2 de março de 2010

Mais uma vítima do preconceito


Ontem recebi um telefonema de um "amigo" com quem falo de vez em quando. Coloco amigo entre aspas porque, de facto, não o posso considerar um amigo íntimo com quem tenha uma relação especial. Conheci-o em 2002 (era tão pequeno ainda), na casa da avó no Alentejo. Ele vive lá, nasceu lá, enfim, é filho da terra. A avó conhece a família dele e alguns dos seus familiares chegaram a trabalhar para a avó. Existe uma relação de proximidade.
Ele é mais velho do que eu dois anos. Nas férias do Natal, Páscoa e, por vezes, Carnaval, costumava ir passar lá esses períodos de tempo. A família dele é carenciada e, como a avó os conhecia, ele tinha o hábito de vir brincar comigo e com os primos. Até aqui nada de especial. Acontece que ele é gay e, já naquela altura, era imensamente discriminado. Alguns anos mais tarde, em 2006, revoltava-me o que eu assistia. Na rua, as pessoas gozavam descaradamente com ele. Homens, mulheres, até crianças, instruídas com a maldade dos pais. Por vezes, eu e os primos saíamos com ele. Passado pouco tempo, só eu e a Ana resistimos. Os primos (rapazes) tinham vergonha de o acompanhar. Em qualquer lugar onde entrava, era vítima de homofobia. O motivo, embora de forma alguma desculpabilizante, era o facto de estarmos num local isolado do interior. A Ana não aguentava e, não raras vezes, respondia aos homofóbicos. O rapaz vinha sempre a chorar para casa, profundamente envergonhado, mas contava com o nosso apoio. Na altura de regressar, demos-lhe o nosso contacto telefónico, e-mail, de forma a ele poder desabafar com alguém (até o irmão o gozava!!!).
Mantivemos o contacto. Em 2007, não aguentando a pressão, ele foi para Inglaterra trabalhar, mas deu-se mal. Voltou. Para onde? Para a terrinha! Voltou a discriminação, o gozo, segundo me contava. O pai não o aceitou, teve de alugar casa. Ninguém lhe dava emprego... Um rol de horrores.
Ontem telefonou-me. Perguntou-me se podia passar uma temporada em minha casa. Não soube o que lhe responder. Por mim até pode, mas não sei se a mãe vai aceitar. Já vários amigos dormiram cá em casa, mas viver é outra coisa. Implica uma convivência diária, uma confiança que ainda nem temos. Disse-me que não vai incomodar, nem dar despesa. O problema não é esse, é mesmo a falta de intimidade. Fiquei de lhe dar uma resposta amanhã... Já perguntei à Ana, e ela disse-me que o melhor é ser directo e objectivo: Não dá!
Mas tenho pena dele.
Que mundo este, em que uma pessoa tem de sair da sua própria casa, do seu ambiente e da sua família devido ao preconceito abismal que ainda existe.

5 comentários:

  1. Isso é mesmo triste... E só espero que, de alguma forma, a sua situação se resolva...

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  2. É o que eu também espero. Ninguém deve conseguir viver assim.. :(

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  3. Sabes Mark, eu também acho que devias dizer ao "amigo" que não o podes acolher na tua casa, mas podes sugerir que arranje um quarto em Lisboa desde que trabalhe para o pagar. Na nossa casa por muito amigo, existe sempre a intromissão na nossa privacidade e perdemos o direito de andarmos á vontade no nosso espaço.
    Pensa nisso, ninguém vive de penas, só de factos concretos. O teu amigo tem um problema que ele é que tem que a resolver, embora lhe dês apoio.

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  4. É precisamente o que irei fazer: dar-lhe o apoio necessário.. :)
    Obrigado pela dica... ;)

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  5. às vezes somos postos perante situações verdadeiramente desagradáveis, mas devemos sempre, depois de pesar muito bem os prós e contras, tomar uma decisão e ser honesto a comunicá-la, pois o contrário irá acabar por trazer problemas...a ambos.
    Mas não lhe faltes com o teu apoio.

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Um pouco da vossa magia... :)