Eliminar
    15. Sim, a Elisa é simpática. A Helena Roseta também não. O seu passado social-democrata dá-me ânsias.

      Eliminar
    16. Eu mencionei Leonor Beleza e Maria de Belém porque foi isso que li numa notícia qualquer, ou crónica de opinião.
      Quanto a mim, já sabem para onde eu pulso, e a candidata ideal seria a Odete Santos. :D

      Eliminar
    17. E no Inefável para presidente alguém, por acaso, já pensou?!

      Eliminar
    18. Horatius, não me faças rir a bandeiras despregadas, que estou com uma valente dor de estômago! :D

      Eliminar
    19. Eu gosto da Odete Santos, Horatius. É uma pessoa humilde e séria, além de divertidíssima. Seria uma caturreira tê-la como Presidente. :)

      Ine, acho que não tens 35 anos. :) Só podem ser candidatos os cidadãos portugueses de origem com mais de 35 anos, inclusive, creio. Só a Margarida é "presidenciável", e o sad, talvez. :D

      Eliminar
    20. E é assim que se vandaliza o dia de uma pessoa. :-(

      ahah! beijinhos e abraços, rapaziada!

      Eliminar
    21. eu, presidenta? bem, proponho o regresso do feriado do 5 de outubro. :) viva a república.

      Eliminar
    22. uf. é que estava convencida que tinha sido um dos que foram retirados... assim sendo, não concorro à presidência :D

      Eliminar
    23. Margarida, foi mesmo suprimido. Induzi-te em erro. Eu é que estava convencido que não tinha sido. Podes candidatar-te. :D

      Eliminar
    24. Sim Mark, tb sou presidenciável, mas tb declinaria qualquer convite :)

      Quanto ao Ine, que não desanime, que já tivémos, num passado não muito distante, um lider de um dos partidos que está no governo, que não tinha idade para ser candidato presidencial :)

      abc

      Eliminar
    25. Margarida, Eu voto em ti para presidenta! :D
      E não gostaste da minha sugestão para presidenta? A camarada Odete cilindrava o Cavaco num abrir e fechar de olhos...

      E concordo com o que disseste sobre Odete Santos, Mark!

      Eliminar
  3. Creio que a mulher se enganou a chamar lhe "Cherne", mas sim de "Lontra"

    ahahahahahahahhahahahahahhahahahahahahaha

    ResponderEliminar
  4. ontem, ao fazer zapping, caí na rtp, não na 1, num dos outros canais, e vi esta reportagem: http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=731043&tm=158&layout=122&visual=61

    se tiveres interesse, vê, também, esta página: https://www.facebook.com/antigamentebom
    tem fotos e testemunhos daquele tempo em que era tudo muito bom...

    bjs.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Reportagem tocante, Margarida. Obrigado! Não conhecia e é muito elucidativa.

      Obrigado pelo link da página. Demonstra bem a "bondade" do Estado Novo...

      um beijinho.

      Eliminar
  5. " Salazar não era um homem inteligente. Sendo-o, compreenderia o normal desenrolar dos acontecimentos que se viviam no pós-guerra. Negociaria a independência das províncias ultramarinas à semelhança do que toda a Europa fazia. Evitaria a ruinosa Guerra Colonial que arrastou o país para o isolamento internacional. Apostaria na educação, a verdadeira arma que cada um tem para garantir um futuro melhor. Salazar era um homem mesquinho, tacanho, abjecto."

    Aleluia, Mark, que nunca se te enrouque a voz nem se entropecem os dedos com que teclas!


    O Durão Barroso é, além de tudo o que referes, um grande hipócrita. Cego pela ambição de regressar à cena política nacional, disparou em várias direcções, para tentar capitalizar simpatias à direita e à esquerda, mas o mais que conseguiu foi dar tiros nos pés. Em 74, na altura da revolução, ele era um estudante radical de extrema esquerda, militava no MRPP, e lutava contra a ditadura e contra a educação do fascismo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Nem me lembrei de referir o seu passado no MRPP. Até há um vídeo antigo no Youtube dos seus tempos de extrema-esquerda. É um hipócrita, como dizes.

