26 de dezembro de 2011

In the morning sun.


Acordei de manhã cedo, e mesmo ainda de pijama, dirigi-me ao exterior da casa da avó e fiquei a observar a cor da manhã. O ar, gélido do orvalho matinal, fazia fumo a cada expiração. O céu no horizonte sobrepunha o azul claro, quase branco no limiar que a minha vista podia atingir, sob o amarelo tímido dos pequenos raios de sol que surgiam.
Um inseto subia as calças do pijama. Trepava incessantemente, que prontamente retirei e coloquei na folha de uma planta, viva de pequenas gotículas de água.
Passou um homem em frente à porta de entrada. Carregava sacos, com pedaços entrelaçados de embrulhos natalícios, laços que caíam pelo caminho, restos de sonhos que se despiam do manto do cinismo social. O seu ar, distante, de mais um Natal que findara, de um pouco mais de ilusão que dera a familiares e amigos. Desembaraçou-se do saco como quem deixa um fardo. Como um embrulho e um laço vermelho fazem toda a diferença!...
Agora o sol estava mais forte. Tocava-me nas costas sobre o casaco do pijama. Senti uma corrente de ar frio trespassar-me o peito desnudo. Os botões cimeiros não estavam por entre as casas. Uma fileira de insetos, encarrilados com um sentido, movia-se agora para a rua, atravessando espaços que poderia percorrer só com a passagem do dedo. Se deixasse um pouco de doce de morango caseiro - restante de ceia - conseguiria mudar o seu trajeto. Seria o seu deus. Nietzsche tivera razão: todo o Homem quer um pouco da divindade.
Podendo mudar o percurso das horas, alterando o sentido do relógio, mandaria as badaladas soarem mais tarde. Pararia os ponteiros com uma caneta, sustendo-os indeterminadamente. Perpetuaria os momentos, mas se o fizesse, não teria o prazer de um novo amanhã. Não havendo amanhã, também não haveria sol, não sentiria os raios na pele nem tampouco veria a fileira de insetos atraídos pelas feromonas comuns à espécie. Isso seria mau. Fico-me com o sol da manhã; o tempo que espere por mim.


4 comentários:

  1. Esse é um dos grandes dilemas da vida, perpetuar os bons momentos ou deixá-los para trás em busca de novos?

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  2. o tempo é o que fazemos dele.
    Um abracito Mark

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  3. Simplesmente encantador!!!!
    Boas festas.

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  4. O tempo tanto encanta como desencanta.
    Prolongá-lo, caso fosse possível, por vezes era muito bom; mas para sempre, destruiria o prazer de viver...

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Um pouco da vossa magia... :)