30 de agosto de 2010

Barbárie nos Nossos Tempos



Qual foi o crime cometido por aquela mulher? Adultério!, dizem os falsos moralistas. Reportemos a condenação imoral à nossa sociedade ocidental... Veríamos um sem número de mulheres a morrerem apedrejadas apenas por, alegadamente, terem sido infiéis aos seus esposos. O corpo não é pertença do Estado, mas sim de cada um como ser individual, racional e responsável pelos seus actos. Mesmo - mesmo - que o "crime" tivesse sido outro, a condenação à morte seria criticável. Porém, por um motivo tão pueril chega a ser ofensivo, por mais que tentemos minimamente compreender as bases religiosas que fundamentam estes actos.
No meio de tanta barbárie, a imprensa internacional continua a dar destaque a este caso, não o deixando cair no esquecimento típico das sociedades ávidas de novas e frescas informações. Quantas terão sido executadas antes desta mulher? E quantas ainda o serão no futuro? Em cada uma daquelas mulheres espreita mais uma Sakineh Ashtiani. Alguma será a próxima e a tolerância para estas práticas só poderá ser uma: zero! As tradições mudam com o tempo. A escravatura era uma tradição até à chegada das medidas abolicionistas; as lutas de gladiadores eram típicas na Antiguidade Clássica. Mudaram assim como a compreensão do Homem mudou. A evolução moral acompanha e é parte fundamental de toda a evolução humana. É o dever de cada um lutar contra estas injustiças.
Não fico feliz só por a pena desta mulher ser comutada para outro tipo de condenação; quero que todas estas mulheres respirem paz e liberdade, no respeito que a sua condição humana o exige.

6 comentários:

  1. Olá Mark, bem sei que não sou um dos teus comentadores mais fáceis.
    Ás vezes consigo ser um tanto ou quanto persistente na maneira como defendo os meus pontos de vista e finco pé, acho que ás vezes sou aquela pessoa a quem eu gostaria de dar um valente par de estalos. Mas não é por mal… gosto de desafiar as pessoas, levá-las fora da sua zona de conforto e tentar forçá-las a ter um ponto de vista que vá além daquilo que nos apresentam... mas com este post podes estar totalmente descansado porque concordo em pleno com o que dizes. Acho que acertaste em cheio em todas as palavras
    Revolta-me saber da existência deste tipo de penas e saber o que se faz a certas pessoas... será que as pessoas não colocam a mão na consciência? É muito revoltante mas, em todo o caso, bom post...

    ResponderEliminar
  2. Há de facto com cada tradição! Eu próprio que tenho uma costela conservadora sou contra o conceito de tradição. Uma coisa que hoje sabemos que é errada não deve continuar a ser feita só porque já é feita há muito tempo. Não é desculpa.
    Quanto a este caso em particular penso que o problema não está tanto na religião. Está sim, no aproveitamento político da religião. Em certos países muçulmanos, como é o caso do Irão, a religião, o fanatismo religioso, são usados com fins políticos. A religião é essencial para as esferas do poder se manterem nele, ou para chegarem a ele. É à conta disso que podem controlar o povo. Esta lei que dita a lapidação desta senhora faz parte desse esquema.
    Não concordamos mas no entanto temos que nos lembrar que muitas atrocidades foram ao longo da História cometidas em nome das religiões. Isso não desculpa nada, mas ajuda a perceber como é que as pessoas desses povos permitem que coisas como estas aconteçam. Afinal os povos europeus também já o permitiram. Não os podemos culpar pelo "atraso mental" a que as esferas do poder os mergulham.
    É pena é que só esta situação seja mediatizada a este ponto. Da perseguição aos homossexuais os media já não falam. No entanto são mortos como animais nestes países. Não me admirei nada quando o Presidente do Irão disse: "no nosso pais não há homossexuais." Pensei eu: "claro que não há, já os mataste a todos."
    Um bem-haja.

    ResponderEliminar
  3. Bom, como o Ritchie diz, eu também não sou dos fáceis e que diz sim senhor a tudo. :D
    Olha... Não vejas a escravatura como uma tradição - nem todas as tradições são más. É mesmo uma questão de mentalidade como dizes adiante.
    Mas adultério é crime, sem aspas. Qualquer pessoa que o pratique deve ser punido, quer seja mulher quer seja homem. NINGUÉM no planeta Terra merece morte como julgamento. É uma decisão que choca de frente com os valores dos que dizem ser seus defensores.

    Fico feliz por este tema ter aqui surgido.

    (Posso fazer um à parte?)
    No que o Francisco diz no final, ele tem toda a razão - mas é impossível erradicar uma condição da Natureza, e felizmente assim o é.
    No entanto alguns países do médio oriente não condenam os actos homossexuais mas sim as relações que envolvam sentimentos, ao contrário do que acontecia aqui até à bem pouco tempo, em que a sodomia ainda era punível. ;)

    ResponderEliminar
  4. Este assunto é tão repugnante que quase me dá asco falar nele.
    Mas é importante que se fale; é triste, no entanto, ter lido num blog qualquer um texto condenando esta acção, como o teu e encontrei lá um comentário assinado por uma certa "Margarida do Algarve", que refere que Sakineh sabia antecipadamente a que se expunha antes de praticar os "crimes" que cometeu e que portanto acha bem o castigo aplicado; e vai ao cúmulo de afirmar que a manifestação no Camões era uma ingerência nos assuntos iranianos...
    Brada aos céus!!!!!!!!!!

    ResponderEliminar
  5. Ritchie: Fico revoltado com esta barbárie. Mesmo!

    Francisco: Tens toda a razão. Aliás, há pouco tempo soube que num país do Médio Oriente assassinam barbaramente vários homossexuais e atiram-nos, literalmente, para caixotes do lixo! Um horror sem palavras para qualificar. :S

    Vasco: Eu não vejo o adultério como um crime, mas sim como um acto errado por parte de um dos membros de um casal. Ou ambos, no caso de se tratar de adultério mútuo. Em todo o caso, é errado. Não gosta, separa. :)
    Em relação ao crime de sodomia, efectivamente, os actos homossexuais em Portugal só deixaram de ser criminalizados em 1982/83. Aliás, um militar muito conhecido da nossa praça, aquando do 25 de Abril, disse claramente: «O 25 de Abril não foi feito para prostitutas e homossexuais!»
    Eis a mentalidade portuguesa há 30 e poucos anos...

    Pinguim: Às vezes, penso que essas pessoas têm essas opiniões só para escandalizarem quem as lê. Enfim...

    ResponderEliminar

Um pouco da vossa magia... :)