      Eliminar
  6. Fiquei sabendo que o Salazar era o tirano de Portugal. Ele não é muito falado aqui mas eu sempre fico fuçando rsrsrs as coisas de Portugal na internet :D

    Abraços!!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Fazes bem. :) Também tenho uma enorme curiosidade na história pós-colonial do Brasil, regra geral menos conhecida por aqui.

      um abraço. :)

      Eliminar
  7. Bom, desta vez vou ter de discordar de ti em alguns aspectos. Não que ache que a educação, na altura de Salazar, era diferente da que relataste. Infelizmente essa era a dura realidade da altura.

    No entanto, Salazar era um génio. Não que concorde com o regime da altura, mas certas medidas que tomou foram de mestre. Manter a neutralidade de Portugal durante a segunda Guerra e a reorganização do estado e das contas públicas. Aquilo que hoje deveríamos estar a fazer hoje e ninguém consegue. Em cerca de 10, reduziu para menos de metade a nossa divida externa e muitas das obras públicas que se fizeram desde o 25 de Abril foram inicialmente planeadas durante o seu Governo.

    Quanto à questão das colónias, temos de atender ao pensamento de Salazar e ao pensamento de muita gente da altura, que Portugal só faria sentido se fosse um império. Caso contrário ficaríamos resignados ao rectângulo europeu, fraco, face a uma Europa cada vez mais forte e que sempre havia cobiçado as nossas possessões ultramarinas. E, mesmo hoje, eu partilho a ideia de que não nos deveríamos ter desfeito, às pressas, das colónias. Poderíamos muito bem ter arranjado uma forma de as manter e as tornar independentes, tal como fez a Inglaterra . O que fizemos depois do 25 de Abril, em termos financeiros, foi arruinar o país e devotar os pobres residentes das colónias a anos de guerra civil e à miséria. Ou, mais recentemente a regimes extremamente corruptos.

    Mas enfim, foi o que aconteceu. Todavia, Salazar era um homem com defeitos claro, mas também com virtudes que devem ser reconhecidas. Foi uma parte importante da nossa história.

    Desculpa o tamanho do comentário :S

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Respeito a tua opinião, mas não poderia discordar mais dela. Vamos esmiuçar?

      1. Salazar não era um génio. Portugal não entrou na II Guerra Mundial não por mérito de Salazar, mas porque Franco manteve a neutralidade. O único mérito de Salazar, se é que se pode chamar assim, foi ser um estratega. Ele sabia de que se Espanha entrasse na II Guerra Mundial ao lado do Eixo, a Alemanha invadiria Portugal com receio de que o Reino Unido operasse desde aqui (devido à velhinha Aliança Luso-Inglesa).

      2. Nos primeiros tempos, de facto, reorganizou as contas públicas, MAS não te esqueças de que não havia Estado social: não havia subsídios a pagar, pensões de terceira idade, invalidez, etc. Mais, explorava os territórios do Ultramar, o que ajudava à economia portuguesa. Para obter o equilíbrio orçamental, Salazar criou novos impostos (o que penalizou a classe média numa primeira fase) e, no seu espírito proteccionista e nacionalista, aumentou as tarifas alfandegárias sobre as importações. O suposto "milagre" de Salazar, na verdade, tem raízes na recuperação económica que já se vivia nos finais da I República. Salazar apenas aproveitou o "embalo".
      Na sua "Campanha do Trigo", nos anos 30, só fez disparates: esgotou os solos e produziu fomes. Apostou nas monoculturas, o que foi péssimo para os ecossistemas e potenciou os fogos. Ainda na economia, com o condicionalismo industrial, em que o Estado tudo controlava, limitou a iniciativa privada, o número de empresas que surgiam e novos equipamentos que poderiam chegar. Isto traduziu-se no atraso tecnológico de que ainda hoje o país sofre.

