31 de agosto de 2013

Quando a noite cai.


    Há dias, o P. falou-me de um espectáculo do Herman, perguntando-me se gostaria de assistir. Visto que sou fã do humorista, e uma vez que nunca o vira ao vivo, aceitei de imediato, não negando que o fiz também para poder desfrutar da sua companhia. Ele é daquelas pessoas que está sempre informada das últimas exposições, das peças de teatro mais recentes, das óperas... O seu lado erudito, contrastando em parte com a maioria dos jovens da nossa geração, faz com que tenhamos algo mais em comum. Este show do Herman teria uma peculiaridade engraçada: realizar-se-ia dentro da estação do metro da Baixa-Chiado, outro dos motivos que me levou a dizer sim. Achei caricato. Humor, estação de metro, situações completamente inusitadas, noite amena de Verão, eu e ele... bons motivos.

   Combinámos às dezanove, à superfície, do lado da Brasileira. Como ainda era bastante cedo, descemos aquelas ruas e ficámos na praça em frente à Faculdade de Belas-Artes. Deu para conversarmos, incluindo sobre as nossas últimas idas à praia e até acerca da refeição a dois, já esta semana.
   Gostei de o ver. Envergava uns calções de linho, de um amarelo claro. O tronco desnudava-se numa t-shirt de fino tecido, quase transparente, deixando sobressair o seu peitoral. Os ténis completavam o conjunto, cor de palha, sóbrios. Dissera-me para lanchar algo consistente. Estaríamos muitas horas à espera, a par da duração do evento. Suspeitando, e com razão, de que não comeria, surpreendeu-me com um pequeno tupperware que transportava no saco que trazia às costas. Nele, uns pastéis de bacalhau deliciosos. Comi um no imediato.

    Aproximando-se a hora, subimos e voltámos à estação. Num canto, um separador demarcava a zona em que o Herman actuaria do corredor que continuaria acessível aos utilizadores do metropolitano. A empresa não fechou aquela saída, pelo contrário; a graça estaria aí. No chão, pequenas almofadas serviriam para que nos sentássemos. Pouco depois da hora marcada para o início (vinte e uma e meia), o Herman chegou cantando uma das músicas do seu repertório. Ao longo de sensivelmente uma hora, deleitou-nos com todo o seu talento. Ironizou com as figuras da nossa televisão, do dito jet set. Personificou várias das suas criações, homenageou o amigo Carlos Paião e interpretou algumas das cantigas que marcam a sua carreira. Senti, apenas, que as piadas se tornam recorrentes. Reconheci várias através de vídeos que vou assistindo no youtube. Olhando em meu redor e para trás, o perímetro estava repleto. Na parede do lado contrário, dezenas de pessoas assistiam, encostadas. Não conseguiram lugar a tempo.

   Terminado, descemos a Rua Augusta em direcção à Praça do Comércio. Não estivesse ele do meu lado e morreria de medo. Nunca tive o hábito de andar pela cidade de noite e, assumidamente, só vejo algum encanto no Chiado desde os últimos meses. Talvez por ser alfacinha, andar por ali ou ir à loja dos doces comprar umas gomas é-me completamente igual.
   Fomos abordados por traficantes várias vezes. Não entendo como é que a polícia permite a venda de estupefacientes assim. É uma situação do conhecimento de todos. Facilmente se resolveria com o destacamento de uma patrulha de alguns policiais por ali.

     A praça peca por iluminação insuficiente. Ainda não tivera a oportunidade de apreciar a estátua de D. José de perto. Assim mesmo, sendo noite, deu para perceber que mantém a cor verde, horrenda. A pedra que a sustém, sim, adquiriu uma brancura apreciável.
    Dirigimo-nos até à parte mais recente da Avenida das Naus, onde descansámos, sentados, apreciando a beleza do rio e das luzes da cidade que se reflectem no seu leito. Num feixe, a luz do Cristo-Rei e as várias, brancas, que compõem a ponte 25 de Abril.
   Esfriou. Prontamente, o P. tirou um pequeno casaco do seu saco e colocou-o sobre as nossas costas. Aproximámo-nos e assim ficámos, juntos, sob o seu resguardo. Trocámos uns beijos, aproveitando a escuridão e o anonimato que ela nos proporcionou, e tivemos absoluta noção de que estávamos a viver dos momentos mais significativos da nossa amizade. Não gosto da palavra romantismo.

    Perto da meia-noite, saímos. Sem nunca me deixar, acompanhou-me até à estação do metro, pedindo que, logo que chegasse, o avisasse por sms. Regressou sozinho até à Praça do Município. Deixara lá a sua bicicleta. Não que me agrade que ande sozinho de noite, todavia, ele está habituado e certamente saberia defender-se melhor do que eu.

     Não se esforçando, fez desta sexta-feira uma das mais especiais que já vivi.

33 comentários:

  1. Não gostas da palavra romantismo, mas eu gosto. Que romântico Mark. ^^

    Um grande abraço

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    1. Sim, ele é muito dado a miminhos e carinhos, e ainda bem! :D

      abraço grande, Ricardo!

