26 de julho de 2012

Mom's decision.


 E a mãe decidiu-se, por fim, a dar umas férias a si mesma. O seu grau de perfeccionismo consegue superar o meu e a sua dedicação é compreensível. Acusa-me, às vezes, de impaciência e irresponsabilidade. Amuo e tomo as expressões que adquiria, há uns anos, quando lhe pedia um jogo novo para a playstation e não o recebia na hora. Réstias de mimo exacerbado que sobrevive em mim.
 Vamos tirar uns dias sossegados, provavelmente no sul, apesar de já lhe ter comunicado que dispenso a casa de férias dos avós. Quero ir para um lugar diferente. Infelizmente - e devido às suas obrigações profissionais - não despendemos de muito tempo, embora esteja satisfeito por a ver calma, sem o Mac e a pilha de documentos para assinar. 
 Comecei a fazer as minhas pesquisas fenomenais (not!) e já conjecturei umas ideias. A mãe teme os meus planeamentos e confia mais nas opiniões chatas e enfadonhas de alguns executivos seus amigos.
 Só espero que os caranguejos continuem à minha espera, assim como espero que ainda não tenham recolhido todas as conchas exóticas que costumo encontrar perto dos rochedos. Com sorte, é desta que mergulho fundo e encontro um velho galeão cheio de tesouros e relíquias do século XVI. E sem oxigénio!

23 de julho de 2012

Os deuses estão loucos.


 Uma hecatombe sem precedentes atinge a pátria-mãe da democracia. Longe vão os tempos do apogeu helénico, em que conhecimentos e características eram absorvidos pelo mundo ocidental, curvando-se povos à sua sabedoria. Criasse-se outro trabalho a Hércules, que envergonharia os antecessores pela dificuldade de concretização e pelo estigma da derrota.
 Atenas perdeu o brilho, e a velha inimizade com Esparta deu lugar à rivalidade dos mercados e das bolsas, do capital e do investimento, do domínio germânico onde não há lugar para Ligas ou alianças. As esplendorosas pólis deram lugar a um país sem rumo, perdido no Mediterrâneo que outrora foi seu. Fatalismo que impeles para o domínio!

 Choram-se lágrimas no Olimpo. Hades é menos do que uma pequena divindade. Prefere-se o inferno à pior das misérias. Os Titãs não atemorizam e Zeus segue incapaz de enfrentar o mais temível dos adversários. Homero esconde a cara perante a vergonha à qual Platão não encontraria solução, nem Aristóteles suplantaria o mestre. Tanto Tucídides clamou pela tolerância e moderação, desenvolvendo-as Diódoto, que perante a rebelião de Mitilene aconselhou o bom senso aos gregos quando estes ponderaram mandar executar todos os revoltosos de Atenas.
 Uma execução sumária da crise não tiraria o então moderno Estado grego da ruína.
 Os deuses estão, definitivamente, loucos.

20 de julho de 2012

Tédio.


 O meu estado de espírito tem ditado um comportamento irrequieto. Talvez fruto do stress acumulado ao longo dos meses e do corpo se ressentir da vida citadina, não estou particularmente sensível à cordialidade da mãe e do resto da família. Agora, mais do que nunca, posso afirmar que me irrita saber que ainda não molhei os pés no Atlântico (mesmo desvalorizando a experiência do pai que o inferioriza ante o Índico).
 Preencher com motivos plausíveis a palavra merecer parece-me justificar o que está à vista de todos, e depois lá vem aquele trago a futilidade que me leva a pensar que sou permanentemente injusto, até mesmo tendo em consideração o período em que vivemos.

 Vivi absorto no meio de papéis, livros e sebentas, a que me predispus incinerar num auto-de-fé, naqueles momentos em que a angústia toma a réstia de serenidade que ainda se mantém viva. Paro, medito no crime que seria, mas sempre procuro arranjar uma desculpa que me permita aliviar o peso de tais indignos pensamentos - não encontrar uma cláusula no Código Penal que contemple um auto-de-fé de livros é uma delas. Trata-se de uma lacuna jurídica. Interessante.
 Falam-me do que há-de vir, de que o Sol ainda está posicionado bem no alto do hemisfério norte e de que as águas estão frias. Contem-me histórias.

16 de julho de 2012

Carlota Joaquina.


 Carlota Joaquina será, sem dúvida alguma, uma das personagens mais controversas e enigmáticas da História de Portugal e do Brasil. Maltratada pelas historiografias portuguesa e brasileira, que deturparam a sua imagem, sobretudo pelas suas fortes convicções anti-liberais, Carlota Joaquina ficou para a posterioridade como uma mulher feia, maquiavélica, adúltera e inescrupulosa.