      3. Pois, Portugal só faria sentido se fosse um império, contudo, o Império começou em 1415 e Portugal já existia bem antes. Quando chegámos aos continentes africano e sul americano, já lá havia pessoas, os naturais. "Desfizemo-nos" à pressa das colónias precisamente por culpa de Salazar. Nas tuas palavras encontras a resposta aos teus argumentos. Acaso Salazar tivesse negociado a independência daqueles territórios, tinha-se evitado as independências forçadas que se seguiram ao 25 de Abril, prejudiciais para os recentes países e para os milhares de retornados portugueses. Portugal tinha SEMPRE de descolonizar. Antes ou depois, aqueles territórios pertencem ao seu povo, não aos portugueses. O Reino Unido não manteve as colónias, Rúben. Todas se tornaram independentes. Criou a Commonwealth, mas a independência daqueles países era facto assente.

      Não reconheço "virtudes" em Salazar porque não as há. Reconhecê-las-ia caso as houvesse. Ainda assim, havendo-as, o que fez de mal ao país suplantaria em muito que teria feito de bom. O saldo seria sempre negativo.

      Ora essa, comenta no tamanho e na quantidade que quiseres. :)

      Eliminar
    2. Bem, venho também meter a minha colher aqui, porque se falou num tema que me é muito caro, a Campanha do Trigo. E deste digo que concordo em absoluto com o que disseste Mark. Quanto ao resto, tenho a dizer o seguinte:

      1. Salazar conseguiu equilibrar a dívida pública. Sim. É verdade. E a que custo?
      As pessoas passavam fome. A minha avó conta que quando era pequena (e ela nasceu em plena campanha do trigo, nos anos 30, quando houve superproduções deste cereal), o estado "apanhava" todos os cereais produzidos, e dava umas senhas para as pessoas se abastecerem, que não chegavam a nada, e muitas vezes o pão que iam levantar às padarias com as ditas senhas, não chegava para nada, armando-se verdadeiros motins nas filas do pão, pois este não chegava para metade das pessoas que estavam à porta. Acho que nada vale a pena quando as pessoas passam fome. Muito mais do que ainda a que hoje vemos.

      2. Sobre o "embalo"que Salazar aproveitou, e para reforçar, permitam-me que cite uma "sumidade" na história económica desta época:
      “As dificuldades por que passou Portugal nos anos imediatos à guerra começaram a ser vencidas, todavia, logo a partir de 1922 ou 1923. (…) A definição rigorosa da cronologia dessas reformas permite concluir que o fim da instabilidade financeira, assim como da instabilidade social e política que lhe estiveram associadas, precedeu a mudança de regime político, não tendo por isso sido fruto da ditadura que rebentou em 1926. (...) Se os militares de 1926 e os civis que os seguiram tiveram algum génio, ele foi o de saberem tirar proveito de uma conjuntura favorável para consolidarem o seu poder.”
      Pedro Lains, "Os Progressos do Atraso: Uma Nova História Económica de Portugal".

      3. A questão colonial, acho que se pode aplicar o provérbio "Quem tudo quer, tudo perde". Tivesse sido negociada no tempo devido a questão das colónias, e teríamos saído sem os impactos que saímos. Em 1974 imperava arranjar uma solução rápida para por um ponto final na guerra. Boa ou má, não interessava. Era preciso era acabar com ela.

      4. O que de mais perto reconheço como virtude a Salazar foi o não ter metido ao seu bolso pessoal o dinheiro do estado, não o delapidando como hoje faz a maioria dos nossos governantes. Mas isso não é bem uma virtude. É o cumprimento da sua obrigação.

      Eliminar
    3. Obrigado por reforçares tudo o que já havia dito, Horatius. :)

