1 de setembro de 2011

Um dia que foi meu.


Entrar no centro comercial para comprar futilidades não é um bom programa de final de dia cinzento. As luzes das grandes superfícies são demasiado anómalas para que me sinta seguro. Os corredores, paralelos, assemelham-se a túneis de consumo rápido, onde se procuram calorias, sepultar mágoas e, para alguns, encher um estômago vazio de dias de fome, quase crónica, fatal, ventos assalariados advindos diretamente das memórias longínquas da Revolução Industrial.
Pessoas amontoam-se como se o produto findasse rapidamente, temerosas pelos cadernos mais coloridos, outras pelo estojo mais acessível, embora todas pautadas por um único objetivo: a satisfação das suas necessidades. O caráter supérfluo das escolhas levou-me a afastar um pouco do rebuliço da amálgama criada.

Cada caderno simboliza o início de algo que denota esperança e dúvida. Incertezas do que cada linha suportará, das memórias expressas para o futuro. Escolhi cinco, em tons variados e alegres; um misto disforme de juvenilidade e seriedade, com tudo o que comporta representar os dois papéis numa só pessoa.
As cores, apelativas, refletiam a intensa luz de megawatts de energia direcionados intencionalmente para facilitar a demanda. Teve o mesmo efeito em mim.
As canetas, também escolhidas com cor garrida - e aroma a pastilha elástica - tornaram-se mais fúteis do que eu. Agora poderia finalmente fazer jus aos cadernos escolhidos. Permutei princípios adquiridos por imposição moral e não pareci minimamente incomodado.

Quando saí, a chuva relembrou-me de que não obedece à nossa vontade. Os pingos salpicavam cada folha, desbotando o branco labiríntico das linhas vazias. Afinal, de que vale o esforço se uma gota destila o que de pior existe em nós? Um súbito arfar, uma arreliação, um gesto brusco e uma tarde estragada.

Não foi o caderno, foi uma simples folha. Simples, mas minha. Também o dia que começou foi meu, perscrutado por mim desde o amanhecer. Um dia a mais que não marcará passo. Porém meu, como todos, igual aos nenhuns que vivi ainda.



2 comentários:

  1. "Afinal, de que vale o esforço se uma gota destila o que de pior existe em nós? Um súbito arfar, uma arreliação, um gesto brusco e uma tarde estragada."

    A mim acontece-me muitas vezes...

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  2. "Afinal, de que vale o esforço se uma gota destila o que de pior existe em nós? Um súbito arfar, uma arreliação, um gesto brusco e uma tarde estragada."

    A mim acontece-me muitas vezes...

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Um pouco da vossa magia... :)