9 de maio de 2011

Os "Pequenos" Erros...


... que quase ninguém dá por eles. Quase. Eu dou. Aliás, não devo de ser o único. Espero não ser o único. Refiro-me, para quem não sabe, ao vídeo nacionalista português dirigido à Finlândia que anda a circular por aí. Geralmente não presto atenção a essas coisas porque detesto nacionalismos exacerbados, mas, ao visualizá-lo, até fiquei com uma boa impressão. Estou a ser sério. Acredito mesmo que este vídeo fez mais pelo orgulho português ferido do que quaisquer mensagens ou apelos presidenciais. Contudo, o facto de achar o vídeo interessante não me leva a fechar os olhos àquilo que considero serem erros. Podemos discutir se são erros grosseiros ou não, todavia, tratam-se de erros e imprecisões históricas. Também sei que o objetivo do vídeo não é o de ensinar os portugueses relativamente à sua nobre história. Foi uma mera brincadeira que atingiu proporções nacionais e internacionais (parece que já chegou à Finlândia e já teve resposta...). Mantenho a minha ideia: se as pessoas decidem fazer este tipo de coisas, pelo menos tenham o cuidado de as fazerem bem feitas, se possível sem erros. Vamos a eles.
Logo num dos primeiros momentos do vídeo é dito que os gregos andaram no território que hoje compreende Portugal. Há uma confusão entre gregos e romanos, provavelmente. O território que hoje é Portugal fez parte do Império Romano e não da Grécia. A própria Grécia tornou-se uma província romana. Toda a Península Ibérica era conhecida por Hispânia e encontrava-se dividida em duas: Hispânia Citerior e Ulterior. A partir do Principado (27 a. C.), parte do atual território português passou a ser a província da Lusitânia.
Noutro momento do vídeo é referido que Roma tem mais igrejas portuguesas que qualquer outra cidade. Nunca ouvi tal alarvidade, permitam-me o termo, em toda a minha vida. Sempre pensei que em Portugal é que existiam vestígios da arquitetura romana e não o contrário, mas enfim. Devem ser vestígios da colonização portuguesa em Itália... (LOL)
Porém, o erro que mais despertou a minha atenção foi o que defende que a escravatura foi abolida em Portugal no ano de 1751. Bom, em primeiro lugar há que fazer a distinção entre a abolição em Portugal, metrópole, e no restante Império, à data. A escravatura, em Portugal, foi legalmente abolida por D. José I, através do seu todo-poderoso ministro Sebastião José (Marquês de Pombal para os incautos...), a  19 de Setembro de 1761, dez anos depois da data que consta no vídeo. Mas, só em 1773 seria abolida totalmente em Portugal. Sublinho, em Portugal. Não se pense que Sebastião José o fez por motivos humanitários como, no vídeo, apesar de incorreto, se dá a entender. Sebastião José odiava a nobreza latifundiária e, regra geral, toda a nobreza. Aboliu a escravatura de forma a evitar que os escravos, em Portugal, fossem utilizados como criados domésticos. Quis forçar a nobreza a contratá-los, pagando-lhes salários. Falta um pequeno pormenor: e no Brasil (na altura ainda uma colónia portuguesa), nas possessões africanas e asiáticas? Aqui vão as datas para mostrar o quão dianteiros fomos: 25 de Fevereiro de 1869 - abolição definitiva da escravatura em todo o Império Português! Um pouco diferente de 1751, convenhamos... Claro, em Portugal deu jeito, mas nas plantações gigantescas em África e no Brasil a situação era diferente. A mão-de-obra escrava era essencial. Hipocrisia no seu esplendor máximo: abolida em 1761 na metrópole e mais de cem anos depois nas colónias. Interessante... Em todo o caso, e daí esta explicação, 1751 é errado!
Outro erro: Cristóvão Colombo não disse ao rei português que tinha descoberto a América e só depois o fez ao rei espanhol... Colombo disse a D. João II que pensava saber qual seria o caminho marítimo para a Índia e apresentou o projeto ao nosso monarca. O projeto consistia em navegar pelo Ocidente e não contornando a costa africana, como, mais tarde, Vasco da Gama haveria de fazer. D. João II rejeitou a proposta e só depois Colombo a apresentou aos Reis Católicos, Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão. De facto, com a aprovação dos Reis Católicos, Colombo haveria de chegar, não à Índia como acreditava, mas ao continente americano, em Outubro de 1492.
Mais um... Num outro momento é-nos dito que dividimos o mundo em dois com a Espanha. Até aí tudo bem. Correto. Tratado de Tordesilhas em 1494. E que ficámos com a melhor parte: o Brasil. Erro! Em primeiro lugar, na altura não existia o Brasil; em segundo, por ocasião da assinatura do Tratado, a maior parte correspondente ao que hoje é o território brasileiro pertencia, efetivamente, a Espanha. Um dos meridianos do Tratado estipulava que as águas pertencentes a Portugal iriam até 370 léguas a oeste do arquipélago de Cabo Verde, o que só apanhava, permitam-me a expressão, um pouco da costa da América do Sul. Um pouco aqui é relativo, mas era mesmo só a costa brasileira. Ora, como se sabe, o Brasil é o quinto maior país do mundo e grande parte do seu território (incluindo o estado do Amazonas) encontra-se bem no interior do continente, em terras pertencentes à coroa espanhola. Como é que no vídeo se afirma que ficámos com uma parte que nem era nossa? Sucede que, apercebendo-se desses factos, os reis portugueses promoveram a colonização do interior do continente. O diferendo só ficaria resolvido em 1750, com a assinatura do Tratado de Madrid, que revogou os preceitos do Tratado de Tordesilhas e reconheceu a ocupação efetiva das terras. Resumindo: as terras eram de quem as detinha. Como era Portugal que estava nesses territórios, o que o velhinho Tratado de Tordesilhas dizia já não era aceitável. Daí o tamanho do Brasil...
Filipe de Brito, e avançando, foi rei não do Myanmar, uma vez que a antiga Birmânia tem esse nome desde 1989, mas sim do Pegú, o nome dado a uma pequena parte do atual território que constitui o Myanmar. Esse "reinado" foi fantoche e não significou nada mais do que umas vitórias militares. As terras eram conquistadas em nome dos reis e não dos conquistadores. Ao que no vídeo se chama de "reinado" não era mais do que uma gestão do território em nome do rei, território esse que corretamente era o Sirião e não Pegú propriamente dito.
No vídeo descobrimos que Garcia da Orta recebeu Mumbai, ou Bombaim, como diríamos hoje em dia. Não pode ser mais errado. Os portugueses chegaram a Bombaim no início do século XVI e as cidades ou fortificações conquistadas pertenciam à Coroa e não a súbditos.
Parecem bastantes, não? Muitos mais existirão, deduzo eu. Não está em causa o mérito do vídeo; isso é inegável. No entanto, um pouco mais de precisão e veracidade não fazia mal algum. Valeu a intenção.