      Eliminar
    4. Sem querer entrar numa discussão acesa contigo, e parecer que estou aqui a fazer uma apologia ao estado novo, pois não era de todo a intenção, não posso deixar de te responder mais uma vez. Noto que eu não sou fã do estado novo, nem tampouco concordo com esse tipo de regime. Apenas acho que todas as pessoas tem aspectos bons e maus.
      Quanto aos pontinhos:
      1. Portugal não entrou na 2ºGuerra tanto por mérito de Salazar como de Franco. Enquanto um negociava de um lado outro negociava do outro. Franco empatou Hitler, Salazar garantia junto dos aliados a neutralidade Espanhola. Logo foi um mérito dos dois.
      2. Sim, o milagre económico, foi conseguido pelo aumento de impostos mas também por um controlo muitíssimo rigoroso dos gastos público. Não nos podemos esquecer que quando Salazar entrou pela segunda vez no governo, Portugal precisava de dinheiro e ninguém nos quis emprestar esse dinheiro. Mais, Salazar de inicio acredito que tenha controlado a iniciativa privada, mas no final os projetos dele estavam a criar as bases para essa iniciativa florescer. Quanto à agricultura, de facto foi um fracasso.
      3. Sim, o que quis dizer é que concordo que teria sido bastante melhor se ele tivesse negociado a independência das colónias. Se calhar não me expressei da melhor forma. No entanto, para se entender as decisões que ele tomou é necessário atender-se ao contexto da altura. E na altura o contexto era Portugal com império para não ser absorvido por Espanha. O império dava-nos poder para manter a independência.
      Repito que não tenho intenção, de fazer nenhuma apologia ao salazarismo, mas temos de reconhecer o bom e o mau da nossa história. ;D

      Eliminar
    5. Bem estou a ver que comecei aqui uma guerra politica e não era de todo essa a intenção. Devia ter ficado caladinho.

      Mas repito, não estava a fazer nenhuma apologia ao Estado novo.

      Eliminar
    6. Rúben, não há discussão nenhuma. As pessoas podem e devem debater as ideias saudavelmente e com respeito. Guerra? Please, longe disso. :) Mesmo que fizesses apologia ao Estado Novo, estarias no teu direito.

      Mantenho o que disse. Salazar foi um estratega. Não interessava nem a Franco e nem a Salazar a entrada dos países ibéricos na II Guerra Mundial, mas, se Espanha tivesse entrado, Portugal entraria por inerência e nem todas as negociações de Salazar o evitaria. A decisão esteve nas mãos de Franco. Salazar, como bom hipócrita, comercializou com o Eixo e deu apoio logístico ao Reino Unido. Não seria suficiente para evitar uma invasão - que até teria sido útil - se Espanha se aliasse à Alemanha. E Franco era próximo de Hitler.

      Mas não houve "milagre" nenhum de Salazar, Rúben. A recuperação económica já se verificava nos últimos anos da I República. :) Pois, controlou tanto os gastos públicos que o povo passou fome por décadas.
      Salazar foi mudando a sua política do condicionamento industrial, mas o "florescimento" da economia acompanhava o crescimento económico que se verificava lá fora até à crise petrolífera de 1973. Mais uma vez, consequências dos "ventos" internacionais. Foi um crescimento generalizado em vários países. Assim mesmo, a emigração foi altíssima. O povo vivia na miséria e via-se obrigado a deixar o país. E não te esqueças da Guerra Colonial que começava a "pesar" no PIB.

      Pois, por não se entender o contexto da época, em que TODOS os países da Europa já tinham descolonizado, é que as ideias absurdas de Salazar ainda fazem menos sentido. Absorvido por Espanha, não sei como. A economia espanhola não era lá muito saudável e nunca houve esse perigo, pelo menos não desde os finais da II Guerra Mundial. Falou-se de uma possível invasão, mas já depois da Revolução, com medo de que o comunismo vingasse.

      Eliminar
    7. Bem vamos ficar assim... se não isto nunca mais acaba. Cada um de nós têm direito a sua opinião e cada uma tem o seu valor. ;D

      Eliminar
  8. Não entendo nada de política de Portugal, mesmo assim , curti o post.

    ResponderEliminar
  9. A minha também não Mark. E estarei na linha da frente para o desmascarar.

    ResponderEliminar
  10. Eu tenho é pena que os miúdos de hoje não aprendam coisas úteis...deviam começar a desenvolver hábitos de leitura desde pequeninos. A terem que estudar sobre o meio que os rodeia - geografia, por exemplo - tal como era no meu tempo. E a História, essa, devia ser dada de forma linear, não andarem a saltar Tempos, Eras e Épocas conforme os anos de ensino. Mas pronto, isto é só o que eu penso...