 Filha primogénita dos monarcas espanhóis, Carlos IV e Maria Luísa Teresa de Borbón, Carlota nasceu a 25 de Abril de 1775. Aos dez anos casou por procuração com o príncipe D. João (futuro D. João VI) que, a esta data, era apenas o filho secundogénito da rainha D. Maria I e do rei D. Pedro III de Portugal, não sendo herdeiro da Coroa em virtude de ainda estar vivo o seu irmão mais velho, D. José, que por infortúnios do destino (e da religiosidade cega de sua mãe que não permitiu a inoculação contra a varíola), nunca chegou a reinar, morrendo em 1788.
 Carlota era uma mulher determinada, convicta, ardilosa (no melhor sentido da palavra) e inteligente, o que compensava os seus parcos atributos físicos de que as crónicas da época assim dão conta. Como princesa real, Carlota teve uma educação esmerada, sabendo várias línguas cultas e sendo conhecedora de vastos domínios do saber.

 A França e a Espanha (sua terra natal) tornaram-se aliadas políticas contra a Inglaterra, tentando que Portugal aderisse à aliança, voltando costas ao seu tradicional aliado. Era do interesse da França que a Espanha invadisse Portugal, situação que se agudizou com a queda do Directório no golpe do 18 Brumário de 1799, levando à progressiva ascensão de Napoleão Bonaparte e das suas subsequentes ideias imperialistas em torno da Europa. A hesitação de Portugal levaria à invasão espanhola de 1801, em que foram ocupadas várias praças portuguesas (nomeadamente Olivença que, ao contrário das restantes, não mais nos foi restituída).
 Carlota, apesar de espanhola, defendeu os interesses de Portugal e não deixou de avisar Carlos IV do perigo que Napoleão representava, demonstrando a sua perspicácia política.

 Poucos anos mais tarde, Napoleão estava decidido em dominar a Europa e o mundo, ultimando Portugal ao Bloqueio Continental a Inglaterra (ao qual não aderimos) e que nos custaria as invasões francesas e a fuga da Corte para o Brasil, em 1807. Carlota, princesa regente, acompanhou o seu desavindo marido e toda a família real na viagem para a maior e mais rica colónia portuguesa.
 Em Espanha, Napoleão substituíra Carlos IV no trono pelo seu irmão José Bonaparte, tornando este último rei de Espanha e do seu vasto império colonial. Uma vez que Carlos IV havia anteriormente abdicado da Coroa em favor do seu filho Fernando VII, reconhece-se Fernando VII como o rei deposto. A família real espanhola foi exilada, restando Carlota Joaquina como único membro da família real espanhola que estava longe da alçada de Bonaparte. Os domínios espanhóis na América Latina recusaram-se a reconhecer José Bonaparte como legítimo soberano, ameaçando a emancipação, o que levou a germinar em Carlota Joaquina a possibilidade de se tornar rainha daqueles territórios ou, no mínimo, regente em nome do seu irmão. Veja-se a sua ambição, para uma mulher que vivia nos inícios do século XIX! Procurando apoios atrás de apoios, nomeadamente do Reino Unido, correspondendo-se directamente com o governo inglês, o que indignou D. João e também causou uma mal impressão nos ingleses, Carlota tentava construir a sua teia diplomática. Avisado pelo embaixador britânico no Rio de Janeiro, lord Strangford, de que se Carlota conseguisse subir ao trono nas colónias espanholas depressa se livraria de si, D. João ficara assustado, negando a permissão a Carlota Joaquina para que esta se ausentasse do Brasil, num pedido formulado por Carlota ao receber a notícia de um emissário argentino que a avisou de que se fosse para o Rio da Prata, depressa seria aclamada rainha. Um plano que lhe sairia gorado.



 Também D. João pretendia unir as colónias espanholas, sobretudo os territórios do Rio da Prata, e o Brasil sob o seu ceptro real, argumentando de que era seu direito fazê-lo, como esposo da única princesa espanhola legítima em liberdade e devido às invasões francesas e espanholas em Portugal, a esta altura um reino destruído e arruinado. Evidentemente, Carlota não queria que esta política expansionista se desse à custa de territórios que clamava como seus. Os planos de D. João não lograriam, pois, há margem de intrigas feitas pelo Reino Unido, que pretendia a independência das colónias espanholas e não a sua união sob a Casa de Bragança, falhou os seus intentos, arrastando consigo as pretensões de Carlota Joaquina.

