1 de maio de 2011

Poema à mãe




No mais fundo de ti, 
Eu sei que te traí, mãe. 

Tudo porque já não sou 
O retrato adormecido 
No fundo dos teus olhos. 

Tudo porque tu ignoras 
Que há leitos onde o frio não se demora 
E noites rumorosas de águas matinais. 

Por isso, às vezes, as palavras que te digo 
São duras, mãe, 
E o nosso amor é infeliz. 

Tudo porque perdi as rosas brancas 
Que apertava junto ao coração 
No retrato da moldura. 

Se soubesses como ainda amo as rosas, 
Talvez não enchesses as horas de pesadelos. 

Mas tu esqueceste muita coisa; 
Esqueceste que as minhas pernas cresceram, que todo o meu corpo cresceu, 
E até o meu coração 
Ficou enorme, mãe! 

Olha — queres ouvir-me? — 
Às vezes ainda sou o menino 
Que adormeceu nos teus olhos; 

Ainda aperto contra o coração 
Rosas tão brancas 
Como as que tens na moldura; 

Ainda oiço a tua voz: 
Era uma vez uma princesa 
No meio de um laranjal... 

Mas — tu sabes — a noite é enorme, 
E todo o meu corpo cresceu. 
Eu saí da moldura, 
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe. 
Guardo a tua voz dentro de mim. 
E deixo-te as rosas. 

Boa noite. Eu vou com as aves.
 












Imagem da escultura -  Pietà - Michelangelo

Poema: Eugénio de Andrade

5 comentários:

  1. Eu só não escolhi este poema por já o ter postado mais de uma vez, mas considero-o o mais belo poema que se pode escrever a uma Mãe.

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  2. O ano passado, no âmbito da disciplina de Português, enquanto dávamos a poesia, a minha professora procurou no youtube por este poema. Foi a primeira vez que o ouvi, e desde logo me apaixonei por ele. É mesmo um poema com um significado intemporal. Hoje, sempre que vejo rosas brancas, vêm-me à cabeça os versos desta obra.

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  3. É um poema lindo =)
    Abr

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  4. adorei o poema mark. bom gosto o teu e espero que a tua mãe tenha gostado xD
    abc

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Um pouco da vossa magia... :)