4 de novembro de 2010

Incertezas em Dó Menor


O Homem está condenado a ser livre. Uma condenação hipotética que parte do pressuposto de uma solidão propositada. A condenação, em si, envolve um sujeito activo e passivo na busca da perfeição por via de uma sanção punitiva. O reflexo da plenitude segue de modelo para o destemido e abandonado procurar por entre vales de vida diluída uma luz, um clarão de luminescência divina. A lei positiva diz que estamos livres. Livres de agir, se pensarmos na acção como um conjunto em que contraentes asseguram, por um lado, uma supervisão paternalista; pelo outro, um objectivo espiritual do mais elevado grau de perfeição moral. A perfeição carnal foi na medida proporcional à imagem do modelo categórico desenhado e concebido já mesmo na altura da mera conjunção. Com as funcionalidades asseguradas, o caminho de trilhos estava também ele sujeito a uma concepção e a um determinismo funcional: assegurar o objectivo, mas de forma a que tudo assumisse um carácter temporal e realístico. Os dados obtidos perdem importância à luz da intervenção superior, todavia, o mérito continua, embora obscurecido por uma ordem moral significativamente maior. A ordem moral escapa ao positivismo humano, mas suponhamos um quadro em que, partindo do activo, tudo segue conforme as suas regras. O mesmo positivismo estará regrado por um conjunto jurisdicional superior, uma norma natural, o que se poderá chamar de divina.
Então, se o Homem é livre, a que se deve tamanha intervenção? Voltamos ao carácter paternalista de supervisão constante. O Homem é livre dentro de um conjunto pré-estabelecido de uma ordem superior axiologicamente conhecida. A consciência é o testemunho espiritual que determina a conduta. A Lei das Doze Tábuas humana. Um ditame à razão e à verdade como fontes de entendimento entre os homens e de aproximação ao transcendente.

10 comentários:

  1. Posso estar enganado, mas este teu texto deve-se a uma profunda e muito boa reflexão devida à frase que deixei no meu blog.
    Estarei errado?

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  2. Não, estás correcto, Pinguim... Hoje estou especialmente melancólico. Já escrevi cinco páginas de dissertações filosóficas e existenciais só da parte da tarde. Tenho dias produtivos. Eu sou muito estranho. :)

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  3. Será que está mesmo condenado a ser livre? Ou terá de conquistar essa liberdade porque está condenado a ser escravo do seu corpo, dos seus desejos?
    O Pensamento ocidental está muito marcado por Santo Agostinho e a sua visão pessimista do corpo e da sexualidade. Só no sec XX essa libertação começa a surgir, e o homem começa a olhar para si de outro modo.
    A liberdade vai-se conquistando. Não é uma inevitabilidade como Kant afirma na Critica da Razão Pura

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  4. O livre arbítrio humano, por si só, determina essa conduta. Se quisermos, em certa parte, podemos seguir um caminho o mais autónomo possível face à escravidão do corpo e dos desejos. Santo Agostinho defendia essa autonomia humana. A vontade do "querer".
    Eu creio que essa libertação vai surgindo em vários pontos ao longo da História. No Renascimento, claramente, o Homem toma consciência de si. É um processo gradual. Seguidamente, os séculos XVIII e XIX foram decisivos mas numa concepção abstracta em matéria de Homem, enquanto ser dotado de razão, consciência e dignidade. O século XX afirmou tudo o que foi adquirido e trouxe-o para a lei positiva, sobretudo a partir de 1945, mas já antes.

    Kant era um humanista. O seu contributo é sempre válido. :) Mal do mundo se Kant não deixasse as suas ideias. :)

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  5. Olá, tens um blog fantástico :D
    Gostaria que visitasses o meu. Estou apenas no inicio. Espero que gostes.
    Abraço

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  6. O Positivismo não não trouxe nada de bom ao mundo. Pelo contrario veio ser a base da teoria Darwinista no sec XIX.
    É uma mentira que o mundo evolui positiviamente e cada dia que passa estamos melhores. Pelo Contrario, o positivismo tende a desaparecer com a tomada de conscieciencia do homem de que ha uma evolução negativa - a Involução, e é para lá que caminhamos

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  7. Sôfrego, quando falei em lei positiva, referia-me à lei escrita e não consuetudinária. Não me referi à corrente positivista. :)
    É um conceito jurídico. :)

    Mas, já que tocaste no assunto, cada vez mais concordo com a Involução, principalmente no que respeita à Humanidade em si. O Homem evoluiu tanto nos últimos três séculos que começa a caminhar para o abismo. Os efeitos climáticos já se fazem sentir...

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  8. Gosto do texto, porém, iniciaste-o com uma frase que não está devidamente identificada. É claro que, talvez, a tenhas criado tu próprio, sem ter consciência de alguém já a ter pronunciado, também, num contexto filosófico ou, inconscientemente, teres ficado com esta citação retida de uma leitura e aquando da escrita deste texto, não te lembrares. Ainda assim, quando estava a ler o texto ocorreu-me de imediato, não leves a mal.
    Um dos grandes imperativos do existencialismo de Sartre é "o Homem está condenado a ser livre", afirmou-o numa conferência que, depois, se tornou um livro: "O Existencialismo é um Humanismo".
    Abraço,
    Gustavo

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    1. Gustavo, evidentemente que sei que foi Sartre que a proferiu. Li o livro, inclusive. Como calculas, o texto já tem quase quatro anos, não posso julgar conhecer o que pensava à época. Não a criei eu próprio inconscientemente - por descuido ou por ser tão conhecida, como é, pensei, digo eu, que não fosse necessário identificá-la. Mas agi mal, e assim me redimo.

      Não levo nada a mal. :) Ora essa!

      um abraço.

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    2. p.s.: E anoto com agrado que leste, ou andas a ler, o meu blogue, sobretudo escritos antigos. Lol Bom saber que mantêm o interesse.

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Um pouco da vossa magia... :)