 Já desde os tempos da permanência da Corte na metrópole que era conhecida a incompatibilidade de Carlota com o príncipe D. João. No Brasil, as diferenças subsistiram. Cada um vivia no seu palácio, numa malha de intrigas e maledicências. Carlota tinha um comportamento sensual e erotizado, imaginando-se como rainha por direito próprio (e não consorte) e tendo aventuras extraconjugais, com relatos de affairs com escravos africanos. Verdade ou mentira, dificilmente se saberá.

 Com o fim da Guerra Peninsular, despoleta a Revolução de 1820 que exige o imediato regresso da Corte a Portugal. Carlota Joaquina e D. João VI, já reis desde 1816 com a morte de D. Maria I, regressam com toda a família real, ficando, como se sabe, D. Pedro como regente no Reino do Brasil.
 Em Portugal, os monarcas foram obrigados a jurar a Constituição de 1822 e o novo regime liberal, tendo-o recusado Carlota Joaquina, que prontamente não jurou a Constituição, mostrando-se contra o regime liberal e engendrando com o seu filho, D. Miguel, estratégias para derrubar o liberalismo e restaurar a antiga ordem absolutista. A ideia de Carlota seria a de destronar o seu marido, assumindo a regência e colocando o seu filho predilecto, D. Miguel, como comandante supremo do exército. O facto de não jurar a Constituição em muito indignou as Cortes, que houveram estabelecido de que todos os portugueses deveriam jurá-la sob pena de expulsão do reino. D. João VI contornou a situação enviando Carlota para a Quinta do Ramalhão, fundamentando a atitude com uma doença desta.

 No Ramalhão, Carlota manteria os seus planos ousados. As primeiras revoltas contra o liberalismo, a Vilafrancada, em 1823, e a Abrilada, em 1824, tremeriam o novo regime liberal, com D. Miguel por detrás destes movimentos conspiratórios. Com o movimento conhecido como Vilafrancada, D. Miguel conseguiria o posto de comandante supremo do exército; com a Abrilada, que pretendia afastar de vez o liberalismo, os intentos não foram prosseguidos, tendo D. João VI conseguido afastar os revoltosos absolutistas sob protecção de uma nau inglesa que estava ancorada no Tejo. Destituiu D. Miguel do cargo e, à grande mentora do projecto falhado, Carlota, exilou para sempre em Queluz, estando proibida de regressar à Corte.

 Terá Carlota parado?

 Com a morte de D. João VI, em 1826, Carlota continuou a influenciar D. Miguel para a tomada do poder, o que acabaria por acontecer em 1828, após dois anos de regência da sua filha Isabel Maria. À Guerra Civil entre liberais e absolutistas, encarnados em D. Miguel e o seu irmão D. Pedro IV (I do Brasil), não viveria o suficiente Carlota para assistir. Morreria a 7 de Janeiro de 1830, abandonada e sozinha, esquecida por D. Miguel que, chegando a rei, esquecer-se-ia da sua mãe, não a tirando a tempo do desterro.

 Carlota Joaquina foi uma mulher de fortes convicções, ambiciosa e pragmática. Nada sentia por D. João VI, o que não impressiona numa época em que os casamentos reais eram celebrados por interesses político-estratégicos, em alianças estabelecidas entre as respectivas famílias reais. A ligação de Carlota ao Absolutismo, que saiu fracassado na Guerra Civil, haveria de criar o mito de mulher má e conspiradora. E se é verdade de que "onde há fumo, há fogo", também não é menos verdade de que hoje Carlota seria apenas e só uma mulher determinada, como tantas que, felizmente, temos.

13 de julho de 2012

Fiz meus os seus dias.


 Difícil não estabelecer um paralelismo com o Julho de há uns anos. Impossível esquecer os dias passados em Sintra, com os educadores de infância, professores e coleguinhas, correndo por entre as mesas de pedra que pareciam menires à altura de crianças irrequietas. Mesmo a mim, assemelhavam-se a pedras do Megalítico, deliciosamente esculpidas, a um menino atento, que preferia ficar a baloiçar as suas pernas morenas, com as sandálias vermelhas oferecidas pela avó, do que arranhar os joelhos correndo atrás de uma bola ou de um gafanhoto que lá surgia por entre as silvas.

 As piscinas conheciam-nos pela manhã. Desafiado pelo Bruno (onde andará?), pulávamos da parte mais alta do recinto de contornos rectos, onde não tínhamos . Sendo mais alto e robusto do que eu, apercebendo-se da minha dificuldade em manter-me à tona, pegava nas minhas mãos de forma a que pudesse chapinhar na água. O véu que nos cobria permitia-nos agir espontaneamente, sem os grilhões do mal parecer.

