1 de março de 2012

O que sobrou de nós.


 Naquela manhã, o Sol despontara, mas não me aquecera. Aguardava impacientemente a chegada do pai, debruçado na janela enquanto observava a cor azul pálida do céu à distância. O dia parecia não me sorrir e tivera razões para pensar assim. Pela casa não mais sentia o cheiro suave do seu perfume, aquele aroma doce e almiscarado que tão bem conhecia. Olhando para a banheira, seca, constatei que não tomara banho pela manhã, o que era seu hábito desde sempre. Também o dentífrico estava guardado, sem pedaços de creme envolvendo a bisnaga.
 A casa parecera adormecida, como há muito não se sentia. Num derradeiro suspiro, descansava do tumulto de longos meses. Contudo, pelo ar não se respirava a calma ofegante, prenúncio de momentos felizes; o som da mudança fazia-se sentir ao longe, indo de encontro a uma frase épica, recordada até hoje, "a família terminou aqui".
 E, ao dizer-me, a frase não ganhou, de imediato, o significado terrível que viria a ter. Não deduzi - por inexperiência - que o provável era deixar de escutar o seus passos pela manhã, ou, de noite, deter-me em terra para sempre porque as estrelas que me prometera, em criança, tornavam-se agora inacessíveis. Vi as escadinhas dos livros da Rua Sésamo, que me dera, ruírem pelo chão, transformando a tenacidade que imprimira a desfolhar todas aquelas páginas, enquanto me lia as histórias, em blocos duros de cimento.
 Ele estava certo e, num dia, as malas recolheram o resto de um todo que já não pertencia àquele lugar. Os monstros, então, evadiram-se debaixo da cama e começaram a atormentar o meu sono. A velha táctica, usada durante anos, de cobrir a cabeça com o lençol fora descoberta. Não, não surtia mais efeito.
 Procurei por lugares que não encontrei, escondendo-me dos sorrisos alheios. As brincadeiras, espontâneas, deram lugar a uma graça premeditada. Ditos dos quais nem eu acreditava.
  As horas, antes rápidas e fugazes, tornaram-se lentas e intermináveis. O perigo de cair pelas escadas, descendo impacientemente, passara. De certeza que o carro não estaria à minha espera.
 Tentei recolher de novo as estrelas só para mim. Deixei, contudo, de acreditar que a mais brilhante é que está mais próxima da Terra. Afinal, o brilho de uma família feliz permanecera longe, mesmo quando o imaginava perto.


7 comentários:

  1. Bem,para começar quero dizer-te que tu tens um talento nato para a escrita. Que inveja >.<
    Mas agora falando deste teu post: oh Mark,não podes pensar assim! Olha,eu não posso dizer que propriamente odeio a minha família. MAS há gente que odeio nela,e que me magoaram muito e que me roubaram momentos de felicidades preciosos.
    E sabes o que aprendi disso? Que as pessoas não mudam. Que o passado é passado.
    Por isso esquece isso,esquece essas memórias.
    Eu sei que és uma pessoa sensível (pelo menos pareces ser),e que te magoas com coisas destas,mas não penses assim!
    Olha de certeza que deves ter assim amigos que gostes,ou um amigo de longa duração que te dês bem e que te faça feliz.
    Concentra-te nessas pessoas,essas sim valem a pena que tu invistas nela.
    E vive cada momento ao máximo com elas.
    São essas memórias que devem permanecer na nossa cabeça,no nosso passado! :)

    Beijinho*,espero ter-te animado ^^
    p.s-qualquer coisa,estou aqui para ti. Estás à vontade para falares :)

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  2. Coisas da vida... pelo menos viveste momentos...

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  3. tanto a dor como o amor moldam o que somos. Procura retirar o melhor do passado amigo mark.

    Abraço fofinho :)

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  4. Excelente, amigo Mark, este teu texto.
    Não posso fazer comparações comigo, dessas vivências, pois nunca as tive.
    Mas imagino o que te terá custado, principalmente na fase em que "isso" te apanhou, a ponto de ainda hoje essas memórias se recusarem a ser apagadas do teu pensamento.

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  5. Essa imagem paternal que insiste em te magoar... Bem, tb a do meu me atomentou cerca de 28 anos!...
    É tempo de compreenderes que a vida não é perfeita (eu sei que entendes a frase mas refiro-me ao seu significado mais profundo). Esta foi a tua história talvez, quem sabe, para assim te ensinar e dotar de sentimentos mais nobres para com aqueles que são "abandonados" pelos pais. Procura os aspectos positivos.
    Compreendo-te bem, acredita. A falta de proteção que em nós se faz sentir no nosso desenvolvimento. Mas isso passa. Agora, tu és capaz de ajudar outros pais a evitarem a ruptura. Sim, a grande maioria usa nas suas guerras as crianças com fantoches querendo ou não destruí-las psicologicamente. Na escola, cá estamos nós!

    Força.

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  6. São as experiências boas e más e a forma que lidamos com elas que nos fazem crescer e aprender. Podes aprender algo sobre ti ao refletires sobre elas, mas não deixes que a tua vida se transforme num album de memórias.

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Um pouco da vossa magia... :)