9 de fevereiro de 2012

Entre o passado e o presente.


  Portugal vive entre uma encruzilhada. Divide-se entre o seu passado, apoteótico, e o seu presente, ruinoso.
 À medida em que crescemos e mudamos, conseguimos, naturalmente, identificar semelhanças com a pessoa que fomos no passado. As marcas do tempo passam, mas há sempre sinais que nos relacionam, até quando nos detemos a olhar para uma simples foto: a pessoa é a mesma, talvez mais sofrida, contudo a mesma.
 Impossível será cortar com o passado, negando-o veementemente. O processo é uno, ininterrupto, e é esse que nos conduz até ao presente.
 Passos Coelho afirmou - indo de encontro à opinião de muitos portugueses - que o futuro de Portugal passará pelo investimento angolano. Agora como dantes, Portugal reaproxima-se das suas antigas ex-colónias, incluindo o Brasil, numa expectativa de investimento económico e apelando aos laços históricos que o une àqueles países.
 Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, reagiu com indignação perante as afirmações de Passos Coelho, realçando que o futuro do país passa pela integração no quadro comunitário e não em apelos a países africanos, sobretudo porque se trata de um Estado europeu, com um modelo económico diferente que assenta, nomeadamente, e transcrevo: «num modelo democrático, estável», prevendo o «declínio» do país se não alterar as suas prioridades.
 Desvalorizando a intromissão em questões legítimas e internas de Portugal, Estado soberano (... e tantas dores de cabeça causa a soberania dos países europeus à União Europeia!...), Martin Schulz revelou um enorme desconhecimento do que são prioridades reais.
 Será difícil, admito, que um alemão entenda o que foi o passado de Portugal. A Alemanha teve colónias em África, de facto, mas as mesmas surgiram com a Conferência de Berlim e a consequente partilha de África, já nos finais de século XIX, e prolongaram-se apenas até 1919, com o Tratado de Versalhes (Paris), que acarretou graves consequências para a derrotada Alemanha, da I Guerra Mundial, que perdeu todos os seus domínios africanos. O império ultramarino alemão não durou mais de trinta anos.
 Schulz necessitaria de algumas lições. Deveria aprender que, aquando da chegada dos portugueses a Angola, em finais do século XV (1482), a União Europeia não existia sequer no imaginário do mais inspirado e sonhador homem europeu e de que a própria Alemanha, inclusivamente, não existia como moderno Estado europeu, surgindo apenas nos finais do século XIX com Bismarck. Trocar mais de quinhentos anos de História e de relações entre povos por uma organização internacional recente e moribunda parece-me despropositado, para mais porque ninguém de bom senso arriscará pedir uma desintegração portuguesa do quadro comunitário. Portugal pertence à U.E, mas não tem necessariamente de se relacionar apenas no seio da União. Há mais vida para além de Bruxelas.
 As fotografias antigas nem sempre foram belas. Muitas guardam um passado que é preferível esquecer e as cicatrizes deixadas por um colonizador nem sempre são fáceis de sarar. Mas, há fotografias belíssimas que convém guardar e estimar. Memórias de um tempo que não volta, mas de momentos que deixaram a sua marca.
 O perigo para Portugal não se resume só a um declínio irreversível. O verdadeiro perigo reside na sua capacidade de continuar, ou não, a aparecer nas fotografias. Entre o passado e o presente, que no futuro possamos dizer: "Eis aqui o meu passado!".


7 comentários:

  1. Acredito que Portugal sairá logo dessa crise econômica. O Brasil já sofreu décadas com crises econômicas e sabemos bem o que é vocês estão passando. O sugador ( FMI) já tirou muito dinheiro do Brasil a há poucos anos conseguimos pagar a nossa dívida externa.Portugal é formado por um povo guerreiro, trabalhador. vcs vão conseguir vencer mais essa luta,mais uma vez.

    Abraços, portuguesinho inteligente.

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  2. Mark, claro que não se pode trocar 500 anos de história. Tens razão e concordo contigo. Só que Portugal assumiu compromissos aquando da sua entrada na UE há 25 anos atrás, que podem levar e justificar, infelizmente, este tipo de comentários como o de Martin Schulz...

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  3. Me sinto um tanto descontextualizada (moro no Brasil),e mal acompanho as notícias =/
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  4. Será que alguém está a pedir às familias Angolanas para irem fazer compras a Berlim ou Munique????

    Abraço

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  5. Falar da crise é complicado. Toavia, o teu etxto está muitíssimo bem elaborado e assenta em premissas bem argumentadas.

    You're a surprise box ;)

    Hugs :)

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  6. O Schulz é um snob, e não passa disso...e pareceu-me um comentário de extrema xenofobia, se calhar há coisas que nunca mudam...

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Um pouco da vossa magia... :)