23 de março de 2011

A Morte, Essa Selvagem Demolidora...


A morte chega e leva, nada traz. 
Traz, até, retifico: traz dor, solidão, apatia e um sentimento estranho de perda.
O mais incrível é o poder que a morte toma na mente fraca do Homem. Somos perecíveis, ponto final. Morremos, como algo que se extingue e - verdade das verdades - somos o único animal que tem plena consciência do seu caráter finito.
Afinal, o que somos senão uma matéria disforme unida segundo critérios biológicos? Um pedaço de carne, racional, é certo, mas mesmo assim um mero pedaço de carne. O que nos distingue de um qualquer animal, tal como um grande primata ou uma formiga, é precisamente a nossa racionalidade.
Num critério mais social, a morte tem uma carga sentimental fortíssima em todos nós. Excluindo o evidente quando se trata da morte de um familiar, questiono por que motivo sentimos perdas distantes como se fossem nossas? Estarei a extrapolar o que sinto para um nível quase universal? Talvez. Falemos em mim, então.
Eu fico abalado quando sei que alguém morreu. Até aqui nada demais. Todavia, por que motivo sinto algumas perdas como se fossem minhas, pessoais, abalando verdadeiramente a minha estrutura quando, de facto, não o são?
Morreu a Elizabeth Taylor. Morreu. Foi uma excelente atriz e uma das maiores deusas de Hollywood. Deveria sentir a sua perda a um nível meramente formal. 
"Oh, que pena, morreu a Liz Taylor!" - e, já agora - "Deus lhe tenha a alma em descanso..."
Mas não. Hoje morreu a Elizabeth Taylor e amanhã será como se tivesse morrido hoje e depois de amanhã será menos do que amanhã mas ainda assim como se tivesse sido hoje e assim sucessivamente.
Por que razão sou diferente das outras pessoas? Por que motivo não morreu e ponto final?
Não, amanhã, quando acordar, a Liz Taylor já não estará viva. Ontem ainda estava, assim como no ano passado. Amanhã já não estará viva, não estará.
Quando olhar para o céu, saberei que a Liz Taylor não o estará a fazer porque é cientificamente impossível.
Ela morreu.
Morreu mesmo.
Sinto-me pobre, oco, vazio e impotente. Perdi algo e sinto que todos perdemos.
O grande - grande - problema é que é assim com todas as mortes.
Continuo a querer as pessoas como se as conhecesse, como se gostassem muito de mim e eu muito delas.
Pensava na Liz Taylor todos os dias? Nunca pensei nela. Mas queria-a ali, nos E.U.A, viva. E agora ela obrigou-me a pensar nela e eu não queria. Porque, no fundo, pensar nela significa que algo aconteceu. Algo de mau. E se ela era velhinha e estava doente é porque morreu. E eu não quero.
Sou parvo? Talvez seja. Sou eu.
E a Liz Taylor morreu.

3 comentários:

  1. Acho que nunca vi nenhum filme onde ela tenha actuado. Ou se calhar já e nem dei importância. Mas uma coisa é certa, quando ouvia o nome Elizabeth Taylor, sabia instantaneamente que era uma das grandes actrizes de Holywood. A verdade é essa, eu podia até nem ser um grande fã, mas admirava o quão conhecida ela era, e o nome era-me tão familiar... De tal maneira que sempre que eu pensava no nome Elizabeth, o meu cérebro punha automaticamente o apelido Taylor a seguir. Mas e agora? Ela morreu. E apesar de eu não ser um fã, sinto a falta dela. Sou como tu, não sabia muito sobre ela, e poucas vezes pensava nela. E agora? Sinto que a vida é mais injusta que nunca. Não, a vida não. A morte é mais injusta do que a vida.

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  2. http://www.pinknews.co.uk/2011/03/23/god-hates-fags-to-protest-at-elizabeth-taylors-funeral/

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  3. Ragdoll: A morte é bem mais injusta do que a vida...
    Quanto à Liz, tal como tu, sinto a sua falta mesmo não tendo acompanhado a sua carreira. No entanto, apesar de "ausente" dos nossos pensamentos, sabíamos que ela estava lá... Estava. :(

    Anónimo: Que horror! Há gente mesmo muito má, realmente. :S

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Um pouco da vossa magia... :)