11 de dezembro de 2011

United Kingdom of Great Britain and Northern Ireland


A Europa está em crise. O Euro também. Progressivamente, a ideia dos pais fundadores da designada União Europeia começa a dar sinais da sua inconsistência crónica: é impossível unir países cultural e socialmente distintos num projeto federalista utópico e irreal.
O projeto europeu surgiu num contexto pós-guerra e num cenário típico de perda de influência internacional. Saída enfraquecida da I Guerra Mundial, a velha Europa cedeu o seu lugar cimeiro para as novas potências emergentes na época: E.U.A e União Soviética. A II Guerra Mundial relegou definitivamente a Europa para segundo ou terceiro plano, tornando urgente a necessidade de um aprofundamento dos laços entre os países da Europa. Daí se traduz todos os passos que, década após década, tornaram o projeto europeu numa realidade cada vez mais palpável. O último dos grandes passos decisivos foi, indubitavelmente, o Tratado de Maastricht, em 1992, que institui a União Europeia.

No entanto, não foi o suficiente. Os líderes europeus quiseram mais e mais, como o falhado projeto da Constituição Europeia atestou: os europeus não querem uma Europa federalista; querem, isso sim, cooperação sem federalismo, entreajuda sem perda de soberania, um espaço aberto sem perda das várias identidades que compõem o continente.
O Reino Unido é o expoente máximo do racionalismo europeu. Os ingleses estimam a sua pátria, a sua história e por nada abdicariam dela em nome de algo indefinível. Afinal, o Reino Unido em nada necessita da União Europeia. Toda a História tem demonstrado a supremacia inglesa face aos países da Europa continental...






A Inglaterra foi precursora em variados aspectos. Em 1215, com a Magna Carta, estabeleceu direitos impensáveis na Europa Continental: o respeito pelas liberdades e garantias dos três estados do reino, a liberdade religiosa, as prerrogativas municipais, a moderação na tributação dos mercados, o direito que cada um tem em não ser condenado senão após julgamento pelos seus pares ou segundo o Direito do seu país, o direito que todo o homem tem a que lhe seja feita justiça, etc. Na Europa Continental, vivia-se o feudalismo no seu esplendor, sobretudo na França...
Já no século XVII, uma série de lutas entre a Coroa e o Parlamento leva a que, em 1628, Carlos I convocasse o Parlamento que lhe apresentou a Petition of Rights que, claramente, protestava contra o lançamento de impostos sem o consentimento do Parlamento, contra as prisões arbitrárias, contra o uso da lei marcial em tempo de paz e a ingerência dos militares nas casas dos particulares. Em Portugal, nem tínhamos entrado no Absolutismo Régio, que em França estava no seu apogeu com Luís XIV...
Em 1688, dá-se a enorme Glorious Revolution que viria a instituir o Bill of Rights de 1689. O último soberano da Casa dos Stuarts foi deposto e subiu ao trono Maria e Guilherme de Orange. Negou-se o direito divino do reis e invocou-se a existência de um pacto entre a Nação e o Monarca. Qualquer pretenso soberano teria de aceitar o Bill of Rights se pretendia ascender ao trono inglês. Na Europa Continental, estávamos a cem anos da patética Revolução Francesa que não foi mais do que uma cópia do que os ingleses fizeram um século atrás. Aliás, a própria Revolução Francesa foi inspirada pela Declaração de Independência dos E.U.A, em 1776, seguida da Declaração de Direitos de Virgínia e até mesmo pela Constituição dos E.U.A de 1787 (ainda em vigor). Concluindo: em nada a França foi original e só inspirou países como a Espanha e Portugal nas suas revoluções liberais apenas por uma influência maior.

