23 de novembro de 2011

Strike.


Falar dos trabalhadores, em Portugal, quase sempre pressupõe um duplo entendimento: ou se é favorável aos seus direitos, ou se é contra, no fundo, a entidade patronal, aqueles malvados capitalistas sanguessugas do suor e do sangue dos seus humildes servos. Todavia, nem sempre é assim. A mim, é-me completamente indiferente o facto de haver greves ou não. Estou solidário com os problemas do país, no entanto, quando afirmo de que não me faz qualquer diferença, refiro-me a que esta greve geral não terá um impacto real na minha vida. O mesmo não poderão dizer alguns colegas e milhares de pessoas que diariamente utilizam vários transportes públicos, nomeadamente o metropolitano e que, por isso, faltarão aos seus locais de trabalho, aulas ou, na melhor das hipóteses, chegarão atrasados. Indiretamente, também acabo por ser prejudicado, uma vez que amanhã grande parte dos alunos faltarão, logo, não teremos aulas que neste momento seriam da maior importância. Sim, eu gosto de não ter aulas, mas sinto o peso da responsabilidade que esta greve terá nos meus estudos. Alguns professores irão, evidentemente, dar as suas aulas; mas uma boa parte dos alunos não terá transporte e ficará fortemente penalizado não assistir às aulas que serão lecionadas.

Dirão: "A greve é um direito dos trabalhadores!" Com certeza, artigo 57º / 1 da Constituição da República Portuguesa. Contudo, terão ideia do que o Estado deixará de arrecadar com a paralisação de amanhã? Os milhões e milhões de euros que serão perdidos? Numa altura crítica e gravíssima, em que o país atravessa a sua pior crise desde o 25 de Abril, em que temos um empréstimo descomunal com o Triunvirato, vulgo troika, dão-se ao luxo de parar o país por vinte e quatro horas. Depois, lá será uma trecha do empréstimo do Triunvirato que pagará a patetice de amanhã! E o patronato, por que motivo não terá o mesmo direito de fazer greve e fechar as fábricas? Artigo 57º / 4 da C.R.P. Resquícios do programa do MFA que ainda continua, trinta e sete anos depois, na Lei Fundamental... Em vários países da Europa desenvolvida (de que Portugal não faz parte, aliás, como diria um arquiteto amigo da mãe, "Portugal é um país desenvolvido do norte de África..."), a greve do patronato é permitida e até há umas considerações europeias favoráveis ao designado lock-out.

Quando se pedem sacrifícios, param um país por capricho. Ficarão sentados a beber cafés e vinho, fumar e, naturalmente, apreciar as pernas gostosas das colegas funcionárias... Com sorte, o decote estará suficientemente generoso para desvendar os formosos vales onde se perderiam de deleite...

Como diriam os romanos - e bem - "os povos da Hispânia não se sabem governar."
Tinham razão.


6 comentários:

  1. Mark

    compreendo e até posso concordar com a tua argumentação; mas quando os sacrifícios exigidos recaem sempre sobre os mesmos e isentam sempre os mesmos há que mostrar que não somos lorpas.
    Há uma profunda injustiça social nos sacrifícios que se pedem ao povo português e se não é com palavras que o Governo modifica as suas opções, então passe-se aos actos...

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  2. pinguim: Bem sei que os sacrifícios são sempre pedidos aos mesmos, mas nesta altura não há alternativa. O país está realmente numa posição de quase bancarrota. Se chegámos a este ponto, fomos coniventes com o que de errado aconteceu, afinal, quem os escolhe somos nós com o voto.
    "Se o Rei pecou, fê-lo com o povo." Já se dizia assim na altura do perdulário D. João V e mantém-se bem atual...

    Lobo: Portugal começou mal, com um homem (Afonso Henriques) a lutar e aprisionar os partidários da sua mãe e ela própria... Não sei se acabará bem. :/

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  3. loooool :D a frase tá brutal desse amigo da tua mãe. Ele tem razão do que diz de certa forma porque estamos bem longe dos parametros europeus de qualidade de vida e eu que o diga..
    a greve.. concordo com a opinião do pinguim, quem paga são sempre os mesmos..
    abc

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  4. Tomás: Também acho que deveriam ser os mais ricos a pagar a crise (é uma frase comunista típica do PREC, ahah). Infelizmente - e aí concordo com todos - os sacrifícios atingem os mais necessitados. Contudo, eu afirmei a minha solidariedade com o país e os seus problemas logo no primeiro parágrafo. ^^

    Abraço.

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  5. Querido Mark, na verdade, e lamentando que tivesses entendido o meu último post de uma forma mais...pessoal talvez, não era de todo a minha intenção direccioná-lo para atacar este teu post em concreto. Erro meu, que deveria ter explicitado isso melhor no início. Mas o teu post deu-me acima de tudo um mote.Não és de perto nem de longe a única pessoa a culpabilizar-se de forma implícita por esta "crise", e de facto, oiço imensa gente a referir precisamente isso: "ah e tal, os culpados somos nós, que somos nós que os pomos lá no poleiro!", ora o que o teu post fez foi dar-me a inspiração para escrever eu próprio um texto de opinião, por isso até te agradeço.
    Não era de todo portanto uma resposta em concreto ao teu post, à tua opinião, mas foi um ponto de partida que usei para demonstrar a minha revolta pelo actual estado da nação.
    Quanto à animosidade que sentiste, ainda bem, transmiti a revolta que sinto, acredito no poder das palavras, inspiração de Eugénio de Andrade talvez:-)
    Espero assim que entendas que o meu "manifesto anti-demagógico" não foi de todo direccionado a ti nem nada que se pareça, muito menos te chamaria demagogo oh cólega:-)

    um forte abraço

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