25 de junho de 2013

Santos.


    Há anos, naqueles momentos de que nos envergonhamos mais tarde, sobretudo na adolescência, tinha uma aversão a tudo o que fosse popular. Sentia quase que um desprezo pelas tradições, não as compreendendo, por certo. Sei que estava errado. Qualquer país é composto pelas suas crenças, folclore, seculares na sua imensa maioria. Os santos populares são mais do que uma tradição portuguesa. No Brasil, são comemorados exaustivamente, onde o calor e a receptividade aumentam à lupa o que se faz deste lado do Atlântico.

     No último domingo, fui com a mãe e uns tios a um almoço num dos bairros típicos da capital. Pude apreciar a decoração que envolvia aquele espaço, o aroma dos manjericos que uma senhora de idade avançada vendia numa barraquinha protegida pelo sol. Na rua, em frente ao restaurante, um rapaz da minha idade grelhava as sardinhas, salpicando-as com sal. O barulho do peixe a tostar, envolto na salinidade, era perceptível a metros de distância. Casais com filhos aguardavam a sua vez à porta do estabelecimento. As mães impacientes pela demora; os pais procurando controlar os ímpetos das crianças que agiam de acordo com a sua natureza, correndo aos ziguezagues em torno das fileiras de árvores que se erguiam por todo o largo. O empregado, de travessa na mão, entrava e saía numa azáfama entre o fogareiro e a cozinha.
   Observei as bandeirolas dispostas através das casas que envolviam a praça. Várias, coloridas. Consegui apreciar a beleza nas coisas simples e fui tomado por um sentimento estranho de leveza e pertença. Afinal, não sou tão diferente quanto julgava e há mais de mim por aí do que poderia supor. Aprendi que é possível ser feliz com pouco e descobri algo que é inteiramente da responsabilidade da avó materna: a sua ambivalência que a enriquece e a torna tão especial.

    Depois do almoço, recheado de conversas sobre o meu futuro e sobre os momentos decisivos que não tardam, passeámos pela imediações e o tio comprou-me um manjerico, o segundo da minha parca existência. O primeiro não durou muito, vejamos se este tem outra sorte. 
    Disseram-nos que haveria arraial à noite, com direito a tudo, incluindo música popular. Os tios e a mãe sorriram. Têm as suas personalidades vincadas e definidas. Não consigo ver a mãe a dançar num coreto com José Malhoa a passar e uma bifana nas mãos. Eu, enfim, estou aberto às novidades e a crescer, podendo isso implicar descobertas. Viver é conhecer um pouco de tudo, de forma decidir-se em consciência. Quem sabe um dia. :)

16 comentários:

  1. Pode crer kkkk aqui as festas juninas são a perdição de todo mundo :D Eu curto muito, acho interessante e por um acaso até sabia que tinha origem aí em Portugal.
    Eu acho que como vc falou, vc tá crescendo, amadurecendo.. aí, curtir se divertir em uma festa mais popular se torna algo prazeroso.. tem que aproveitar isso! a juventude passa rápidoo!

    Abraços!!

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    1. Como eu referi ao comentar estas festas populares com outra pessoa, os portugueses levaram para o Brasil as suas tradições. Era uma forma de diminuir as saudades. É muito curioso, mas há topónimos brasileiros iguais aos portugueses. Recordo-me de ver que no Brasil há um lugar (não sei se cidade, vila, aldeia) chamado Bragança. Ora, no norte de Portugal há uma cidade com esse mesmo nome. :) E há mais casos!

      Não fosse o maldito D. Pedro IV (I do Brasil) e ainda poderíamos ser um Reino Unido... :'D


      abraço. :)

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  2. Claro que sim, numa mão: Pão com uma sardinha assada e na outra uma cerveja ou ginja. Nada mais típico dos santos populares...

    Não podemos morrer sem experimentar algumas coisas ;)

    Abraço amigo

    P.S- As festas terminam no final de Junho, ainda vais bem a tempo :D

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    1. Ahah, sim. :D Esqueci-me de referir que não comi sardinhas (não gosto). Sou abstémio, por isso, bebi suminho. :P

      abraço. :)

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  3. canso-me um bocado destas festas, porque há milhares de pessoas aos empurrões, aqui será a 29, no dia de s. pedro. é por esta altura que na aldeia se realizam, igualmente, os bailaricos e que quando entras no recinto de dança, há serradura no chão e te carimbam a mão (e rimou). e é um mundo tão irreal que só entramos na festa, porque tem um espaço e um tempo próprios e sabemos que no dia seguinte voltamos à nossa realidade chata e previsível.
    olha, o manjerico é para fazer festas com a mão e cheirar ;)
    bjs.

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    1. Pois, nós fomos apenas almoçar a um bairro típico. Não me imagino por lá, à noite, aos empurrões. :D Talvez até gostasse e me divertisse. Pelo menos, dá para descontrair do quotidiano. :|

      Sim, isso eu sei, ahah. :D Nada de cheirar directamente! :D

      beijinhos.