Por não pertencer geograficamente ao resto do continente europeu; por ser um país inovador em imensas matérias; por ser a mais velha democracia do mundo; por ser diferente, não tendo uma Constituição escrita, não tendo separação religiosa entre o Estado e a Igreja, mas sim liberdade religiosa; por ter um monarca que se mantém no poder em vários dos seus anteriores domínios (Austrália, Nova Zelândia, Canadá, etc.), caso único em todo o mundo; por ser irreverente; por ter sido a grande Rainha dos Mares, detentora de 2/3 da superfície do planeta, o Reino Unido em nada necessita da União Europeia, esse aborto internacional sustentado pela França e pela Alemanha, num claro complexo de inferioridade face aos E.U.A e às novas potências emergentes, como a Índia, a China, o Brasil e a "renascida das cinzas", qual fénix, Rússia. Deste facto resulta o NÃO do Primeiro-Ministro David Cameron a esta Cimeira risível de salvação da não menos risível unidade monetária, Euro. O Reino Unido pertence à Comunidade Europeia por uma questão geoestratégica, desde 1973, e tem uma cláusula de exclusão ao Euro, cláusula irrevogável. Não abdicam da sua libra esterlina forte em detrimento de uma moeda fantoche, filha de golpes de ilusionismo europeu. Nem ratificaram o bárbaro Acordo de Schengen que é mais do que um atentado à soberania interna dos Estados.
Os ingleses, como todos os que valorizam minimamente a sua identidade própria, porquanto, também somos o país a que pertencemos, rejeitam o federalismo europeu e regozijam-se pelos fracassos ante fracassos que a União Europeia sofre. Cooperação e comunidade europeia, sim; federalismo, não...

Pensando bem, é uma preocupação vã: a União Europeia tenta salvar-se. É digna de lástima. Não há com que nos preocuparmos com a perda de soberania. Está moribunda, marcada de morte. O tempo ditará o golpe final.


15 comentários:

  1. Congratulo-me com a posição tomada pelo Reino Unido, nesta cimeira.

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  2. É mesmo a Europa tá atravessando uma enorme crise econômica... Aqui nós temos idéia de uma União Européia que ajuda bastante todos os países europeus. A moeda, as fronteiras livres... A Inglaterra tem aquele sentimento bem deles mesmo, eles são mais eles :) abraço.

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  3. aqui no Brasil, a crise vem sendo notícia diária :s

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  4. Marco, o Reino Unido chantageou mais uma vez os restantes 26 membros da união Europeia. Foi isso, sabes? Se estendesses a tua bela visão histórica para os dias de hoje, virias que Cameron prontificou-se a apoiar com o sim os 26 países SE e EM TROCA de mais exceções para o Reino Unido, especificamente na (des)regulação do seu mercado financeiro, o que equivale a dizer que pretendiam manter possível nos seus mercados muitas das operações financeiras que levaram ao atual colapso mundial. Claro, defenderam os próprios interesses. No entanto, na Europa pretendem-se regras nos mercados financeiros e tetos máximos de dívida escritos na própria constituição de cada país. Aqui não impera o capitalismo selvagem e a Europa é a melhor região do mundo a aplicar a legislação pro-ambiental. Nenhum dos 26 países aceitou a imposição do Reino Unido e do braço de ferro nenhum país cedeu.

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  5. Orgulhosamente sós (versão UK)! Onde é que eu já terei ouvido isto...

    Um abraço.

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  6. Para um comentador de nome "Vasco": Em primeiro lugar, não me conheces de lado algum para me dirigires a palavra nesse tom pernicioso; em segundo lugar, aprende a respeitar opiniões contrárias à tua. Ficcionismo? Aprende História, Direito, tem um pouco de cultura geral e, depois disso, vem falar comigo! Criticar por criticar é fácil. Rebater é que se torna mais difícil, não é mesmo?... Realmente, não há nada pior do que pessoas mal-educadas e agressivas! Que mal vai o nosso país!...
    Nem todas as pessoas são europeístas convictas!

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  7. Interessante seu post a respeito do Reino Unido.Aqui no Brasil estamos acompanhando a crise europeia e é uma lástima o que está acontecendo por aí.Espero que todos os países consigam sair dessa crise o mais rápido possível. De certo modo, essa crise serviu como lição para o Brasil e suas pretensões de criar uma bloco na América do sul ao moldes da União europeia.

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  8. Olá. Não sou o Vasco, lol, sou o J., já deves ter ouvido falar de mim, hehehe.
    Sou um europeísta e um pouco economicista, e como já te tinha dito noutra ocasião, discordo de ti neste aspecto. Não que as relações com os PALOP's sejam de somenos importância, pelo contrário, mas Portugal fica na Europa, e a meu ver o caminho passa por aí. A atitude do UK (desculpa, RU não me soa bem) não me surpreende, no entanto veja-se a oposição interna que o primeiro-ministro inglês está a enfrentar. Já a senhora Merkel, por outro lado, era a primeira-ministra que eu gostava de ter. Tem consciência europeia, mas percebe que a sua economia é a alemã e é essa que tem de assegurar.
    Abraços! ;)