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  2. Estás a viver uma das histórias mais curiosas e bonitas que conheço aqui na blogosfera. É muito bonito e ternurento ver-vos assim, a descobrir esse sentimento tão simples e tão doce chamado Amor! ^^

    Hughie :3

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    1. João, eu tento ser sensato. Sei que isto pode terminar a qualquer instante. Não tenho mais dezasseis anos (a idade em que todas as paixonetas são amores para 'todo o sempre'). Claro que estou a gostar, claro que me sinto bem, mas não perco o pé. Isso de certeza.

      abraço. :)

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  3. Aproveita cada minuto, cada momento ;)

    Abraço Markito ;)

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    1. É isso que tenho feito, Francisco. :)

      abraço. :)

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  4. Oh...
    O Mark a comer de um tupperware... Se isto não é amor, não sei o que é.

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    1. Bela observação! xD

      Pior, sentado sobre uma almofada minúscula, no chão do metro, rodeado por duas mulheres e um homem descalços e estendidos. LOL

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  5. Só soube desse evento já demasiado tarde... :( Estes últimos dias têm sido de loucos e não tive tempo para nada. Enfim, outros virão!
    E o que eu gosto de um pastelinho de bacalhau!! Olha, se eu também tivesse ido, saberias logo que era eu porque fisgava o tupperware e não tirava os olhos! :D~~~~ loool
    Ah, e como disse no meu blog, não me chamo João coisa nenhuma. xDD

    Abraço :)

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    1. Foi muito giro. Com certeza terias gostado. :)

      Não comia um pastelinho de bacalhau há imenso. Na verdade, o pastel pouco importou; a atitude, tudo. Ahahah, ainda sobraram!

      Então, pronto, voltas a ser o Inefável porque até simpatizei com o nome, ahah. :D

      abraço. :)

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  6. É importante ter os pés nos chão, porque nunca sabemos o que podemos esperar dos outros (os "calos" dizem-me isto, infelizmente), mas sinceramente não me parece que seja o caso do teu P.

    Vive cada momento e sê tu mesmo porque esse rapaz parece ser encantador :)

    Mas não nos venhas falar em momentos significativos da vossa amizade com beijos no escuro à beira Tejo com casaquinhos pelas costas, porque nós também já não temos 16 anos :)

    Um grande abraço e muitas felicidades.

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    1. É-o, efectivamente. Tem sido um anjo. Modéstia à parte, sei que mereço porque correspondo de igual modo. :)

      Sim... :) Bom, a verdade é que não temos nenhum compromisso um com o outro, daí a amizade. Não será uma 'amizade' nos moldes tradicionais.

      Muito obrigado, sad, e um abraço grande. :)

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  7. Que Romântico! Fiquei petrificado a ler!

    Li pelo menos umas três vezes!

    Aproveita bem cada segundo deste romance!

    Eu sei que vocês não tem nenhum compromisso, mas eu francamente acho que ambos estão mais comprometidos do que vocês mesmo imaginam!

    Abraço

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    1. Tenho consciência de que foi algo realmente bonito.

      Sim, tenho tentado aproveitar. :)

      O meu único compromisso, neste momento, é o de viver o que puder ao seu lado.

      abraço. :)

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  8. Awww *.* Não consigo escrever mais nada. É.. Speechless.

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    1. É... como já disse acima, reconheço que vivi momentos lindos naquela noite. :')

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  9. :) está tudo dito. o 'teu' rapaz é muito romântico e cuida bem de ti.
    eu sabia desse espectáculo do HJ, mas não deu mesmo para ir.
    tu vives em lx, deves aproveitar mais estes eventos gratuitos. leva o P às 'fitas na rua', aos concertos, ao jazz, há muitos sítios giros! aproveitem bem.
    ah, e ao teatro também ;)
    bjs.

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    1. O Herman é um excelente entertainer. Canta, toca, faz piadas, improvisa. :) Apenas acho que deveria inovar... já conhecia a grande maioria.

      Eu não ando tão informado sobre os concertos e espectáculos. Deixo isso com ele. :)

      beijinhos.

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  10. Como diz e bem o Alex, só algo muito especial te faria comer pastéis de bacalhau, sacados de um tupperware...
    E que te lê desde há muito, como eu, seria algo impensável há uns anos atrás...
    E quem te disse a ti que é com 16 anos que se têm paixonetas? Estás muito enganado...

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    1. Foi uma atitude que me surpreendeu e colocou um sorriso na face. :)

      Acredito que sim, mas a partir dessa idade já não temos desculpa se nos magoarmos. :D

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  11. r: obrigado Mark, mas acho que preciso mais do que força.

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  12. Que ternura Mark *-* O P. é mesmo muito querido.

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  13. A forma como ele te trata revelam um cuidado e uma atenção fantásticas. São essas pequenas coisas que tornam tudo tão especial. Fico muito contente por ti e espero que a vossa amizade cresça e se torne cada vez mais forte. :)
    Grande abraço Mark.

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    1. Sim, se ele não fosse assim, jamais me teria cativado. :)

      Obrigado, Arrakis!

      abraço grande! :)

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  14. seu texto ficou muito bom, as descrições, as estórias, vou ler mais!

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Um pouco da vossa magia... :)