14 de janeiro de 2012

No banco do fundo, onde o sol é mais forte.


 Doem-me os braços. Nunca carregar livros, cadernos e sebentas foi tão cansativo. Não fosse a mãe levar-me até à porta da faculdade, teria deixado caí-los pelo metro ou até mesmo pela rua.
 Às vezes, dou por mim a pensar no lugar a que cheguei. Ainda ontem brincava no pátio do colégio com os coleguinhas. No canteiro das flores, que a D. Lena tão bem estimava, colhia pequenos malmequeres que não sabia onde colocar. Os meninos jogavam à bola, as meninas brincavam com bonecas; eu seria mais um desertor da vida. Passaram-se os anos e o aroma a flores espontâneas deu lugar ao aroma a páginas novas de livros. As mesmas mãos que colhiam cada flor, apertando-as e carregando-as até que o calor as secasse, carregam hoje centenas de páginas que, teoricamente, não descrevem a vida. A vida, minha, sua, deles, não pode ser descrita num manual. Afinal, que sabedoria carrego eu? Não terão as flores que colhi bem mais a me dizer?

 Passei os vagos corredores. Neles, nem uma pessoa passou por mim. O frio de ambas as portas abertas das extremidades fazia-se sentir. O chão fora lavado. Estava humedecido, não me levando por pouco a escorregar.
 Era suposto estar alguém no jardim da faculdade. Um homem, de óculos escuros e aspecto duvidoso, distante. No banco do fundo, onde o sol é mais forte, não vi a menina de terça-feira, casaco vermelho, caracóis cor de mel e tez clara; nem tampouco o arrumador que, aqui e a ali, pede uma esmola a cada condutor que para a sua viatura. O rapaz que passou pelo passeio paralelo, na rua, perto de um pouco de arame farpado, também ele não passou de novo. O sol esqueceu-se, encoberto por nuvens teimosas de um dia agoniado.
 O banco do fundo não foi o mesmo. As sensações somos nós que as criamos.


9 comentários:

  1. Pura magia brota deste texto.
    Muito bom.

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  2. Ora nem mais, nós criamos as sensações, emoções e os momentos :)

    Abraço

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  3. Meu deus,tu escreves com uma beleza impressionante *.*
    Os teus textos são sempre lindos :)
    E já agora,pensa na universidade do lado positivo! Chegar à universidade nunca é fácil,e tu estás lá!
    Quem me dera um dia chegar a onde estás :)

    Beijinho*

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  4. As sensações são nossas.

    Um abraço, big Mark!

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  5. As sensações somos nós que as criamos, mas são a nossa interpretação do real. E nesse aspecto, parece que vejo algum distanciamento. É só dos exames?

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  6. Coelhinho, eu estou bem. :)
    O sol, naquele banco do fundo, parecia-me bom. Afinal, é bom porque eu quis que assim o fosse. Daí as sensações serem criadas por nós.

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