7 de novembro de 2010

Tarde de Estudo


A nossa tarde de estudo correu bem. Combinámos uma hora e ele revelou uma pontualidade fantástica. No dia anterior, ontem, ainda lhe disse que iria ter ao seu encontro a um qualquer lugar que combinássemos. Ele rejeitou de imediato. Quis vir sozinho. É muito independente e, já constatei, não gosta de incomodar ninguém. Gosta, no fundo, de resolver tudo por si só. Restou-me dizer o endereço da minha casa e os transportes a apanhar. E, às quinze horas, estava à minha porta.
Convidei-o a entrar. Tentei ser o mais simples possível, o que da minha parte é difícil, convenhamos. Mal o vi, o meu coração bateu sofregamente no meu peito. Ele vestia uma t-shirt branca sob um casaco preto com capuz. Trazia a mochila da Eastpak (também tenho duas: uma preta e uma com padrões, mas já não ligo). Muito desportivo. Estava com uns jeans desbotados, como se usa e os ténis habituais, assim já meio usados mas que lhe dão um ar tão apetecível. Adoro aquele ar rebelde e descontraído. O seu cabelo é curto e está sempre despenteado. Mas é natural. E depois, ele tem um jeito: passa a mão no cabelo para ainda o colocar mais despenteado.
Recebeu-me com um «olá» simpático e com um aperto de mão. A sua mão quente e máscula apertou com força a minha mão mais delicada. Senti, mais uma vez, a sua masculinidade a tomar-me de assalto. Notei na forma dele olhar para a decoração da casa. Sentiu-se estranho, intimidado e sem jeito. Comecei a falar das aulas para o relaxar e perguntei-lhe se queria comer alguma coisa. Disse-me que talvez mais tarde e começou finalmente a sorrir, provavelmente quando lhe disse que estávamos sozinhos. Pensou, naturalmente, que estavam pessoas em casa e, conhecendo-me, teve receio de que fossem todos uns grandes queques que o achariam uma atracção. Soube interpretar esse receio legítimo e mesmo por isso não quis que o lanche/estudo fosse na casa da avó. Não pela avó, mas sim pelos acessórios (tios, primos, sobrinhos, etc). Ainda para mais num domingo!
Fomos estudar. Encaminhei-o até ao escritório da mãe. Os livros já estavam dispostos sobre a mesa. Convidei-o a sentar-se e disse-lhe:
-"R., relaxa. Estamos só nós. Fica à vontade. Fala, brinca, faz o que quiseres. Somos pessoas normais. Não te impressiones com a casa." (ri)
Não tardou e começámos a estudar, contrariamente ao que pensava. Mas estudávamos e falávamos ao mesmo tempo. As coisas fluiram naturalmente. Ficámos no lado de fora da secretária da mãe, onde estão dois cadeirões, um ao lado do outro. A um dado momento, ele aproximou a sua cadeira da minha, de forma a que ficámos juntos, debruçados sobre o livro. Sentia a sua respiração nas minhas mãos. A proximidade da sua boca colocou-me nervoso. Ele fingia uma naturalidade inexistente. Esteve perto, mas nada aconteceu. Ficámos naquele vai-que-não-vai e ainda bem. As horas passaram. Coloquei uma música suave para escutarmos. Até isso preparei. Fui buscar um álbum do Pedrinho, The Joshua Tree, dos U2, um género de música que não gosto, mas sei que é do seu agrado. Já o tinha ido buscar antes da sua chegada. O meu irmão do meio deixou cá em casa uma colecção considerável de músicas que não gosto, mas que dão sempre jeito.
Às dezassete fomos lanchar. A essa altura, ele já brincava comigo, já sorria, enfim, parecia que estava na faculdade. Sabem que mais? Gostou da decoração da mesa. Disse-lhe qualquer coisa do género:
-"Espero que gostes. Já me conheces minimamente. Faço tudo assim. Foi com carinho."
Tive a melhor das reacções. Ele brincou, lógico, principalmente com a cor dos guardanapos. Mas sei que gostou. Comeu duas fatias do bolo de chocolate, salgados e uma sandwich (não sei como se mantém magro). Perdi o protocolo. Sentei-me descontraidamente. Brincámos, rimos imenso. Foi tão divertido. Reparei em vários detalhes. Ele está sempre de pernas abertas. É mesmo homem. Ahahahah. A forma de segurar nos talheres, de mastigar, de beber o sumo... Reparei num outro detalhe: em toda a tarde, só mexeu no telemóvel uma vez. Num domingo? Provavelmente não tem namorada. E da única vez que mexeu, foi para atender uma chamada da... mãe. Fiquei ligeiramente contente.
Depois do lanche, levei-o a conhecer a casa. Subimos as escadas e  fomos ao meu quarto. Mostrei-lhe os meus cd's, os meus jogos da Playstation, os meus livros, os meus animais de pelúcia (sim, tenho muitos e bem fofos), etc. Se vissem a sua timidez ao entrar. É tão educado. Vê-lo a entrar no meu quarto foi algo indescritível. Sentámo-nos na cama e mostrei-lhe a minha colecção da Mariah. Logo à entrada, ele viu o meu quadro gigante com uma foto da Mariah que está por cima da cama e apanha grande parte da parede. Riu imenso. Fi-lo prometer que não gozaria comigo. :) Mostrei-lhe todos os cd's dela, os seus perfumes, os livros que fiz com todos os recortes de revistas e jornais que tenho e outros artigos. Disse-me que não era um género de música de que gostasse muito, mas disse que, por mim, ia tirar algumas músicas dela para ouvir. :)
O tempo passa depressa. No conto geral, estudámos mais do que eu pensei. Por volta das vinte horas (oito da noite), perguntei-lhe se queria jantar. A Ana deixa sempre algo preparado. Disse-me que estava muito bem e que era melhor ir andando devido aos transportes. Para além disso, amanhã é segunda.
Despedimo-nos à porta. Agradeceu-me a amabilidade. Foi uma despedida sentida. Custou-me um pouco. Vi-o a afastar-se com uma nostalgia estranha. Com as mãos nos bolsos e de mochila às costas, desapareceu no horizonte.
Fechei a porta. Abri talvez uma outra na minha vida.