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  9. Despreocupado consciente: Sabes o que eu gostaria?, e digo-o também ao Ty e à Tainá... Gostaria de uma grande União Lusófona, onde imperam laços históricos, culturais, linguísticos, etc. Isso sim, seria uma excelente ideia. Afinal, o Brasil cresce ano após ano, tornando-se na potência emergente que é; Angola, cada vez mais estabelece o seu lugar como potência regional. A União Europeia? Essa, demonstra as suas fragilidades crónicas, não querendo cair na repetição do que disse na minha dissertação.
    União, sim, mas com quem partilhamos uma identidade comum. :)


    Coelhinho :)

    Esse tal "Vasco" foi de tal forma ofensivo que nem publiquei o comentário. Não tolero faltas de respeito e desconsiderações. A opinião é livre, mas há gentinha que não sabe o significado do respeito pelas convicções individuais de cada um, legítimas como quaisquer outras.
    Abraço. ^^


    Obrigado a todos que educadamente deram as suas opiniões. :)

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  10. serias uma das pessoas com quem tomaria e pagaria um chá quentinho de bom grado em troca de uma tarde de boa conversa, seria boa porque tendencialmente concordamos em abstracto e discordamos em pormenores mais discutíveis. :-)

    Lembro-me que em ciência política fui líder do grupo que defendia a não adesão ao Tratado/"Constituição Europeia". Foi uma argumentação facilmente conseguida como bem deves saber.

    Quanto ao Reino Unido...admiro-os imenso, a vários níveis, nomeadamente alguns pontos que aqui focaste.
    Mas parece-me que noutros pontos, no fundo sub-jazem interesses negativamente egoístas.

    Forte abraço!

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  11. Emanuel: Ohh :$ que querido. *-*
    Que felicidade, alguém que coloca dúvidas em relação à integração europeia! LOL O Tratado Institutivo da Constituição Europeia era um aborto jurídico, um atentado à soberania dos Estados; um atentado inqualificável. Onde já se viu, "Constituição" para uma mera organização internacional? Federalismo disfarçado, é o que é! E, não, nem sou nacionalista, mas temia o rumo perigoso desta "integração" europeia.
    Sabes, sou uma pessoa de opinões muito próprias e defendo-as intransigentemente. Isso, por vezes, dá azo a comentários desagradáveis, como o de um leitor que passou por aqui...

    Muito obrigado pelo carinho. :)

    Abraço forte. ^^

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  12. Engraçado, você leu meu pensamento. eu ia perguntar sobre isso com você.Eu li seu post sobre a possibilidade de uma união entre os países lusófonos quando você comentou o artigo de um jornal falando sobre Brasil e Portugal.Queria perguntar-lhe como seria para você esta possível união. Seria aos moldes da Commonwealth of Nations? Acho que seria bom para os países irmãos uma união não só simbólicas,mas concreta, com intercâmbios culturais, educativos,econômicos etc.
    Abraços.

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  13. Obrigado por seguir meu blog! para mim, também é uma honra você ser o primeiro seguidor.

    Obrigado e abraços

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  14. No caso, a união lusófona seria uma espécie de confederação? Seria interessante isso. Já temos o mais importante que é a língua comum agora só falta aumentar os laços através de outras medidas. O Brasil sempre olhou com bons olhos uma maior aproximação com os países da lusofonia. O acordo ortográfico veio para consolidar a língua portuguesa como uma língua internacional. Veja o espanhol que se consolidou no mundo como uma importante língua. Aqui no Brasil aprender espanhol é tão importante quanto aprender inglês por causa das relações econômicas que o meu país tem com a América Latina.O Uruguai já ensina o português em suas escolas e mais outros países sul-americanos tem o interesse de aderi-lo em seus currículos escolares.Este ano foi inaugurado no ceará a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira em parceria com os países da CPLP para formação de estudantes não só do Brasil,mas de outros países de expressão portuguesa. Acho que os países de língua portuguesa deveria pensar sim, em criar uma grande união lusófona.

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  15. Não, não existe nada mais belo de que a união dos povos.Você tem toda a razão.Tenho a certeza que os laços dos países de língua portuguesa será muito mais forte do que esses que temos hoje.No futuro seremos uma grande confederação mundial que mostrará para o mundo que não precisamos fazer guerras, criar conflitos para termos hegemonia mundial.
    Seremos um exemplo de cooperação em escala internacional.

    Obrigado por compartilhar seus conhecimentos comigo.São de pessoas assim, com visão humanista, que o mundo precisa.

    Abraços do povo brasileiro!

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Um pouco da vossa magia... :)