7 de junho de 2010

Conversas em Família

Não se assustem. Apesar do título do post aludir ao programa homónimo de Marcello Caetano (que a avó odiava, afinal, governava muito «à esquerda!»...), de 1969, posso garantir que se trata de uma mera e simples coincidência. Em família, as conversas resvalam sempre para o campo político, financeiro ou cultural, principalmente quando se juntam os tios. Por vezes, também falam sobre futebol e golfe, mas são conversas que, sinceramente, não me seduzem nem um pouco. As primas já falam sobre assuntos que me suscitam mais interesse, exceptuando as mais novas, que estão sempre a falar da Miley Cyrus ou do Justin Bieber. O que eu sofro. A Patrícia tem lá os seus gostos, mas é uma querida. Aliás, são todos. Nesse aspecto tive imensa sorte. Também lhes transmito alguma coisa. Estão quase todas viciadas na Mariah Carey, o que é óptimo.
Ontem fui jantar a casa da avó. E, como é evidente, foi um jantar em família, apesar de não ter reunido os adultos. A avó gosta de se inteirar dos nossos assuntos, das notas escolares, enfim, de tudo. Sei que aprecia o facto de ter os netos à sua mesa. No fim do jantar, a Glória serviu-nos a sobremesa. Escolhi fruta, uvas, assim como a Patrícia, embora o bolo de chocolate tivesse uma cara apelativa. Evito ao máximo, muito mais agora, no Verão. Quando começámos a comer a fruta, a Patrícia tem uma saída fantástica:
-"Uvas? Sabias que é das uvas que vem o azeite?" - disse-me, peremptoriamente.
-"Não, querida. O azeite vem da azeitona..." - respondi-lhe, de forma meiga.
-"Não é nada! As uvas dão azeite e quando são amarelas o azeite é mais clarinho!" - ripostou.
-"Pati, ouve uma coisa, o que é que o avô tem na quinta do Alentejo?" - perguntei-lhe, esperançoso de que a pergunta surtisse algum efeito.
-"Não sei..." - respondeu-me, desiludida.
-"Tem oliveiras, querida. Daí vem o azeite que consumimos. A uva vem da videira e depois de todo um processo de transformação, dá origem ao vinho." - senti que ficou impressionada.
Confesso que os meus conhecimentos hortícolas, vinícolas e por aí são mínimos, mas isto é tão básico que senti-me mais parvo do que erudito.
Só estávamos os dois à mesa. Os primos já tinham saído e os avós também. Fez-se algum silêncio. Passados uns minutos, volta a falar.
-"O casamento gay já foi publicado em Diário da República. Os gays já podem casar!" - afirmou, decidida.
-"Pati, por amor de Deus, não sabes que as uvas dão origem ao vinho, mas sabes o que é o Diário da República? Surpreendes-me a cada dia que passa!" - disse-lhe, mostrando toda a minha admiração.
-"E não sei! Só sei que era imprescindível para que se pudessem casar." - respondeu-me.
Abanei a cabeça, desapontado. Após mais uns minutos de silêncio.
-"Já posso casar com a rapariga de quem gosto!" -  disse-me, sem qualquer pudor.
-"Pati, estás a brincar comigo, certo?" - indaguei, ansioso e nervoso, porque parecia tão real aquela afirmação.
-"Não, não estou!" - respondeu-me, de forma convicta.
"Será genético?" - pensei. "Que mais casos terá a família?" - mantive o raciocínio.
-"Pati, querida, o primo está contigo. Podes falar abertamente. Serei o último a censurar as tuas escolhas. Entendo o que passas. Eu estou aqui." - peguei na sua mão e mostrei-lhe toda a minha amizade por ela.
Desatou a rir na minha cara.
-"É claro que não sou lésbica, tonto. Apanhei-te. Gosto muito de rapazes, mas não tenho nada contra." - afirmou, mostrando o seu sorriso sarcástico e vitorioso, afinal, tinha-me enganado.
-"Que tonta que é! Não se brinca com estas coisas. Parva!" - levantei-me e saí, mostrando a minha indignação e fingindo estar aborrecido. Senti as suas risadas. Tem de aprender.
Não lhe dirigi a palavra durante o restante tempo que estivemos na casa da avó. Também não mostrava estar arrependida ou incomodada. Brincava e falava descontraidamente com as outras primas.
Hoje, enviei-lhe uma sms a mostrar que não estava triste com ela. No fundo, adoro-a. Era incapaz de me zangar com ela. Confesso que, quando cheguei a casa, ri-me do caricato da situação. Bobo fui eu. Acreditei nela.
E não é que me enganou mesmo?

5 comentários:

  1. Oh obrigado =$
    Também aprecio muito o teu blogue. Adoro as histórias da tua vida!

    PS: Ou a tua prima é muito matreira ou és tu que és ingénuo de mais xD

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  2. Não sei como é que conseguiste cair nessa lol.
    É engraçado, tenho notado que tens falado mais na tua vida, directamente, do que escreveres os habituais textos bastante elaboradas que costumas publicar.
    Gosto disso.

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  3. É eu já confirmei o pedido :)

    ( tens cá uma gadelha, vou-te contar xD )

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  4. A tua prima deu-te a volta; as mulheres são incríveis...

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Um pouco da vossa magia... :)