8 comentários:

  1. última vez que me convidaram para entrar e conhecer um quarto, correu mal...

    ... nem sei como te contiveste seu maroto

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  2. Correu bem :D
    Aos poucos as coisas vao acontecer, se ele gostar de rapazes claro :)

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  3. Correu bem então :) Mas parece que estavas à espera de algo mais, sei o que isso é.
    Pode demorar, mas se algo tiver que acontecer acontecerá.
    Um abraço

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  4. Estava contigo a 100%. Não gosto quando alguém está comigo e está sempre a mexer no telemóvel.
    Correu muito bem então :).

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  5. Olha, na minha opinião não poderia ter corrido melhor. Tu estás completamente apanhadinho, e isso diverte-me bastante porque nunca te tinha visto assim. De um momento para o outro parece que o Mark também tem coração para além de cérebro.
    Os momentos de impasse só tornam a coisa mais animada, e se isto vier mesmo a andar para a frente vocês vão-se rir à grande destas situações. Se por outro lado não vier a andar para a frente, não vais ter nada com que te arrepender.
    Acho que tiveste muito bem, e esforçaste-te muito por o pôr à vontade. Medalha de ouro para ti. A medalha dele decide-se nos próximos episódios.

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  6. Mark, fiquei muito contente por a tua tarde com o rapaz ter corrido bem.
    Tal como os outros leitores, acho engraçado o facto de estares mais solto, mais "livre", penso que o rapaz preenche tudo aquilo que não tens ou tens medo de demonstrar, acho que cada um tem aquilo que completa o outro.

    Felicidades e que venham mais tardes de estudo.

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  7. ai que coragem em descreveres tanto o que sentes. Experimentei isso e correu TÃO mal... (tu sabes). Admiro-te.

    Very Special Hug :) amribeiror

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  8. Estás "feito"!!!!
    Se ele estiver como tu, temos caso sério, à vista; e espero bem que sim.

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Um pouco da vossa magia... :)