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  4. É sempre bom saíres e divertires-te. Tens andado demasiado desagastado com os exames e afins, pelo que um pouco de diversão vem mesmo a calhar! ^^

    Abraço :3

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    1. É verdade, apesar de ter ido com a mãe e os tios (monótonos xD).

      abraço. :)

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  5. Quando era novo também sofria de uma certa aversão e novo-riquismo, assimilado, pelo popular e popularucho. Com a idade fui percebendo que a diferença é ilusória, que importa divirtirmo-nos, que não importa como cada qual se diverte, e que o desdém esconde, na sua maioria, inveja de quem se diverte sem vergonha e sem pré-conceitos. Eu até posso identificar-me pouco com uma festa popular. Nem sequer gosto de sardinha. E nem mesmo uma vida vivida no campo me aproxima desse gosto. Mas se um grupo de amigos meus se reunisse numa, eu nem pestanejaria em aceitar em ir para a 'rambóia' popular.

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    1. Há pessoas que, de facto, não gostam de determinados ambientes e nem sempre isso significa que tenham inveja ou preconceitos. Exemplo: não gosto das festas universitárias regadas a álcool e garanto-te de que não tenho inveja absolutamente nenhuma. Lol :D

      Eu, quando era mais miúdo, gostava de dizer mal de tudo e de nada, daí a minha 'aversão' ao 'popularucho'. Hoje em dia, continuo a não gostar por aí além, mas já não torço o nariz quando vejo alguém a comer uma sardinha no pão. :D

      Concordo que o que importa é a diversão saudável e a alegria, seja onde for.

      abraço. :)

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    2. Tu precisas de apanhar uma bebedeira. Uma 'carraspana' tão grande que despenteie o cabelo. É uma urgência interior. Pensa nisso, e depois liga-me.

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    3. Já viste: uns precisam de deixar a bebida; outros de apanhar bebedeiras. :) Como o ser humano é complexo!

      Agora mais a sério, não creio que necessite de 'apanhar uma bebedeira'. Julgas-me como o 'menino certinho'. Talvez seja, talvez não. Não faço nada nesse sentido, nem no sentido oposto. Estudo, aplico-me, mas também sei divertir-me. Nem todos os jovens precisam de se entregar ao primeiro que aparece, cometendo loucuras e bebendo até cair. Alguns não precisam disso nas suas vidas e posso dizer que me incluo nesse grupo. É evidente que tenho problemas, todos temos, contudo, vou vivendo os meus dias como sei e posso. :)

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  6. Também não acho grande "piada" a estas festas. Mas claro que compreendo que são tradições e respeito-as.
    Mas parece-me que ficaste foi de olho no rapaz das sardinhas :p
    abc

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    1. Por acaso até era giro, ahah. :D

      abraço. :)

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  7. Já gostei muito desses festejos populares e grandes noitadas passei em Alfama.
    Agora quero é pz e descanso.
    Mas daquilo que de ti conheço, penso que o Alex tem razão: tu precisas mesmo de uma "borracheira" que pode ser no sentido real do termo mas também no sentido figurado.
    Tu viveste anos e anos dentro de uma redoma, super protegido e pouco sabes das coisas reais da vida. Certo que começaste a "acordar" quando foste para a Universidade, mas ainda estás um pouco crú e precisas de experiências novas, coisas diferentes para te prepararem para um mundo que não necessita apenas de estudos e de cultura. Precisa também de experiência de vida, pois tu na tua vida vais ncontrar muitas situações para as quais nao estás minimamente preparado e isso pode ser perigoso para ti, pois podes vir a se confrontado com situações chatas, e por tipos sem escrúpulos.
    O mundo está cheio de oportunistas e há que saber estar preparado para os enfrentar.
    Só para te dar um exemplo e que é importante, tu continuas a olhar os sentimentos afectivos, estou a referir-me ao amor, claro, de uma forma perfeitamente platónica.
    Tens que encontrar uma pessoa para compartilhar a vida, e não estou a dizer para pores anúncios ou ires deliberadamente à procura de sexo, mas dever estar receptivo a essas coisas que são fundamentais num ser humano. Quer para um homossexual como para um heterossexual.
    estás a dar passos, mas pequeninos, tens que começar a aumentar a passada...

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    1. Obrigado pelo teu comentário, João. És sensato, ponderado, e muito assertivo, deixa-me que te diga. És um observador atento do mundo e das pessoas. Curvo-me perante isso.

      O que mais poderei dizer? Tens razão em tudo o que escreveste, excepto numa coisa: na receptividade. Eu estou 'aberto' ao que possa surgir, assim me mereça a confiança e valha o risco. :)

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Um pouco da vossa magia... :)