13 comentários:

  1. Bem, haviam "factos no vídeo que não me faziam quase sentido, mas agora está explicadinho.
    Com tudo o que apontaste começo a ver menos mérito no vídeo, mas isso sou eu que não lhe dei muito valor.

    PS: Obrigado pela lição de história.

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  2. tiago: No fundo, está carregado de erros, o que retira alguma piada. Eu achei engraçado e até gostei, mas os erros são inadmissíveis.

    Ora essa! Eu adoro História. (:

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  3. mandaram-me o video por email e na altura gostei bastante, mas agora que mostraste esses erros todos acho que quem o fez, o tal autarca de Cascais podia ter tido mais cuidado. O que achei mais engraçado foi a abolição da escravatura em 1869. Afinal não fomos assim tão pioneiros... :X
    Abc

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  4. Tomás: Pois podia, ainda mais, devia, mas não teve...
    Nada pioneiros, mesmo. Na altura em que, de facto, abolimos a escravatura, vários países da Europa já o tinham feito ou estavam em vias de o fazer. Fomos pioneiros, isso sim, na abolição da pena de morte para delitos comuns, os chamados crimes civis.
    Abraço. (:

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  5. este rapaz continua a surpreender-me. Também vi o tal vídeo mas não apanhei todas as gralhas que apontaste. Bravo ;)

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  6. Speedy: E duvido que tenha apontado todas. LOL Vi, sobretudo, os erros históricos porque é mais a minha especialidade. (:

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  7. Sou um fã teu! Eh, eh! Não me tinha apercebido desses erros todos! Impressionante!
    Mas, mesmo assim, gosto do vídeo e, independentemente do conteúdo, o objetivo é nobre! :-)
    Abraço!