 Colhendo flores de tarde, vendo o campo de basquetebol ao longe e os automóveis deixando um rasto se sujidade na estrada, não deixava de me sentir num mundo à parte. No mundo normal, as meninas cochichavam segredos e brincavam às escondidas e à apanhada. Os meninos jogavam futebol, derrubando-se uns aos outros, exibindo a agressividade que acabaria por definir as suas personalidades. No meu mundo, onde as pétalas necessariamente cobriam o chão de pequenas pedras e terra cor de barro, era bom rodopiar até perder o equilíbrio, falar sozinho e criar amigos imaginários. Dançar à brisa da tarde, cantando as músicas dos filmes de animação. Colocar o chapéu de abas e não os bonés estereotipados. Afrontar o expectável, mudando o habitual.

 Marcava o compasso de cada dia; as horas seguiam o som da minha música e o tempo era todo meu, nas doces férias de Julho.

9 de julho de 2012

Ascensão de Vasco da Gama



Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra
Suspendem de repente o ódio da sua guerra
E pasmam. Pelo vale onde se ascende aos céus
Surge um silêncio, e vai, da névoa ondeando os véus,
Primeiro um movimento e depois um assombro.
Ladeiam-no, ao durar, os medos, ombro a ombro,
E ao longe o rastro surge em nuvens e clarões.

Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta
Cai-lhe, e em êxtase vê, à luz de mil trovões,
O céu abrir o abismo à alma do Argonauta.


Fernando Pessoa



  A 9 de Julho de 1497, já a expedição comandada por Vasco da Gama largara a linha da costa de Lisboa, tendo como objectivo a Índia, iniciando o período que levaria Portugal à condição de maior potência mercantil e naval do seu tempo.

7 de julho de 2012

Leite com chocolate.


 Pedi o meu leite achocolatado com uma palhinha. Sinto-me sempre um ser extra-planetário quando o faço. A eterna sensação de que com a idade vai surgindo um pudor incomensurável e descontrolado. Reneguei a neblina e fiz o meu pedido.
 Suguei pequenos goles, controladamente, o que não faria tratando-se de um sumo gelado. Mais uma vantagem de se optar pelo leite. Recordei-me do pai e das minhas idas ao norte nesta altura do mês, já de cadernos fechados e com as canetas de cor praticamente gastas. Seria, provavelmente, o único motivo que me levaria a não sentir inveja dos peixes e dos crustáceos, trocando o mar pelo betão da cidade. Se fechasse os olhos e o fizesse no momento certo, conseguiria escutar o som das ondas, mesmo sem estabelecer qualquer contacto telefónico (o búzio também não está incluído - e é mito).
 A ausência da mãe e dos manos facilmente era compensada pelos longos passeios na Ribeira, quando a noite caía e a vontade de regressar se esvaía no curso do Douro.
 Dera pela apatia quando o leite, na pequena garrafa de vidro, estava prestes a terminar. Para não mais pensar, bebi o resto apressadamente. A alegria ficara no chocolate compactado no fundo do recipiente de vidro.

4 de julho de 2012

Achei-me crescido.


 Adormeci. Subitamente acordei, levantei-me e vi o meu reflexo no espelho do aparador situado entre os quartos. Os olhos ardiam-me ao pestanejar, talvez porque os tivesse esfregado enquanto dormira.
 As noites já não eram povoadas por pequenos momentos de fantasia, onde os brinquedos falavam (como no Toy Story) e secretamente combinavam vigílias secretas ao nosso sono, protegendo-o dos pesadelos dos adultos.
 A altura traíra-me. As mãos cresceram; as pernas acompanharam-nas. O rosto modificou-se (não fosse o espelho mentir-me, teria uma foto por perto), mas, conforme diz frequentemente a avó, "as bochechas continuam rechonchudas". É sempre bom saber que continuamos com as bochechas rechonchudas...

 Se a noite fosse irregular, eu seria mais um fantasma que percorreria corredores. Sentar-me-ia no primeiro degrau e esperaria que ninguém do piso inferior viesse à minha procura. Se o fizesse, sempre poderia deitar-me de novo, cobrindo a cabeça com o lençol. Um bom esconderijo. Ou poderia, ainda, conformar-me com a vinda do velho do saco, "sempre à procura dos meninos mimados e exigentes". Claro que a minha audácia em tudo superaria a sua força física. Levaria um x-acto - no mínimo - abriria o saco e sairia sem que a sinistra figura desse pela minha fuga. Gostaria de ver o seu semblante ao verificar, à entrada do seu lúgubre casebre, onde a lareira não tem lenha e o caldeirão está vazio, que me evadira sem que tivesse sequer notado. Destruiria o mito e seria o herói.

 O leite dera-me sono. Afinal, cresci. Voltei para a cama e dormi.