8 de dezembro de 2012

Mediatismo.


   Não gosto de ser usado num jogo que não escolhi, logo, consequentemente, não gosto do suspense em torno das últimas semanas de aulas. Persiste, pelos corredores, pelas salas, pelos átrios, uma atmosfera gélida, desconfortante, tenebrosa. Ouvem-se histórias que não lembram à mente mais imaginativa, como, recordando-me de uma das mais insólitas, notas negativas corresponderem à ausência de presentes de Natal. Estou numa faculdade? A sério?

   Os semblantes revelam desconforto e cansaço. Não é fácil manter o ânimo e a vivacidade quando avalanches de testes caem sobre comuns mortais. Pergunto-me se há saúde que resista a tanta pressão. Daqui a décadas, quando as mazelas da idade começarem a revelar-se com todo o esplendor, duvido que se imputem responsabilidades à tortura em forma de estudo que se pratica em alguns estabelecimentos de ensino superior.

- Mark, parabéns!

   Olho para a folha de teste. Impávido. A colega do lado, pretensa amiga, também olha. 

Boa! - exclama.

   Se esperavam que desse pulos de contente, desiludiram-se. Aliás, o único mérito de ter sido a nota mais alta da turma, onde houve apenas quatro positivas em mais de vinte alunos, reside no facto de ter conseguido resistir à máquina compressora chamada avaliação. A felicitação, mais do que constrangedora, revelou-se ímpia. Fosse professor-assistente e evitaria comentários de boas ou mais intenções. Devo dizer que a prática do "Parabéns", da última vez que a ouvira, remontava ao primeiro ano. Felizmente, desde lá, o bom senso tem levado a melhor.
   A correcção foi igualmente um suplício, com sistemáticas comparações ao que escrevera. Depois, o olhar terno e benevolente da assistente para mim, tendo, à sua frente, pessoas destroçadas. Uma miúda a chorar ao fundo. A insensibilidade no seu auge.
   Parabéns!, conseguiu ser execrável.

21 comentários:

  1. no momento em que acabei de te ler, senti-me impotente. impotente e zangada por viver num mundo muito mau, onde os sentimentos são aniquilados desta forma, a humilhação, a lei do mais forte, pisar tudo e todos, sem olhar a meios, é o que perdura.
    e por uma nota má, há tanto tempo, não tiveste direito a presentes, ainda me custa mais. só te conheço de te ler, bem como à tua família, mas não consigo compreender como alguém como tu, sempre excelente aluno, conseguiu passar por essa experiência má. quero dizer, não o facto de teres tido negativa (o que já de si é uma excepção e o castigo de a teres recebido foi te teres sentido muito mal), mas a recompensa foi não receberes nada no natal. deviam conhecer-te mais, os teus pais...
    sei que és muito especial, Mark. não te deixes ir abaixo. este mundo só faz sentido com pessoas como tu, ainda se vêem, poucas, mas elas estão aí.
    bjs.

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  2. Margarida: Oh, querida, agradeço imenso as tuas palavras, mas o mesmo não aconteceu comigo! :) Eu referia-me a alguns colegas que, tendo notas negativas, não receberão presentes. Aliás, desde o primeiro ano que tenho colegas que o dizem. Há pais que, pese embora os filhos sejam adultos, continuam a "castigá-los" como se fossem jovens púberes. :s Daí as minhas interrogações:

    "Estou numa faculdade? A sério?"

    Os pais, felizmente, nunca foram assim! Ai, graças a Deus! Lamento tanto por esses colegas... :|

    Pegando nas tuas palavras iniciais, vivemos de facto num mundo muito mau, muito cruel. E, mesmo na faculdade, estamos lançados aos lobos, sobretudo na minha. É uma máquina trituradora.


    beijinho grande :*

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  3. ah, ainda bem! assim, retiro o q disse sobre a tua família. bjs.
    (ps, a batá está a deslizar pachorrentamente pela sala, ela não hiberna, tem mimo a mais, só me quer.)

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  4. gostei muito do teu bolg , mas a verdade é que não tenho a mesma opnião que tu (como poderás ver nas minhas mensagens , se visitares o meu blog), contudo acho que é isso , as diferente opniões e as diferenças de cada um que tornam o ser humanos tão único , beijinho *

    /Anonymous Girl .