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  8. Ikki: Obrigado. (:
    Exato, eu também reconheço o mérito do vídeo. Foi bem conseguido. Os "erritos" é que, pronto, eram evitáveis. (:
    Abraço. ^^

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  9. só li o princípio,e em relação aos gregos não está errado. eles estiveram cá bem antes dos romanos. eles, os alandos, os visigodos, bárbaros... etc, no tempo em que o homem ainda habitava em habitações redondas, de pedra com cobertura em colmo, de um compartimento apenas. Por onde se poderia tentar refutar seria por a essa data ainda não existir Portugal... nem nação, nem noção de país, existiam sim os castros.

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  10. Miguel: Aceito a sua opinião, mas discordo totalmente dela. Não há um único dado fidedigno que nos indique que os gregos estiveram no território que hoje é Portugal. É que em lado algum li ou ouvi semelhante coisa. Em relação aos visigodos, sim, obviamente. Já agora, o Miguel refere "visigodos, bárbaros", mas não se esqueça que os próprios visigodos eram os bárbaros... É um erro seu.
    Mais, se os "gregos" estiveram cá na altura em que "o homem ainda habitava em habitações redondas, de pedra com cobertura em colmo" dá a ideia de que se viviam tempos arcaicos. Acha possível chamar de "gregos" a povos que tenham estado na Península Ibérica na altura em que se vivia de forma tão rudimentar? Com certeza não seriam gregos!

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  11. Eu não estava a dizer coisas do topo da cabeça que ouvi numa taberna há 2 anos... é mesmo matéria que estudei este ano na faculdade. Os Visigodos são considerados bárbaros, sim, mas existem mais povos que fazem parte dessa designação e que também estiveram cá, daí ter generalizado. Erro seu também ao individualizar... ;)
    De qualquer maneira, os gregos estiveram cá sim! séc. VIII a.C. se não estou em erro. Já agora, foram os gregos que começaram por chamar Iberia à nossa península.
    Quanto a ser arcaico... a nível construtivo, a diferença entre as habitações desta altura e das de séculos posteriores é apenas uma, as posteriores têm paredes rectas. Não acho que isso as faça ser menos arcaicas.
    E a informação existe. É tão fidedigna como tantas outras. A história não é matemática.

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  12. Ouça, como lhe disse, não duvido de que tenha conhecimentos de causa, mas repito: nunca ouvi ou li semelhante coisa. Tudo o que escrevo também se baseia no que aprendi, no que aprendo na faculdade e no que aprendo por mim próprio.
    Em relação ano nome Iberia, também nunca ouvi semelhante explicação. A península era conhecida por Hispânia durante o Império Romano, logo, parece-me improvável que tenha existido um "renascimento" de um nome que seria utilizado anteriormente. A língua portuguesa até deriva do latim e não do grego...
    Acha mesmo que as construções dos séculos posteriores apenas alteraram o pormenor das "paredes rectas"? Nada mais mudou a nível de arquitetura e de evolução nas construções?
    A História não é matemática, mas não se baseia em informação dispersa e não fidedigna, desculpe a sinceridade.
    Se foi o autor do vídeo que circula por aí, olhe, mesmo que se considerasse que os gregos estiveram na península, existiriam muitos outros erros.
    Já agora, não pretendo fazer da minha caixa de comentários uma extensa lista de argumentos e contra-argumentos. O seu ponto de vista nesta matéria já ficou bem explícito.

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  13. Quando vi o video pela primeira vez achei que algumas coisas não pareciam muito certas, mas isto é assombroso. Se na Finlêndia descobriram os erros do vídeo, a imagem de Portugal não deve ter subido muitos pontos.

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Um pouco da vossa magia... :)