1 de maio de 2012

Monografia.


 Podendo, faltei à aula. Não deixa de ser válida a explicação de que necessitar de pesquisar matérias para um trabalho é mais do que suficiente para se faltar a uma aula.
 Apesar de conhecer os corredores daquela biblioteca, nunca consegui sentir-me diminuto no meio das estantes de livros, ordenados meticulosamente por letras, números e temas. Para mim, uma verdadeira biblioteca será aquela que, imponentemente, se ergue sobre os nossos corpos esmagados pelo peso da sabedoria e do trabalho de homens e mulheres que tornam, a cada dia, o nosso trabalho mais fácil. A verdadeira biblioteca terá livros de lombadas desbotadas, páginas amarelas de um uso indiscriminado que reflecte a passagem do tempo. Terá um aroma à imprensa antiga, cujas folhas com carimbadas a roxo, na parte lateral ou nos cantos, dão uma importância significativa à obra. Terá livros com um português antigo, onde se grafa "indelèvelmente" com acento grave na terceira sílaba.
 Pego num livro, antigo, sobre as províncias ultramarinas, e leio o discurso do Presidente do Conselho aquando da invasão pela União Indiana do Estado da Índia Português. O discurso, poeirento, coaduna-se com a textura envelhecida das páginas e pelo horror dos rostos das figuras do regime, expostas em fotografias de ocasião, entre ovações e aplausos que suportam, na bajulação, o medo. Rapidamente arrumo o livro. Quis dirigir-me ao fundo da biblioteca, local onde, em tempos, cheguei a imaginar que, pesquisando algum livro, poderia representar uma cena trivial que frequentemente se vê em filmes. Alguém chegaria, tocar-me-ia por trás e eu, assustando-me, deixaria cair o livro ao chão. A sensação de que tudo poderia ser uma cena de sétima arte fascina-me, mesmo sabendo que a vida não tem roteiro. Ainda não foi hoje.
 Pego nos livros, tiro fotocópias - não sem antes solicitar a ajuda de alguém - e tento ritmar o batimento cardíaco, estranhamente acelerado, no compasso das folhas que saem rapidamente pela abertura da fotocopiadora industrial.
 As folhas estavam quentes, tão quentes como o chá que queria beber na altura. Não quinze minutos mais tarde, não dez minutos mais cedo: seria na hora ou nunca. Não vi ninguém conhecido.
 Coloquei as monografias no repositor e saí, deixando para trás o ruído das máquinas.


8 comentários:

  1. Tu tens que escrever um livro, Mark.
    Textos como estes têm que ser partilhados para além da blogosfera; e tu já tens muitos. Acredito que muitos mais haverá no futuro e não arriscaria muito se daqui a uns tempos não teremos um escritor por aqui...

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  2. Maravilhoso como sempre!

    Qual era/é o tema do trabalho que tens para fazer?

    Hughie :3

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  3. Obrigado, Hórus! ^^
    Tivemos a oportunidade de escolher um tema à nossa escolha. Escolhi os direitos das minorias sexuais nos ordenamentos jurídicos português, norte-americano e brasileiro. Pensando eu tratar-se de algo inédito, não, há mais pessoas a abordar o assunto na turma.

    Hughie! :3

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  4. Mark:
    Sabes, quando as pessoas fazem resumos e resumos de resumos?
    A tua história ficaria assim:
    Faltei à aula, fui à biblioteca, tirei fotocópias e apetecia-me um chá.
    Mas aqui não há resumos! Como não há resumos de uma obra maravilhosa!
    Aqui há poesia e beleza em cada uma das frases que constróis, há um conjunto de outras mensagens subliminares, ou apenas subentendidas, que são a verdadeira história.
    Não me canso de te ler. Mesmo que já tenha lido este post, lê-lo-ei outra e outra vez!
    ...Porque me transportas contigo e eu gosto!
    ...Porque me sinto tão bem no meio das tuas palavras, como tu no meio das estantes de livros!
    Podias e devias escrever um livro!
    Seria o teu primeiro leitor!
    E aproveitava para te dar, ao vivo, um abraço, quando te pedisse um autógrafo.
    Assim, só posso deixar o meu abraço, virtual, e... esperar!
    Gosto-te tanto... mas tanto!

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  5. Obrigado, Pedro. :)

    Abraço grande! :3

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  6. Um dia vão-te tocar por detrás e vais deixar cair os livros. E vais virar-te e dar-lhe um beijo apaixonado, e dizer "Ai amor, assustaste-me!"

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  7. Coelhinho: Oh, seria bom! :)

    Abraço! :33

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