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  5. Margarida: A minha sempre hibernou. Todos os anos, por volta de Outubro, hiberna. Fica mais ou menos quatro meses sem comer, apesar de apanhar os seus banhos de Sol e de se manter "espertinha". :) Creio que não devem ser da mesma raça. :D

    bjo. :3


    Rapariga Anónima: Com certeza! O que se quer são opiniões diferentes. ^^
    Creio que te referes não a este texto, que não tem nada de opinião, mas a alguns artigos que escrevo. ;)
    bjo. :3

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  6. Que falta de sensibilidade da tua professora-assistente!
    É triste notar que pessoas supostamente 'cultas' como ela são de uma pobreza de espírito constrangedora.

    Gostei muita da postura que revelas neste teu texto. =)

    Abraço.

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  7. Arrakis: ... nem todos os graus académicos conseguiriam esconder a má índole. Alguns há de insuportável arrogância e presunção.

    abraço :3

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  8. Claro que ela podia ter sido mais sensível às diferentes realidades que a cercavam. Ainda assim, penso que não tens de te sentir mal por teres tido uma boa nota. É de felicitar. E tu decerto mereceste.

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  9. Speedy: Obrigado! Perdoem-me a imodéstia, mas sei que foi merecida. Estudei que nem um louco para este teste! Sabia de antemão da sua dificuldade (acrescida com os métodos de correcção desta assistente...), por isso, dediquei-me especialmente.

    abraço :3

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  10. A avaliação, quanto a mim correcta, que aqui fazes da assistente, decerto não lhe daria razão para receber parabéns.

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  11. João: Com absoluta certeza... Fui irónico. A senhora até é simpática, mas às vezes tem surtos de altivez e arrogância...

    abraço :3

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  12. Naturalmente que estás de parabéns, e a irónica felicitação da professora também é merecida :)
    (A senhora nem merece mais comentários)

    Quanto ao colega (adulto!) que não receberá presentes se não tiver boas notas... Nem sei quem é mais condenável: se os pais, pela atitude; se ele, por não ter o bom-senso de deixar esse assunto em casa...

    Abc

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  13. sad eyes: Obrigado, honey! :)

    Sim, tenho de concordar, mas, sabes, ainda somos jovens adultos. :) Digamos que a infância e a adolescência não estão assim tão esquecidas. Além disso, a maioria de nós depende economicamente dos pais. Então, critico mais a atitude destes do que propriamente a confissão dos filhos. É quase um desabafo. Deve ser triste. :|


    abraço :3

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  14. Mark,

    Abraço de Parabéns pela nota...

    Não te esqueças que por vezes os professores assistentes são os mais arrogantezinhos...

    Quanto ao resto... Enfim,

    Abraço amigo :3

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  15. Francisco: Eu diria até o seguinte: regra geral, os assistentes são os mais arrogantes porque necessitam de evoluir nas suas parcas e insípidas carreiras! Mas, na minha opinião, quem tem valor consegue-o mantendo a serenidade! ;)
    Obrigado! :)

    abraço :3

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  16. Por falar em assistentes arrogantes; sabes como se chamava o mais arrogante que tive, na Universidade?
    Olha que não é difícil adivinhar; era então jovem e já muito convencido...

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  17. João: Suponho que algo acabado em Silva, não? ;)

    abraço :3

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  18. às vezes conseguimos sê-lo...
    Mas o importante é ter noção de tal para da mesma máquina não fazermos parte.
    Abraço ao menino desaparecido :p

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  19. Paulo: Desaparecido, eu? :) Estou sempre por aqui. Sabes, às vezes não tenho tempo de ler convenientemente todos os blogues que sigo e isso entristece-me.

    abraço :3

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  20. Conheci muito poucos professores assistentes que não fossem execráveis. No início associava isso a falta de experiência, mas depois percebi que o critério de seleção de professores assistentes era esse mesmo, a estupidez.

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    1. Eles têm de mostrar competência... O ridículo é que para consegui-lo não necessitam de toda aquela arrogância e presunção...

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Um pouco da vossa magia... :)