    Beijinho :3

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Os hábitos de leitura é algo compete aos pais. Mas nós vemos como os portugueses são: levam as crianças para o Marquês de Pombal para comemorar o título de campeões, mas são incapazes, a maioria, de lhes transmitir bons exemplos. Preferem uma tarde num estádio do que num museu ou na sala da casa a ler um livro, ver um programa didáctico, conversar!

      Os sucessivos governos não apostam no ensino da História. É perigoso suscitar nos miúdos sentimentos patrióticos. Além disso, o que lhes interessa são as ciências exactas, tudo o que envolva números. Isso sim, para eles, "dá futuro". Estudar História, Filosofia, etc, é uma perda de tempo.

      um abraço. :)

      Eliminar
    2. Realmente, pensando bem...eu comecei a ler desde pequenino porque os meus avós deram-me livros para ler desde terna idade. Quando cheguei à escola primária já sabia ler e escrever, apesar de ter sérios problemas de caligrafia, naqueles cadernos de 2 linhas, ahahah! Ainda sofri por ser canhoto, a minha professora batia-me nas mãos e punha-me de castigo e queria-me obrigar a escrever com a mão direita...Quanto ao resto, subscrevo completamente o que disseste. ^^

      Eliminar
    3. Claro! O empurrãozinho em casa é fundamental.

      Que professora horrível! E já muito depois do 25 de Abril. Intolerável! Eu sou destro, mas, caso fosse canhoto e passasse por isso, coitada dela: à primeira vez, faria LOGO queixa à mãe. Era muito queixinhas. :p

      Eliminar
  11. Foi um pedaço de discurso de Durão Barroso, verdadeiramente lamentável.
    É inconcebível como este sujeito está a ocupar o cargo actual, sendo uma pessoa politicamente de interesse nulo, com um percurso anterior na vida pública nacional imensamente nebulosa, que começa no apoio juvenil ao MRPP até ser PM por um partido de direita (de social democrata só tem o nome) e depois cobardemente foge, encontrando um "El Dorado" lá fora. Eu chamar-lhe-ia enguia em vez de cherne...
    E agora pretende, já que o tacho lá fora, está a acabar, arranjar outro tacho, cá dentro.
    Mas parece que lhe vão sair mal as contas, pois Marcelo está mesmo interessado em ser o candidato da direita às presidenciais e quando MRS de fixa numa ideia não abdica dela e vai até ao fim...
    Resta saber se o povo português que não é tão estúpido como parece, concordará em ter de novo em Belém um PR da direita depois de presidentes de esquerda muito bem sucedidos.
    Achei muito curiosa a troca de nomes nos comentários aí em cima, e parece-me que os "defeitos" que Guterres teve como PM - principalmente ter sido demasiado conciliador, se podem transformar numas eleições presidenciais como trunfos.
    Uma palavra sobe a "inteligência" de Salazar; concordo totalmente contigo na tua análise do sujeito e na tua argumentação quanto aos factos apontados como indiciadores da sua inteligência.
    Salazar persegue-nos, não só com 40 anos de ditadura e de atraso premeditado do nosso povo, mas também hoje como um fantasma que de quando em quando é "mostrado". Curioso que haja jovens que nada saibam sobre o 25 de Abril, mas "conhecem" Salazar e não se coíbem até de afirmar que ele "faz cá muita falta" - gostava de os ter visto a viver naquele tempo...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. "Enguia" parece-me muito propositado, ahahah. :)

      Marcelo é simpático, mas não nos podemos esquecer de que é de direita. Candidatando-se, sinto-me tentado em votar nele, embora saiba que tenho de manter a lucidez: é um homem conservador. Veremos quais serão os candidatos. É uma eleição importantíssima. São dez anos - sim, que eles ficam sempre por dois mandatos.

      Caso Guterres se candidatasse, o meu voto iria direitinho para si.

      Salazar era tudo menos inteligente.

      Eliminar

Um pouco da vossa magia... :)